terça-feira, 5 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro" -XII


Lorenza telefonou-lhe e disse que tinha uma coisa para lhe dar. Ele não perguntou o quê e foi ter a Veneza. Viu-a chegar, por detrás dos vidros do café, com o Colleoni à frente. Atravessava Ss. Giovanni e Paolo metida consigo. E demorou a atravessar a praça, desengonçada e determinada: a tropeçar e a equilibrar-se. Abriu a porta, a fingir que não o via, agarrou numa cadeira, sorriu-lhe, e pôs em cima da mesa um caderno forrado com papel azul.
— É o meu diário...
Andrea pensou: «... não há dúvida que ela gosta de mim: eu não lhe pedi nada, nem sabia que ela escrevia um diário, e ela confiou-mo!»; e, também, emocionado: «Deus existe! As pessoas ainda se preocupam umas com as outras!» Era o gesto gratuito que o impressionava: ela estava à espera de que ele tivesse paciência para ler aquele caderno? Punha-o ali à frente, a fingir que era por acaso. E se ele o deitasse fora? Se o ignorasse, nem sequer olhasse para as páginas e só quisesse, dela, que estivesse ali e mostrasse que precisava dele? Ali a tinha, do outro lado da mesa, com as pernas trocadas, um sapato pendurado. Curiosa, divertida, disponível, o que é que iria fazer dela? Foi Lorenza quem acrescentou e, pareceu-lhe, com secura exagerada:
— É um caderno de infelicidade e desalento.
«Também, certamente, com um bocadinho de literatura», comentou Andrea, para si, enquanto ela esperava. Ia vendo — e adivinhando — o que se passava à volta: as crianças que brincavam e as mães que conversavam ao pé da estátua; o dono do café, na sala ao lado, que atendia os outros clientes; por detrás do hospital, imaginava as Fondamenta Nuove e as ilhas, porque era para ali que quereria ir com Lorenza, que quereria levá-la. E, na tentativa de vencer a perplexidade e a emoção, juntou estas palavras que logo lhe pareceram despropositadas e ridículas:
— Se escreveres, não te esqueças que se trata de uma coisa muito importante. Não te deixes estragar. Os literatos são pessoas venais. Pobres literatos!...
Ela respondeu-lhe, agressiva:
— E quem é que te disse que eu escrevo?
Andrea sorriu, assustado com impaciência dela:
— Não escreveste este caderno? — e continuou, inseguro, e a procurar impor-se — Os escritores andam por aí a vender a dignidade: basta que lhes sirvam um prato de lentilhas. Querem, apenas, que os conheçam e que os aplaudam. Não se procuram a eles, procuram o aplauso dos outros. Escrever é uma coisa séria.
-Gostas muito de ler?
-Sempre gostei, sempre me interessaram.
-Apaixonaram?...
-Sim. Nunca te disse?
Quando escolhera a profissão de médico, isso significara a procura de uma vida intensa, autêntica, uma entrega, que percebera na Arte. O pai, jurista escrupuloso, lia, comprava quadros, ia à ópera,. E, talvez por isso, porque o via lutar, obstinadamente, com a realidade e, ao mesmo tempo, escolher edições raras, vestir o sobretudo azul de caxemira e atravessar Treviso, com o bigode branco e os olhos tristes, no meio do nevoeiro, para ir ouvir Puccini —escolhera esse caminho, espécie de vida de artista. Os olhos de seu pai tinham-no marcado: afinal, não se realizara, pactuara. Não queria voltar a casa com aquela melancolia. E, afinal tudo fora dar ao mesmo: era um médico a adiar a morte e a ganhar dinheiro. Se Lorenza queria escrever, que se desse e chegasse onde ele e o seu pai não tinham chegado. E, vencendo o pudor, arriscou:
-Se escreves, é porque precisas disso. Ninguém vem ao mundo sem um destino, e esse destino não se deve trair.
Ela troçou.
-Que filósofo!
Mas apressou-se a corrigir:
-Eu não quero trair-me, descansa.
-Ainda bem!
Eram sinceras as palavras que dissera. Não resultavam, apenas, da entrega inesperada de Lorenza —entrega que era dar-se ela só a ele, e que não queria perder. Nesse momento, ela libertava-se da casa que o chocara, das pessoas que imaginara mesquinhas, e aparecia-lhe como desejava que fosse a mulher que um dia encontrasse: aberta e exigente. E, afinal, tão frágil, na inconsciência de oferecer-se e deixar que a ajudasse. Lesse o que lesse no diário de Lorenza, confirmaria a diferença: que ela queria outras coisas, outro mundo; que andava naquela vida, emprestada, à espera de que acontecesse qualquer coisa. Ali estava, com os olhos postos nele, com os olhos que se não afastavam, enquanto ele não tirava os olhos do caderno e o folheava. Estava à espera de o ouvir: como iria julgar o aquele gesto? O que pensaria do que ela escrevera no caderno? Era essa a sua maravilhosa fragilidade.
—De que coisas é que sempre gostaste mais? — perguntou-lhe, apreensiva.
-Da sinceridade das pessoas, é uma coisa sagrada.
-Sinceridade?
Muito do que escrevera no caderno Lorenza não se importava que Andrea lesse. Certas passagens, porém, até a ela a incomodavam. Resolvera mostrar-lhas —mesmo as que a afligiam. O caderno agora era dele. Não teria coragem de lho tirar das mãos. E, se pensasse a sério, concluiria que quisera que alguém conhecesse os seus mistérios, dividisse, com ela, o peso deles. Eram mistérios de poucos réis, que entregava ao homem que parecia amá-la. Ia, com os pobres mistérios, na esperança de que lhe perdoasse as complicações e lhe ajustasse a vida. Fizera-o porque se fartara de viver sozinha? De falar sozinha: «um diálogo entre o pânico e uma pessoa que quereria ultrapassar a aflição, vencê-la, e que não percebia por que é que havia de afligir-se e estar sempre triste» — como desabafara, no diário? Fazia-o, porque Andrea lhe parecia diverso. Às vezes via-o necessitado de protecção, apesar da segurança aparente. Era uma pessoa contraditória e exposta. Quanto mais se revelava mais se aproximava dela: reconhecia, nele, os próprios defeitos e, então, vinha-lhe a vontade de exibir as fraquezas, para o amparar. Ao mesmo tempo, atraía-a: fizera coisas que ela não fizera e que lhe contara, há dias, sem que ela lhe perguntasse nada. Casara-se e tivera um filho, era médico, deixara a mulher. Ela andava às voltas com o curso e com a idade. Punha-lhe à frente o caderno, por duas razões: porque estava farta de o guardar só para si e porque Andrea talvez o entendesse. Ainda há pouco, dissera aquelas coisas, que a vida era uma aventura e que havia um destino que tinha de se respeitar. Dissera-o, porque queria entendê-la e ouvi-Ia? Reparara que folheara o diário com ternura que procurara esconder. Sempre a expressão indiferente, mas, na íris, no meio do olho, brilhara uma luzinha, que a aquecia agora.
— A tua letra é tão elegante! Às vezes, misturas, mudas a caligrafia, mas deve ser de propósito. O meu pai também escrevia diários. Nunca os li, queimou-os. Achas que vale a pena guardar um diário?
— Tu dirás...
— Se ler o teu?
-Com certeza! Ou pensas que isto é a brincar? Não queres ler o meu diário?!
— Quero! Claro que vou lê-lo! Estás sempre desconfiada!
Ela não estava desconfiada. Entre ela e os outros, havia um rio em que não sabia nadar. Às vezes pensava que, se andava com as mãos nos bolsos, era porque ninguém lhe estendia a mão. Levantava-se e saía de casa. Atravessava a Laguna. Metia-se no comboio e ia até Pádua. Correra as ilhas gregas. Ao, sol, ou noutro sitio, o seu corpo estivera sempre dentro de um casaco ou a aquecer-se como podia e a aquecer-se mal. As pessoas à volta davam-lhe pouco, a vida era arrastar os dias. Não acon­tecera, ainda, nenhum milagre. E aquele, à frente dela, a fingir que percebia — e, se calhar percebia e, depois, punha-se a milhas e só lhe deixava frases bonitas, que milagre é que era? E, se calhar, era o milagre. Não podia ser pior do que os outros: mostrava-se tal qual — e o que ele era talvez fosse o que ela quereria que a outra pessoa fosse: exigente como ela, incapaz de aceitar a desistência. Pelo menos, que salvassem essa vontade.
—És tão bonita!
E Lorenza pensou:
«Já estragaste tudo! Eu estava à espera que dissesses que eu não sabia apresentar-me. Assim, absolves-me e não me acompanhas, deixas-me sozinha.»
E em vez de o dizer, incapaz de impedir que a sua mão apertasse a dele, agradeceu:
— Muito obrigada.
— Não tem de quê. É verdade.
«E talvez fosse», pensou Lorenza, «talvez ele fosse sincero.»
— Olha, por que não vens comigo para Treviso?
-Não — respondeu Lorenza e ficou cheia de remorsos.
— Está bem.
Isso doeu-lhe mais: ele aceitar. Tinha aceitado e desistido de a tirar de onde ela estava. Ela estava à espera e Andrea não tinha o direito de ser assim, de lhe fugir — porque, se houvesse insistido, se calhar, teria aceitado, teria ido com ele. Mas não sabia muito bem se teria ido — e estes pensamentos passavam-lhe a correr pela cabeça —, não sabia muito bem o que esperava. Queria, realmente, outra coisa, ou bastava-lhe a indiferença, ou a conivência dos que nada lhe exigiam e, aparentemente, a protegiam: os familiares, certos amigos? Aparecera-lhe Andrea e voltara-lhe o desejo de mudar de vida. E não lhe perdoava que a abandonasse: nesse momento pensava que, na sua companhia, conseguiria modificar a realidade que tanto lhe pesava. E nem sabia porquê — porquê só com ele —, nem onde isso a levaria. Gostava dele, era sua amiga, e não queria perder esse sentimento. Dava o que podia: a estima. O resto — o amor, a paixão — assustava-a. Se fosse sua amiga, ele poderia ser amigo dela. E se o amasse? O que é que ele lhe daria em troca? Provavelmente, não lhe dava nada: usava-a e, depois, dizia-lhe que tinha mais que fazer, desaparecia. Por isso, queria ser só sua amiga. Ficava mais segura.
— Não vens comigo para Treviso, porque tens medo.
— É possível, mas ficas com o meu diário. Achas pouco?
— E onde é que o guardo?
— Podes guardá-lo no bolso...
-Agradeço.
-Está mal escrito...
-Eu hei de perceber.
— Ainda bem. Quando escrevo, fico aflita. O que é que eu queria dizer e não consegui pôr cá fora? Vem-me a vontade de o rasgar.
— Como fez meu pai?
Perguntou-lhe, para dizer qualquer coisa, enquanto a observava. Ela tinha aquilo: a beleza e apresentava-se-lhe desabrigada. Sentiu o desejo de a abraçar, mas não lhe tocou.
«Há de ser ela, um dia, a pedir-me que lhe mexa.»
— Não, o teu pai queimou-o.

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