sábado, 30 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XV b

...óleo de John Singer Sargent (1856-1925)




Andrea retorquira:
— Tretas,!... lugares-comuns!
E a olhá-la de lado:
— Estás apaixonada por algum amigo distante?

Não a levava a sério. Sorria, troçava e desconfiava dela. Ciúmes? Tinha sempre ciúmes. E para lhe acalmar os ciúmes e dizer-lhe a verdade, Lorenza explicara que não estava apaixonada por ninguém mas que, à distância, as pessoas se transformam e é mais fácil amá-las.

— Ah! — exclamara Andrea — queres dizer que mais vale ver os outros pelas costas...
— Talvez, talvez seja isso...

Achava que não valia a pena discutir. O que ele queria, ao fazer-se desentendido, era que ela se explicasse melhor, lhe dissesse que pensava nele, que longe dele compreendia que o amava e dera-lhe aquela resposta porque achava que ele tinha obrigação de compreender e, se a lisonjeavam, confrangiam-na também os seus medos, não queria que se baixasse. E ainda, porque acreditava: uma pessoa, longe, representava um apoio mais seguro, uma recordação de que podíamos usar só a parte boa, aquela que nos convinha ou desejávamos que fosse a verdadeira. E até podíamos recordar essa pessoa em con­tradição connosco: bastava que a contradição puxasse por nós, que nos sentíssemos a mexer, a andar para diante, para onde gostaríamos de andar. Era também a qualidade da pessoa ausente: quando a lembrávamos, reagíamos de acordo com o amor que sentíamos por ela, com o que julgávamos que esperava de nós, procurando corresponder ao que talvez esperasse. Quanto? Não podíamos saber mas que andava por dentro da recordação. Era, ainda, o valor da ausência: deixava-nos imaginar que o outro nos pedia qualquer coisa.

Por isso, fora seca na resposta: talvez preferisse ver os outros pelas costas: incomodavam-na menos e permitiam-lhe imaginar. E, além da secura, usara a ironia que virara contra si própria: não as dirigira, apenas, contra o despropósito, o nervosismo de Andrea — usara-as contra o egoísmo e a fraqueza que sabia que enformavam o que dissera.

Os outros longe? Andrea longe? Era melhor assim? E ela a andar às voltas, a correr por onde queria, e a lembrar-se dele, muito contente porque ele existia, gostava dela, e era por isso — e não por outra coisa, não pelo seu egoísmo, fraqueza e incapacidade, pelo seu medo em se dar — que corria e fazia aquelas coisas: porque o procurava nelas?

Dissera-lho e pensara-o, mas começava a perceber que não era fácil refugiar-se na recordação de Andrea enquanto se divertia ou fingia divertir-se, não lhe tocar e tê-lo em si. Os outros —Michele Borin, Renata, Paola Zanier, os companheiros de viagem— não bastavam. Poderia vê-los através de Andrea: pessoas que a ajudavam a chegar-se e a afastar-se dele, a valorizá-lo ou a menosprezá-lo, pessoas que lhe permitiam estar sozinha consigo. Poderia vê-los no modo em que Andrea os veria e compreenderia, e, assim, continuar junto de Andrea. Mas todas as coisas têm um limite e o seu comportamento cansava-a: repetia a atitude inconsequente, espécie de fuga que levava sempre ao mesmo sítio: ao medo. Era um sítio palustre: nada mexia, só a lembrança inconsequente dele ia e voltava, pensava nele e agarrava-se aos outros. Não lhe curava a angústia, durava pouco o esquecimento, modo de adiar. E adiar o quê? O momento em que ela e Andrea reconhecessem que se amavam?

-“Hipócritas, covardes” –pensava Lorenza.

E Andrea:
-“Que estou a fazer, aqui? Tenho os meus doentes, o meu filho, a casa. Isto não leva a nada!”

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