...óleo, os telhados de Veneza...... E, aparentemente, era só isso que Andreia e Lorenza procuravam: meter os amigos no meio a ver se não se feriam. Mas as dificuldades aumentaram. Cavara-se o fosso que os separava e unia, precipício de que não conseguiam afastar-se. Desde Burano e do que seguira, a intimidade escapava-lhes. Procuraram-se, freneticamente, e era como se não se ouvissem ou como se não encontrassem as palavras –dois duelistas a correrem atrás um do outro e a dispararem cartuchos de pólvora seca. Andavam por Veneza, entalados no aperto que os tomara, com medo do irremediável, um passo em falso. Andavam mudos, aflitos e impacientes, a alma presa aos casacos por um alfinete de prata: os olhos que brilhavam ansiosos. Assim, chamaram os outros — para não fugirem nem se incompatibilizarem, ou para adiarem esse momento. O Inverno instalara-se, frio, húmido e, com frieiras nos dedos e cieiro nos lábios, encontravam-se no Paolin, refugiavam-se em casa de amigos, por S. Polo ou S. Stae, em andares minúsculos, como o de Francesco Orio, um quarto, que era o de estar, um terraço de onde se viam os telhados de Veneza. Recebia-os bem e oferecia-lhes de comer e de beber e eles sentavam-se, cada um para seu lado, sem serem obrigados a falar-se. Era melhor assim, estavam juntos no mesmo sítio e na mesma sala, podiam ver-se e ouvir-se a falar com os outros e podiam achar graça ao que ouviam e tomar partido, sem se chocarem. Francesco Orio gritou-lhes, do terraço:
— Fioi! É a vossa Veneza!
Fioi... filhos, amigos...
— Não é bonita? — perguntou Francesco, debruçado do parapeito.
-Então não é?! — exclamou Lorenza.
-Por que é que gostas tanto desta cidade?
-Porque nasci aqui, no meu piccolo mondo!
A seus pés, as cúpulas das igrejas, o Grande Canal. Em cima, o azul do céu, cortado pelas asas brancas das gaivotas. E, ao redor, os amigos, que ajudavam à comédia, espontâneos e interessados, e aquela cidade que amavam.
— Eu gosto muito de Veneza porque foi aqui que te conheci. —disse Andrea.
— Se calhar eu também gosto de Veneza por isso.
— Que maravilha! — exclamou Paola Zanier.
— Vocês encantam-se com pouco... — comentou Alberto Memmo, a espreitar por cima do ombro dela.
— Fazes-me cócegas com a barba! — gritou Paola — Chega-te para lá!
-O eterno céptico... –ironizou, mas com ternura, Francesco.
Amigos que os protegiam da insegurança e da inconstância, e os envolviam. Francesco Orio, teimoso e ingénuo, ou, antes, frágil, porque facilmente lhe abalavam as certezas de que nunca desistia. Paola Zanier, a roer as unhas, um corpo esplêndido, a sensualidade à flor da pele, alta, loira, boca vermelha, sempre a retrair-se e pronta a dar-se. Alberto Memmo, solitário, tímido, mas apto a navegar em quaisquer águas.
— É verdade o que disseste? — perguntou Andrea.
— O quê?
— Também gostas de Veneza porque nos conhecemos aqui?
— É verdade!
Andrea ficou contente: se dizia aquelas coisas, era porque não queria perdê-lo.
Havia momentos em que se deixavam embalar pelos amigos. Não queriam deitar fora o que lhes pertencia. E o movimento dos amigo impedia-os de se confrontarem sozinhos. Preferiam adiar. Com eles, esqueciam mágoas e dificuldades e abriam-se, precisavam de se abrir já que os oprimia a incerteza, voltavam a ser capazes de pensar nos outros, até de pensarem um no outro. Reencontravam-se na maré, no tumulto dos amigos, e aproveitavam para se abandonarem ao amor, que escondiam. Depois, retraiam-se. E seria a desgraça deles: a facilidade com que desistiam.
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