...o beijo... óleo de Gustav Klimt...O tempo simplificou as coisas. Encontravam-se, amavam-se. Caterina não lhe mentia, gostava de estar ao pé dele. Quando Andrea ia à procura de Lorenza, acabava por voltar. Depois, ia-se embora outra vez. E ela também podia ir-se embora, se quisesse. O que tinham era precário. Qualquer dia Andrea trocava-a por Lorenza. E, ao vê-lo à roda dela, Caterina pensava: «Isto não dura mas não me importo! Gosto de ti como és, do que tens e anda a girar no teu corpo e não consegues dar e se calhar ninguém percebe. Acalma-te, meu querido! Se calhar nem eu te percebo, mas estou aqui.»
De Ravena ficara-lhe uma recordação boa: lembrava-se das mãos dele no seu corpo e do prazer que sentira. Ele quisera e ela apreciara o seu querer porque também o desejava. A maneira como ele lhe pegara, a sofreguidão com que a beijara, como se fosse a primeira vez, nunca houvesse conhecido outro corpo, outra mulher, dera-lhe uma grande alegria: parecia que ia, por dentro dela, à procura, e ela sempre desejara dar-se e ser procurada. O que acontecera depois, as tardes no apartamento de S. Margherita, em Treviso, não a desiludira, apesar de saber que Lorenza andava por todos os lados por onde eles andavam. Andrea não dizia nada, mas via-o lutar com o fantasma, angustiado, À insegurança dele, opunha a sua presença. Agarrava-o e encostava-lhe o corpo. Ajudava-o a abandonar-se-lhe. Aceitava o que lhe, pedia. Deixava que a magoasse, que lhe embaraçasse os cabelos e lhe apertasse os seios, que lhe tolhesse as pernas. Que arfasse e dissesse o que quisesse. Era o corpo dela e era com esse corpo que ele vibrava e se acalmava. Andrea deixava cair a cabeça no seu peito e ficava de olhos fechados, com a boca entreaberta e os cabelos colados à testa. Pesava-lhe aquele corpo em cima dela, maior do que o dela, inerte e quente. E recordava-o como era antes, a atravessar as ruas, no meio das outras pessoas e agora diferente e merecedor de amor, porque era o corpo que tinha em cima e, apesar de se mexer e de a agredir, dependia dela: do que lhe permitisse. Não era um corpo mais forte do que os, outros: era o corpo de um homem que precisava dela, que lhe dava prazer e que, quando se vestia, vulnerável.
Depois saíam, atravessavam S. Margherita e, a caminho e S. Pantalon, demoravam-se no bar de Anna. Andrea pedia fragolino e queijo fresco; Caterina tomava um spritzer. Andrea lembrava sempre que, ali ao lado, houvera um cinema que costumava passar filmes do Totó e Caterina quase que se engasgava porque ele lhe contava os filmes e se esquecia que era médico, e punha-se a imitá-lo. Anna ria também e, ali, com os estudantes de Cá Foscari à volta, demoravam-se, livres um do outro, próximos só porque queriam. Antes, tinham oferecido os corpos, amizade e a mais talvez não fossem obrigados. Caterina falava para todos os lados e Andrea bebia o fragolino e fazia manguitos como Totó. E nos olhos dele Caterina reconhecia satisfação, o que lhe dava felicidade e era por isso que dizia a Anna:
-O teu bar é o melhor!
De Ravena ficara-lhe uma recordação boa: lembrava-se das mãos dele no seu corpo e do prazer que sentira. Ele quisera e ela apreciara o seu querer porque também o desejava. A maneira como ele lhe pegara, a sofreguidão com que a beijara, como se fosse a primeira vez, nunca houvesse conhecido outro corpo, outra mulher, dera-lhe uma grande alegria: parecia que ia, por dentro dela, à procura, e ela sempre desejara dar-se e ser procurada. O que acontecera depois, as tardes no apartamento de S. Margherita, em Treviso, não a desiludira, apesar de saber que Lorenza andava por todos os lados por onde eles andavam. Andrea não dizia nada, mas via-o lutar com o fantasma, angustiado, À insegurança dele, opunha a sua presença. Agarrava-o e encostava-lhe o corpo. Ajudava-o a abandonar-se-lhe. Aceitava o que lhe, pedia. Deixava que a magoasse, que lhe embaraçasse os cabelos e lhe apertasse os seios, que lhe tolhesse as pernas. Que arfasse e dissesse o que quisesse. Era o corpo dela e era com esse corpo que ele vibrava e se acalmava. Andrea deixava cair a cabeça no seu peito e ficava de olhos fechados, com a boca entreaberta e os cabelos colados à testa. Pesava-lhe aquele corpo em cima dela, maior do que o dela, inerte e quente. E recordava-o como era antes, a atravessar as ruas, no meio das outras pessoas e agora diferente e merecedor de amor, porque era o corpo que tinha em cima e, apesar de se mexer e de a agredir, dependia dela: do que lhe permitisse. Não era um corpo mais forte do que os, outros: era o corpo de um homem que precisava dela, que lhe dava prazer e que, quando se vestia, vulnerável.
Depois saíam, atravessavam S. Margherita e, a caminho e S. Pantalon, demoravam-se no bar de Anna. Andrea pedia fragolino e queijo fresco; Caterina tomava um spritzer. Andrea lembrava sempre que, ali ao lado, houvera um cinema que costumava passar filmes do Totó e Caterina quase que se engasgava porque ele lhe contava os filmes e se esquecia que era médico, e punha-se a imitá-lo. Anna ria também e, ali, com os estudantes de Cá Foscari à volta, demoravam-se, livres um do outro, próximos só porque queriam. Antes, tinham oferecido os corpos, amizade e a mais talvez não fossem obrigados. Caterina falava para todos os lados e Andrea bebia o fragolino e fazia manguitos como Totó. E nos olhos dele Caterina reconhecia satisfação, o que lhe dava felicidade e era por isso que dizia a Anna:
-O teu bar é o melhor!
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