...interior do Harry's Bar, em Veneza, onde Lorenza e Andrea se encontravam muitas vezes, a mesa do canto, ao fundo, era a sua mesa...Depois, encontraram-se com mais frequência. Quando ia a Veneza, Andrea telefonava-lhe e almoçavam juntos, passeavam pela cidade. Levava-a aos sítios que apreciava e onde era conhecido — ao Harry's e ao Florian —, porque o lisonjeava a companhia daquela rapariga esplêndida. Comprava frisas para La Fenice, oferecia-lhe jantares na Colomba. Mas ela reagia (vinha ao de cima a insegurança que lhes era comum e haveria de explicar muito do que aconteceria depois).
— Faço parte dos teus cenários?
— Não, que ideia! Gosto de trazer-te aqui!
Não fazia parte de nenhum cenário: eram sítios que se habituara a frequentar, onde estivera, anos atrás, com o pai, que também gostava daqueles ambientes abrigados e vagamente boémios. Era uma maneira de organizar e equilibrar a relação deles — e de a equilibrar em um plano que a deveria satisfazer: o da comodidade tocada pela aventura (não acreditava que lhes coubesse mais, ou que tivesse o direito a exigir-lhe mais).
— Queres deslumbrar-me? Não preciso de coisas tão finas. Um dia convido-te para tomarmos um gelado nas Zattere. É mais barato e estamos ao ar livre.
-E com a Giudecca à frente...
Dentro dela, continuava o retraimento. Não queria que a domesticassem. E talvez fosse isso o que Andrea procurava: organizar a sua relação. Ela revoltava-se, porque se sentia espoliada da fome de extraordinário ou de absoluto que poderia revelar-se no encontro deles.
— Nas Zattere, é mais barato, pago eu...
Andrea assustava-se, quando ela não queria sair nos intervalos de La Fenice ou parecia estar por favor nos restaurantes onde a levava.
— Não gostas?
— Gosto — respondia-lhe Lorenza sem o olhar.
Quase nunca se afastaram da irregularidade os encontros de Andrea e Lorenza. No Harry's, no Florian ou no Volto — porque Andrea levara-a, também, à Veneza das osterie. Havia sempre qualquer coisa que os separava. Andrea tinha medo do extraordinário e preferia a calma e a normalidade? É provável que assim fosse e, por isso, se chocassem muitas vezes. É provável, também, que procurassem respeitar-se e ser como eram por caminhos diferentes, cada um à sua maneira, sem quererem roubar nada ao que já era deles: o seu encontro. E, também por isso, havia momentos em que se confiavam. Acontecia-lhes rirem-se de pessoas e recordarem certas coisas: os tempos em que ainda se não conheciam, a cena do vaporetto, a simpatia do neto da senhora retratada por Moggioli. Acontecia-lhe passearem calados, de braço dado, e sentiram-se bem. Eram momentos de verdadeira felicidade, esqueciam os conflitos, abandonavam-se ao gosto de se acompanharem. Iam, assim, absortos ou a dizerem coisas deste teor:
— Lembras-te da cara do Michele Borin, quando nos encontrou em Pádua? Tu à minha espera, com ar de pessoa crescida e de sobretudo, eu a sair da Universidade, com os livros debaixo do braço e os cabelos agarrados em cima com uma guita?
— E a Paola Zanier, em S. Marco? — perguntava Andrea.
— Lembras-te quando a minha irmã atendeu o telefone e tu ficaste atrapalhado? Ela, depois, disse-me que tinhas uma voz muito simpática...
— Gosto de ti.
E ela sorria e apertava-lhe o braço contra o peito. Iam, assim, a dizer banalidades e contentes. Iam contentes porque o que diziam, para eles, não era banal: eram os sinais da estima que os unia. Talvez, nesses momentos, não precisassem de mais nada: o que diziam juntava-os na luz em que gostavam de se reconhecer: os outros lá ,fora e eles dentro daquele mundo que animavam com palavras, risos e frivolidade. Mas era sol de pouca dura: logo se chocavam e arreliavam, parecia que não sabiam estar juntos, que tinham de se ferir.
Da alegria ingénua de dizerem: «Lembras-te do "coiso"? Que cara de parvo que tinha! », e de rirem desse tal e de ficarem contentes por serem cúmplices, passavam a frases como esta: «Não achas que já é tarde? Tenho de me ir embora...» Ao que Andrea respondia, porque era sempre Lorenza quem achava que era tarde de mais:
— Estás farta de mim?
E Lorenza retorquia:
— Tens a mania da perseguição! É tarde, é só isso...
E retorquia-lhe assim porque a irritava que a não compreendesse — que não compreendesse que ela talvez não quisesse dizer aquilo, que talvez quisesse, apenas, que a relação deles se transformasse numa coisa normal e que ele soubesse falar-lhe, que não lhe dissesse o que a levava a dizer o que não devia. E muito provavelmente por isso é que ele replicava:
— Eu não tenho a mania da perseguição. Basta olhar para ti para perceber que estás farta. A tua vida é outra.
Provocava-a: queria ouvi-Ia responder que a sua vida não era outra e que, gostava de estar ao pé dele; queria vê-Ia sair de onde estava e dizer alguma coisa que resolvesse aquele problema. Mas nenhum dos dois dizia nada que o resolvesse: diziam o que adiava a solução, sem se importarem de se magoarem. Iam por ali, sozinhos, um com o outro, e parecia suficiente. Ao mal que, se faziam, iam buscar a própria identidade, a razão da sua sobrevivência. Infelizes, não poderiam viver sem aquela infelicidade, nunca quereriam separar-se um do outro, apesar de saberem que, provavelmente, nunca chegariam a abraçar-se. Era pudor? Insegurança? Medo de não encontrarem o que sonhavam e de perderem a única pessoa que parecia capaz de o oferecer? Medo de se perderem? E magoavam-se, na esperança de que as feridas que abriam fossem marcas indeléveis que os obrigassem a recordar e que ficassem, assim, ligados para sempre. Nenhum dos dois era ingénuo. Não ignoravam a importância da sua relação, nem o que arriscavam nela. Mas queriam vivê-Ia a dois. Durante algum tempo, evitaram os raros amigos comuns. Segundo Andrea e Lorenza, eles eram o que eram: Alberto Memmo, com os quadros delicados e a insatisfação; Gabriele Trevisan, com o olhar sonhador e a meia cerveja; Paola Zanier, exuberante e egoísta; Renata, Michele, Caterina Monastier... Eram bons amigos, mas eles preferiam ficar sozinhos, agredirem-se sozinhos. Aquela guerra pertencia-lhes.
— Só faltava — disse-lhe uma vez Lorenza — que soubessem o que andamos a fazer!
Ele concordou:
— Isto é nosso.
— Isto, o quê?
— Isto, as nossas zangas. Se deixássemos os outros entrarem, estávamos bem aviados.
Foi, realmente, na companhia de alguns amigos que Lorenza e Andrea começaram a separar-se. De repente, eles invadiram a sua vida. Um dia, Lorenza falou-lhe de Caterina Monastier.
— Já viste: como, te compreende melhor do que eu?
E Andrea ficou a olhar, sem perceber por que é que Lorenza vinha com aquela conversa, e, no fundo, a reconhecê-lo: Caterina, pelo menos, nunca lhe criara problemas, as vezes que a encontrara, estivera ao pé dele, a rir-se e sem lhe pisar os pés, com simpatia que lhe lia nos olhos. Aparecera Caterina Monastier, como poderia ter aparecido Paola ou Alberto Memmo. Chegara porque Lorenza se lembrara dela, do mesmo modo que Andrea se teria lembrado de Pinóquio ou de Michele Borin.
Passara tempo de mais e, agora, estavam cansados. Tinham esgotado a resistência. Precisavam de respirar. Tinham um nó na garganta, não aguentavam a prisão das palavras ditas à espera de que aparecessem outras. A dor era aquela: gostarem um do outro. e não conseguirem amar-se. Não os afligia só o frio — que era a indiferença, a distância a que, dir-se-ia, o fado os obrigara !(e temiam que assim fosse) — nem só quanto lhes custava encontrarem-se apesar de gostarem de se ver. Afligia-os a intimidade criada. Conheciam-se de mais para não se envergonharem de certas atitudes: as vezes em que fingiam que não se estimavam, as vezes em que se arranhavam e, depois, se punham a lamentarem-se como, se fossem vítimas de uma fatalidade. Envergonhavam-se, já não os convencia esse teatro. E o que é que podiam fazer? Virarem as costas? Sacudirem-se? Esquecerem-se um do outro? Irem à sua vida? Ela outra vez no Lido? Ele outra vez no consultório de Treviso ou com os colegas do Hospital de Ss. Giovanni e Paolo? Ela com os amigos dela, ele com os amigos dele? Vontade, muitas vezes, não lhes faltava. Mas não eram capazes de se separarem e recorrerem aos amigos. Procurá-los era um modo de continuarem a falar sem que se defrontassem. Espantavam as mágoas: falavam de si com quem os ouvia, com os amigos interessados na história. Andrea chegou a confiar-se a Caterina Monastier e Lorenza, cada vez mais assídua junto de Paola Zanier, abriu-se com Michele Borin. Durante algum tempo os amigos que se interessavam por eles e pela sua história — por razões várias, porque eram realmente amigos e porque as dificuldades deles lhes despertavam a atenção—, acreditavam que faziam parte do drama e que eram importantes (e eram-no, de facto, como veremos). Depois, duvidaram. Julgaram-se meros comparsas.
Quem eram aqueles que pediam tão pouco, que pediam só que os ouvissem falar de si, que não queriam saber de quem os ouvia? Paola Zanier, Caterina Monastier, Michele Borin chegaram a perguntar-se: «Será que nos vêem? Ou, para eles, não passamos de fantoches, bonifrates da Sicília, que repicam quando se lhes toca? Só isso querem de nós?» Não era completamente verdade. Andrea e Lorenza usavam-nos, mas precisavam deles. E, já que eram amigos, que os ajudassem –até a provocarem-se. Talvez assim fossem capazes de se amarem, porque, se calhar, não havia outra coisa por detrás da provocação. E talvez isso, a consciência de que Andrea e Lorenza estavam fundamente presos um ao outro, levasse os amigos a duvidarem: não acreditavam que pudessem caber naquela paixão. Mas, por curiosidade e amizade foram-nos acompanhando.
— Faço parte dos teus cenários?
— Não, que ideia! Gosto de trazer-te aqui!
Não fazia parte de nenhum cenário: eram sítios que se habituara a frequentar, onde estivera, anos atrás, com o pai, que também gostava daqueles ambientes abrigados e vagamente boémios. Era uma maneira de organizar e equilibrar a relação deles — e de a equilibrar em um plano que a deveria satisfazer: o da comodidade tocada pela aventura (não acreditava que lhes coubesse mais, ou que tivesse o direito a exigir-lhe mais).
— Queres deslumbrar-me? Não preciso de coisas tão finas. Um dia convido-te para tomarmos um gelado nas Zattere. É mais barato e estamos ao ar livre.
-E com a Giudecca à frente...
Dentro dela, continuava o retraimento. Não queria que a domesticassem. E talvez fosse isso o que Andrea procurava: organizar a sua relação. Ela revoltava-se, porque se sentia espoliada da fome de extraordinário ou de absoluto que poderia revelar-se no encontro deles.
— Nas Zattere, é mais barato, pago eu...
Andrea assustava-se, quando ela não queria sair nos intervalos de La Fenice ou parecia estar por favor nos restaurantes onde a levava.
— Não gostas?
— Gosto — respondia-lhe Lorenza sem o olhar.
Quase nunca se afastaram da irregularidade os encontros de Andrea e Lorenza. No Harry's, no Florian ou no Volto — porque Andrea levara-a, também, à Veneza das osterie. Havia sempre qualquer coisa que os separava. Andrea tinha medo do extraordinário e preferia a calma e a normalidade? É provável que assim fosse e, por isso, se chocassem muitas vezes. É provável, também, que procurassem respeitar-se e ser como eram por caminhos diferentes, cada um à sua maneira, sem quererem roubar nada ao que já era deles: o seu encontro. E, também por isso, havia momentos em que se confiavam. Acontecia-lhes rirem-se de pessoas e recordarem certas coisas: os tempos em que ainda se não conheciam, a cena do vaporetto, a simpatia do neto da senhora retratada por Moggioli. Acontecia-lhe passearem calados, de braço dado, e sentiram-se bem. Eram momentos de verdadeira felicidade, esqueciam os conflitos, abandonavam-se ao gosto de se acompanharem. Iam, assim, absortos ou a dizerem coisas deste teor:
— Lembras-te da cara do Michele Borin, quando nos encontrou em Pádua? Tu à minha espera, com ar de pessoa crescida e de sobretudo, eu a sair da Universidade, com os livros debaixo do braço e os cabelos agarrados em cima com uma guita?
— E a Paola Zanier, em S. Marco? — perguntava Andrea.
— Lembras-te quando a minha irmã atendeu o telefone e tu ficaste atrapalhado? Ela, depois, disse-me que tinhas uma voz muito simpática...
— Gosto de ti.
E ela sorria e apertava-lhe o braço contra o peito. Iam, assim, a dizer banalidades e contentes. Iam contentes porque o que diziam, para eles, não era banal: eram os sinais da estima que os unia. Talvez, nesses momentos, não precisassem de mais nada: o que diziam juntava-os na luz em que gostavam de se reconhecer: os outros lá ,fora e eles dentro daquele mundo que animavam com palavras, risos e frivolidade. Mas era sol de pouca dura: logo se chocavam e arreliavam, parecia que não sabiam estar juntos, que tinham de se ferir.
Da alegria ingénua de dizerem: «Lembras-te do "coiso"? Que cara de parvo que tinha! », e de rirem desse tal e de ficarem contentes por serem cúmplices, passavam a frases como esta: «Não achas que já é tarde? Tenho de me ir embora...» Ao que Andrea respondia, porque era sempre Lorenza quem achava que era tarde de mais:
— Estás farta de mim?
E Lorenza retorquia:
— Tens a mania da perseguição! É tarde, é só isso...
E retorquia-lhe assim porque a irritava que a não compreendesse — que não compreendesse que ela talvez não quisesse dizer aquilo, que talvez quisesse, apenas, que a relação deles se transformasse numa coisa normal e que ele soubesse falar-lhe, que não lhe dissesse o que a levava a dizer o que não devia. E muito provavelmente por isso é que ele replicava:
— Eu não tenho a mania da perseguição. Basta olhar para ti para perceber que estás farta. A tua vida é outra.
Provocava-a: queria ouvi-Ia responder que a sua vida não era outra e que, gostava de estar ao pé dele; queria vê-Ia sair de onde estava e dizer alguma coisa que resolvesse aquele problema. Mas nenhum dos dois dizia nada que o resolvesse: diziam o que adiava a solução, sem se importarem de se magoarem. Iam por ali, sozinhos, um com o outro, e parecia suficiente. Ao mal que, se faziam, iam buscar a própria identidade, a razão da sua sobrevivência. Infelizes, não poderiam viver sem aquela infelicidade, nunca quereriam separar-se um do outro, apesar de saberem que, provavelmente, nunca chegariam a abraçar-se. Era pudor? Insegurança? Medo de não encontrarem o que sonhavam e de perderem a única pessoa que parecia capaz de o oferecer? Medo de se perderem? E magoavam-se, na esperança de que as feridas que abriam fossem marcas indeléveis que os obrigassem a recordar e que ficassem, assim, ligados para sempre. Nenhum dos dois era ingénuo. Não ignoravam a importância da sua relação, nem o que arriscavam nela. Mas queriam vivê-Ia a dois. Durante algum tempo, evitaram os raros amigos comuns. Segundo Andrea e Lorenza, eles eram o que eram: Alberto Memmo, com os quadros delicados e a insatisfação; Gabriele Trevisan, com o olhar sonhador e a meia cerveja; Paola Zanier, exuberante e egoísta; Renata, Michele, Caterina Monastier... Eram bons amigos, mas eles preferiam ficar sozinhos, agredirem-se sozinhos. Aquela guerra pertencia-lhes.
— Só faltava — disse-lhe uma vez Lorenza — que soubessem o que andamos a fazer!
Ele concordou:
— Isto é nosso.
— Isto, o quê?
— Isto, as nossas zangas. Se deixássemos os outros entrarem, estávamos bem aviados.
Foi, realmente, na companhia de alguns amigos que Lorenza e Andrea começaram a separar-se. De repente, eles invadiram a sua vida. Um dia, Lorenza falou-lhe de Caterina Monastier.
— Já viste: como, te compreende melhor do que eu?
E Andrea ficou a olhar, sem perceber por que é que Lorenza vinha com aquela conversa, e, no fundo, a reconhecê-lo: Caterina, pelo menos, nunca lhe criara problemas, as vezes que a encontrara, estivera ao pé dele, a rir-se e sem lhe pisar os pés, com simpatia que lhe lia nos olhos. Aparecera Caterina Monastier, como poderia ter aparecido Paola ou Alberto Memmo. Chegara porque Lorenza se lembrara dela, do mesmo modo que Andrea se teria lembrado de Pinóquio ou de Michele Borin.
Passara tempo de mais e, agora, estavam cansados. Tinham esgotado a resistência. Precisavam de respirar. Tinham um nó na garganta, não aguentavam a prisão das palavras ditas à espera de que aparecessem outras. A dor era aquela: gostarem um do outro. e não conseguirem amar-se. Não os afligia só o frio — que era a indiferença, a distância a que, dir-se-ia, o fado os obrigara !(e temiam que assim fosse) — nem só quanto lhes custava encontrarem-se apesar de gostarem de se ver. Afligia-os a intimidade criada. Conheciam-se de mais para não se envergonharem de certas atitudes: as vezes em que fingiam que não se estimavam, as vezes em que se arranhavam e, depois, se punham a lamentarem-se como, se fossem vítimas de uma fatalidade. Envergonhavam-se, já não os convencia esse teatro. E o que é que podiam fazer? Virarem as costas? Sacudirem-se? Esquecerem-se um do outro? Irem à sua vida? Ela outra vez no Lido? Ele outra vez no consultório de Treviso ou com os colegas do Hospital de Ss. Giovanni e Paolo? Ela com os amigos dela, ele com os amigos dele? Vontade, muitas vezes, não lhes faltava. Mas não eram capazes de se separarem e recorrerem aos amigos. Procurá-los era um modo de continuarem a falar sem que se defrontassem. Espantavam as mágoas: falavam de si com quem os ouvia, com os amigos interessados na história. Andrea chegou a confiar-se a Caterina Monastier e Lorenza, cada vez mais assídua junto de Paola Zanier, abriu-se com Michele Borin. Durante algum tempo os amigos que se interessavam por eles e pela sua história — por razões várias, porque eram realmente amigos e porque as dificuldades deles lhes despertavam a atenção—, acreditavam que faziam parte do drama e que eram importantes (e eram-no, de facto, como veremos). Depois, duvidaram. Julgaram-se meros comparsas.
Quem eram aqueles que pediam tão pouco, que pediam só que os ouvissem falar de si, que não queriam saber de quem os ouvia? Paola Zanier, Caterina Monastier, Michele Borin chegaram a perguntar-se: «Será que nos vêem? Ou, para eles, não passamos de fantoches, bonifrates da Sicília, que repicam quando se lhes toca? Só isso querem de nós?» Não era completamente verdade. Andrea e Lorenza usavam-nos, mas precisavam deles. E, já que eram amigos, que os ajudassem –até a provocarem-se. Talvez assim fossem capazes de se amarem, porque, se calhar, não havia outra coisa por detrás da provocação. E talvez isso, a consciência de que Andrea e Lorenza estavam fundamente presos um ao outro, levasse os amigos a duvidarem: não acreditavam que pudessem caber naquela paixão. Mas, por curiosidade e amizade foram-nos acompanhando.
(final da Parte I)
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