segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte, VIII




Lembrava Burano. Naquele dia, o que acontecera? Ela fugira? Ou fora ele quem fugira? Se ela lhe dera pouco, o que lhe dera ele? Não tinha tido medo? Não teria podido precipitar as coisas, obrigá-la a sair de onde estava, das hesitações e das dúvidas?

Um velho amigo costumava dizer-lhe:
— A tua timidez ou o teu egoísmo perdem-te. Se queres, por que é que não lutas? Andas às vezes para aí a encanar a perna à rã.

E ele pensava que nem esse amigo o entendia: não encanava a perna à rã: faltava-lhe vontade, não tinha a certeza de que valesse a pena — acabava tudo da mesma maneira, e o esforço era inútil, era um trabalho, que não pagava, ele continuaria sozinho e a outra pessoa também. Era melhor estar quieto à espera do que fosse vindo. E estava à espera. Era a sua angústia: acreditava em poucas coisas mas estava sempre à espera. O amigo enganava-se. Estava disponível, com as suas forças.

— Aceitas facilmente — insistia o amigo.

E ele dizia para consigo, sem lhe responder -porque era o amigo quem devia adivinhar ou, então, o que era a amizade, o amor e a amizade não existiam para que as pessoas não precisassem de falar quando queriam ser compreendidas e acompanhadas?

Respondia: “Eu não aceito facilmente: eu estou à espera de que ela entenda que eu a amo e que a quero como é, desde o dedo mindinho até à risca do cabelo. Se entendesse, vinha logo para o pé de mim, não mandava dizer que não estava em casa, não adiava nada. Assim, não sei. Enganei-me se calhar e mais vale deixá-Ia à vontade. Que faça o que quiser! Eu estou sempre aqui, mas não quero forçá-la.”

Não era inteiramente verdadeiro Andrea. Estas eram as razões, que arranjava para ele. Por que é que havia de ser Lorenza a decidir? Se a queria tirar de onde estava e chegá-la a si, por que é que, não lhe puxava por um braço e lhe impunha a própria vontade?

Mais adiante, verificaremos que tinha vontade, mas que a exercitava de modo negativo: como se, realmente, desacreditasse da vida e preferisse guardar o que tinha — e pensava que era muito esse orgulho —, não o dar ao desbarato. Mas, como é que ele podia pensar que dar-se a Lorenza era dar-se ao desbarato? Não era a menina dos seus sonhos?
“Ai isso, era!”, dirá um leitor “mas não, soube pegar-lhe ... “

Talvez. E ela? Temos de ser imparciais. Ela, neste ponto do romance, não poderia ter feito alguma coisa? Por que é que se calava também? De que é que tinha medo? Já vimos que não tinha tido medo de ir à Grécia, com amigos, num barco; já vimos, que tinha a sua vida, com os do Lido, de Pádua. Por quê tantas dificuldades com Andrea?

Não é fácil responder e o melhor é deixá-los ir pela história e explicarem-se. É respeito que lhes devemos.

Andrea achava que depois do passeio a Burano tudo se modificara e que o que acontecera em Ravena não melho­rara nada. Em Ravena, ela lisonjeara-o: mostrara-se ferida pela sua desatenção, perdera o domínio, disparatara e ele aproveitara para a magoar e ir ter com a outra. E, na volta de Ravena, vira-a a dormir no carro da frente. E nunca mais a procurara. Com que direito é que ela ia a dormir no carro em que ele não ia? Que história era aquela? Ressentimento, nervosismo, disparate e, depois, como se nada se tivesse passado, como se nada tivesse importância, repousava no carro da frente, esquecida dele? Era tão pouco o que lhe queria? Esquecia-o e substituía-o com tanta facilidade? Não era séria, não era verdadeira. E voltava-lhe a consciência da própria insegurança: pedia a Lorenza aquilo que não lhe dava: uma constância de que não era capaz. Em Ravena — e de outras, vezes — quem se fora embora? Quem fugira? Ela ou ele? Ela, a correr pelas ruas a falar alto, a gritar, ou ele, agarrado à cintura de Caterina? Ela, chegada aos, outros, e com as lágrimas a trans­formarem-se em ranho, ou ele, com as mãos dentro da camisola de Caterina?

“Que venha o diabo e escolha!”, diria eu que os vi aflitos e muito parecidos.

Queriam muita coisa e não podiam com o que queriam. Nem um, nem outro eram mais do que eram: duas pessoas apaixonadas a pedirem o absoluto que não conseguiam encontrar dentro de si. Desiludia-os às, vezes a pobre resposta; mas, porque se amavam, sabiam que só o outro poderia dar-lhes o que procuravam. O medo deles era humano: amavam-se e desconfiavam um do outro. Queriam o absoluto logo ali e, no meio, metia-se-lhes a fragilidade. Eram da terra, animais como todos, sujeitos a fraquezas. Lorenza arranjava-se com os amigos e Andrea, com as de Cesena e Caterina.

No que diz respeito a Andrea, Caterina protegia-o: estava sempre pronta e envolvia-o. Já sabemos: recebia-o no quarto de S. Margherita e ia a Treviso. E Andrea aceitava a oferta, falava com ela, pegava-lhe nas mãos e no corpo, aproveitava-a. E, por isso, às vezes, tinha remorsos: estava a fazer festas a uma pessoa porque não tinha a outra? Mas precisava de respirar. E ela — Lorenza — não respirava? Queriam os dois muita coisa, mas aqueciam-se onde podiam. Eram bem reais. A poesia pusemos-lhes nós em cima — ou, se calhar, já a traziam dentro.

Fosse como fosse, Andrea chegava-se a Caterina. Escondia-se de Lorenza no calor de Caterina, para não perder o que ganhara em Ravena. O desatino dessa? Ou era Caterina que não o deixava ir embora? Com disponibilidade determinada, apoiava-o, reforçava-o naquela atitude — e parecia que lhe era indiferente que se desse ou andasse pelo seu corpo e na sua companhia, à procura da outra. Dir-se-ia pouco importar a Caterina que o que lhe ia dando se destinasse à outra e que o que ela queria era que ele desabafasse, saísse de si e fosse feliz; que, assim, ficava satisfeita: ele andara dentro dela e sentira-se feliz.

E recomeçavam as permanentes dúvidas de Andrea: a dificuldade que tinha em acreditar que o aceitavam e a dificuldade que tinha em aceitar os outros. Às vezes, pensava que a honestidade não era compatível com a comédia dos homens. Ele estimava-os, mas ficava aflito: aquela boa vontade seria verdadeira? Estaria à altura do que ele queria e esperavam? Não andava, desde que aceitara o curso e o ofício, a dar de si só um bocadinho e a pedir uma espécie de esmola: a tolerância e o corpo dos outros? Ajudava-o Caterina? Tirava dele o que lhe servia? Ela era mais honesta? A frescura, a espontaneidade e os gestos que provocava, correspondiam à abnegação e ao amor? Ou correspondiam. ao amor dela por si própria, à obstinada busca da felicidade? O modo como aceitava e deixava que se lhe encostasse e lhe falasse — ela sempre disposta a ouvir — o que escondia? Dela, o que é que, realmente, dava? E alargava-se a insegurança: punha-se a recear que lhe roubasse coisas, que estivesse a dar mais a Caterina do que recebia.

Voltava a Lorenza. Essa não pedia nada, ao passo que Caterina aparecia a provocá-lo e ele tinha de responder-lhe: tinha de abrir a casa, apresentar-lhe o filho, ir com ela. E o calor que ela lhe dava quanto duraria? Vinha mesmo do fundo da alma? Aquele corpo que estremecia, até que ponto amava o seu, não ficava a estremecer sozinho, aproveitando?

Não era um bom amante: tinha medo de perder quando dava e dava à espera de receber. E quem é que é um bom amante, neste romance? A confirmarem-se as dúvidas de Andrea, nem Caterina o será. Os nossos heróis andam, por aqui, com o coração aos saltos e sem saberem a quem o confiar. E talvez isso os resgate: o coração, aos pulos, dentro da caixa do peito. Lá vontade têm, mas também têm medo: onde é que hão-de pôr o coração sem que se parta e possa livrar-se da miséria que o rói? Andrea, como de costume, exagerava: diminuía Caterina porque não queria deixar de pensar em Lorenza. Sentia-se bem ao pé de Caterina, mas precisava da outra. Talvez gostasse mais de Lorenza, mas não lhe bastava. Nenhuma das duas lhe bastava e não prescindia de nenhuma delas. Era-lhe difícil prescindir. A vida parecia-lhe, muitas vezes, um glaciar: branco, deserto, arrepiava-lhe as costas, e mais valia não perder o que ia tendo -eram sinais no meio da lisura do resto, da indiferença com que se apresentava. E, no sobressalto que o levava a negar Caterina e a procurar Lorenza, acabava por agradecer à de Verona. Era a maneira de não perder o equilíbrio: agradecia-lhe o que ela lhe teria dado e virava-se para a outra que ainda quase nada lhe dera e a quem dera pouco. Assim, não se afundava na incerteza: reconhecia as qualidades de Caterina e esperava em Lorenza. Não era ambiguidade, ou talvez o fosse; mas era, também, uma necessidade real: não podia — nem queria — separar-se delas. E Caterina bem o ajudava nisso de andar no meio, das duas.

— Vi a Lorenza no Paolin -dizia-lhe.
Ou então:
— Sabes que encontrei a Lorenza em casa do Michele?
Eram maneiras de também ela se governar, de, ao falar-lhe da outra, o forçar a provar-lhe que era dela que gostava.
— A Lorenza, está a passar um mau bocado.
E, da malícia, abria-se em delicadeza: já era com ternura com ternura pela outra que falava. Por que é que o fazia? Por que é que, de repente, se mostrava tão compreensiva e parecia que o aconselhava a preocupar-se com Lorenza?
— É uma pessoa estranha essa tua amiga, e muito necessitada.
— De quê?
— Precisa dos outros, anda sempre sozinha.

Talvez Caterina nunca tivesse pensado senão naquilo: que Lorenza era uma pessoa complicada e que necessitava de ajuda — não se contradizia. E, talvez, também, na com­preensão e na delicadeza, fosse insegura como ele: talvez o glaciar existisse para todos e talvez todos precisassem de sinais, do movimento dos outros e das suas angústias para se sentirem vivos. Caterina não era melhor: se ela não se apoiasse na fraqueza de Lorenza, onde é que se apoiava? A insegurança de Lorenza e a dependência de Andrea ajudavam-na: Andrea e Lorenza, eram pessoas que sofriam com a vida e, assim, eram dois lumes que a orientavam.

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