sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Memória de Burano








Burano, a ilha da laguna, que tanto amaram Lorenza e Andrea, os heróis d' O Pássaro de Fogo, era sobretudo no Inverno lugar certo de peregrinação durante as minhas estadias em Veneza.


A aldeiazinha ficava vazia, melhor, livre de turistas, e por lá andava, às vezes, com Aldo Zari. Uma solidão acompanhada, no fim e ao cabo, pelos da terra, no café onde o proprietário expunha o belíssimo retrato a óleo de sua avó, ignorando o seu valor, que é um quadro de Umberto Moggioli, mestre dos chamados ‘macchiaioli’, impressionistas italianos, e me demorava na conversa; ou na Osteria Al grappo d’Ua, onde conheci, nos idos de 1983, Catherinne Doner, jovem belga de Namur, ainda hoje amiga do coração...

Em Burano, na ponta oriental da ilha, olhos fitos na linha do horizonte, diante da laguna infinita, murmurava: ‘Nem minha mãe sabe onde eu estou!’

Era uma solidão boa, reparadora. Cortava-a mas não a alterava, um outro visitante: Valerio Zurlini, o realizador d' O Deserto dos Tártaros, adaptação do romance de Dino Buzzati. Nunca chegámos à fala –mas não esqueço a figura de Zurlini, vagabundo dele próprio, com um sorriso bom.

Minha irmã -a única que tive- gostava muito do livro de Buzzati, uma história de vidas incompletas, de espera inútil, de perca do absoluto. Minha irmã sofria esses sentimentos, que a levaram a admirar Irene Lisboa e a não suportar a leitura das suas páginas. Hoje, penso que foi uma mulher insatisfeita até à morte, especialmente madrasta para ela. Recordo, com muita saudade, a inteligência e a lucidez, que não a impediram de passar ao lado de um destino melhor.

Havia -e há-, na ilha, um excelente restaurante, a Tratttoria Da Romano, e o proprietário, Orazio Barbaro tornara-se meu grande amigo. Ainda viverá? Porque eu era um homem de quarenta anos e ele ia além dos sessenta. E que me importa se vive, uma vez que o tenho aqui?


Descobri, na minha biblioteca, Ode ai Buranelli, versos de Orio Vergani, poeta milanês, amante de Burano, obrinha manuscrita que Orazio Barbaro recuperou e publicou nas Edizione Galleria Ponte Rossa. Foi ele quem me ofereceu o referido exemplar. Não resisto à vaidade de transcrever a dedicatória:

Burano 10.11.1983

Per l’Amico
Manuel Poppe

Vedo che lei ama quest’isola e i suoi colori come l’amó l’autore di questo volume.
Con sincera amicizia

Orazio Barbaro Romano

Estou todo inchado, pois claro! Que pode querer mais quem profundamente ama um lugar?...

(Das pitorescas ilustrações dos artistas Carlo Dalla Zorza, Giuseppe Novello e M. Vellani-Marchi, reproduzi a que está acima.)

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