quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte IIª XIV

Michelangelo, tecto da Capela Sistina, pormenor, Pecado Original



... Delicadas, respeitosas. Ele achava que as suas mãos tinham sido sempre um desastre. Nunca soubera agarrá-la quando devia. O medo imobilizara-o. Ficara, sempre, impassível, como há pouco, em S. Barnaba. O corpo dela esperara aquelas mãos. E, no entanto, também ela estava parada.

Se tivesse mandado embora Borin e lhe tivesse dito que só iria à montanha com ele, que iria com ele até ao fim do mundo, seria diferente? Era culpa de Lorenza? Ou fora Andrea que não percebera que ela queria dizer isso que ele reclamava agora: iria com ele à montanha, e só com ele, se ele pedisse.

Lorenza sentia o olhar dele nas costas. E não deixava o corpo encostar-se ao de Michele. Equilibrava-se nos pés, nos sapatos, com dificuldade que só ela sabia. Doíam-lhe os dedos dos pés e a barriga das pernas, nunca tinha encontrara sapatos que lhe servissem, queria ir direita, queria que Andrea visse que não se encostava a Michele, ia só ao lado dele, não tinha culpa do outro não andar direito e se encostar a ela.

Durou pouco, inútil lutar contra Michele. Virada a esquina, Andrea já a não via e ela já não podia dizer-lhe que era com ele que gostaria de estar. Quem ia ao lado dela era Michele, calado, porque não tinha nada para dizer, ia ao lado dela e encostava-lhe o ombro por acaso: porque iam ali os dois —ela ia com ele porque a acompanhava a casa. Sabia que Lorenza pensava em Andrea. Isso não o surpreendia: era em Andrea que ela devia pensar. Observara-a, em S. Barnaba, a ouvi-lo, os cabelos a caírem-lhe para a cara e os olhos azuis. No quarto de S. Pantalon -se subissem-, continuaria na mesma: a pensar em Andrea, a ouvir os discos que ele pusesse, com os joelhos quase encostados ao queixo e as pernas que não sabia usar, e a pensar no outro. Era inútil. Gostava dos dois e não queria separá-los, tinha vontade de a mandar dizer a Andrea que tomasse conta dela.

Mas quem tinha a certeza disso, que ela só pensava em Andrea? Michele não tinha a certeza, ela muitas vezes escolhia outras companhias. Nem Lorenza, apesar de pensar em Andrea. O que iria fazer agora? Ia telefonar a Caterina? Ia ter com ela e levá-la para Treviso ou ficariam no quarto de Veneza? E o que é que iriam fazer, agora, outra vez? O que é que a outra tinha, que ela não tinha? E, por isso, ia esquecê-la, não voltaria a telefonar-lhe? Não se importava, mas que tinha a outra mais que ela? E era, então, que se revelava, sem que quisesse reconhecê-lo, um sentimento mais vasto: não entendia por que é que havia de ser a outra a dar-lhe felicidade e não ela, por que é que havia de ser a outra a satisfazê-lo e não ela que andava com tantas coisas para oferecer, tão pronta a oferecê-las...

Michele encostava-lhe o ombro e falava-lhe da montanha. Via o seu perfil perfeito. Era um homem bonito. Se subissem ao quarto, em S. Pantalon, seria bom, atencioso, e só se amariam se ela quisesse. “Queria?”, perguntava-se, ao lado do amigo delicado e bonito, diferente do que ficara para trás. E seria por isso que iria ao quarto de Michiele: porque Andrea ficara em S. Barnalba e a deixara ir...

— O Andrea não anda bem — murmurou Michele, a quebrar o silêncio.
— Há quem esteja pior.

Interrogava-se: “Fui eu que não soube trazê-lo ou foi ele que me deixou partir? Se vou agora com este de quem é a culpa? Eu queria que ele me agarrasse pelas saias, me puxasse pelos braços, me atasse à cadeira? Gritasse e ameaçasse? Fui eu quem se levantou e disse que me ia embora e o deixei para trás. E, se calhar, foi por isso que ele não me disse nada...” Ficara impassível, nem sequer descruzara as pernas, nem apagara o cigarro. Ela julgara perceber um sorriso triste, a expressão desiludida que ele tinha às vezes e a afligia, lhe pesava. Pesava-lhe quase tanto como o ombro de Michele. Mas nem issa podia ter, impedia-a Andrea. Continuava a sentir o seu olhar nas costas, continuava a pensar que ele a via, e não ia à vontade: tinha medo que ele a visse. Nem sabia porquê, já que não lhe devia nada e nunca lhe prometera nada. O quarto de S. Pantalon era uma coisa proibida. Não queria que Andrea pensasse mal dela ou se enganasse, pensasse que ia ao quarto de Michele porque queria agarrar-se a ele. Teria de se despedir de Michele na rua. Dizer-lhe, por exemplo: “Não posso, estão todos à minha espera em casa ... “

Michele encostava-se cada vez mais. Era porque tinha aquela maneira de andar, ou porque gostava de se encostar a ela e procurava o seu corpo, ou porque ela inventava isso? Não se atrevia a empurrá-lo, porque não tinha a certeza e lá ia o corpo dele a pesar no dela. O corpo dele era o dele? Incomodava-a o peso do ombro de Michele ou era ela que o deixava encostar-se para depois reencontrar Andrea? Quando sentia o calor e o peso, do ombro dele e o deixava estar, era só porque tinha vergonha de o empurrar ou era porque o desplante dele — já que se encostava a ela sem pedir licença — o risco que corria — de aceitar que se encostasse a ela — a levava a ouvir o outro, a ouvi-lo dizer o que gostaria que dissesse: “Só eu é que posso dar-te o que tu queres e se andares assim nunca mais tens nada...”

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