domingo, 24 de janeiro de 2010

A nossa inocência

...eis as 'virtudes' mais safadas que há...


O LUGAR DOS MORTOS

É lá ao fundo, no escuro, no mundo que não queremos ver nem iluminar. Às vezes, é gente pitoresca, vale a pena oito dias, entre eles. Nos “resorts”, nessas coisas turísticas, onde nos enfiamos com os parceiros do colete de caqui e da máquina fotográfica ao pescoço. Raramente nos cai um terramoto em cima ou um tufão. É barato. A terra dos mortos-vivos, dos cadáveres em pé, dos castiços, é barata. E não há motivo para ter escrúpulos, indo lá, deixamos dinheiro, ajudamos. Nos anos 80, conheci em Roma um exilado haitiano, fugido a Duvalier e à polícia secreta, que assassinavm. Escrevi, sobre ele, “A Aranha”. Escrevi o meu remorso: adivinhei a culpa: o crime da minha indiferença. Mais tarde, vivi em S. Tomé e descobri a miséria: o tal terceiro mundo. Dany Laferrière, no livro “O país sem chapéu”, põe na boca de sua mãe: “dantes, o cemitério era o único lugar seguro no Haiti”. Mas a fome até aos mortos rouba o sudário. Onde é o Haiti? Hoje, já o sabemos, vimos casas abatidas, feridos, despedaçados, vibrámos com um tremor de terra espectacular que mereceu honras de primeira página e horas nos telejornais. Vimos os vagabundos, os despojados, pelas ruas, entre os escombros, à cata de comida e a repetirem o provérbio indígena: “A cabra diz: “se como a planta amarga, é porque me sabe bem à boca”. Não tem outras. Laferrière é um exilado. Há milhares de milhões, daqui e dali. E devem todos eles -os expatriados- meditar a sabedoria da ilha mártir: “Partir não quer dizer chegar”. Emigrante não é de nenhum sítio. Também aqueles que saem do nosso país. Choca-nos? Olhem que a nossa responsabilidade é universal –não acaba no nosso traseiro.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

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