sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte IX c

'estudo para Caty', desenho de Balthus



Tam­bém ele não estava bem e começou a fechar-se na casa de Treviso. Queria esquecer-se, mas voltavam todos, nunca o tinham deixado. E tentou arranjar-se. Foi a Veneza, sem dizer nada a Caterina e a Lorenza, a ver se mudava os dias.

Acontecia, porém, que reencontrava amigos comuns, Francesco Orio, Laura Zanier, a irmã de Paola, Michele Borin, ou que se perdia com Alberto Memmo nas osterie pobres. Esses falavam-lhe sempre de Caterina.

De Lorenza falavam de outro modo: veladamente. Alberto Memmo, que não gostava de Lorenza, disfarçava, como se ele estivesse doente e fosse preciso tratá-lo com panos quentes. Mas não resistia e arranhava-o. Entre um copo e outro, na Vedova ou no Due Mori, Alberto Memmo dizia-lhe: “A Mander pediu-me um desenho ...” E Andrea perguntava-lhe: “E por que é que não lho deste?” Ao que Alberto Memmo respondia: “Por que é que havia de lhe dar um desenho meu, se não valem nada? E achas que era o meu desenho que ela queria ou queria falar comigo porque sou teu amigo?...”

E punha-se a sorrir por debaixo da barba, a esconder os olhos, e ele a ouvi-lo; era um aviso: dela nunca se separaria, mesmo que a deixasse. E a ironia do Memmo era quase inveja: não compreendia o amor que o ligava a Lorenza: “Como é possível duas pessoas amarem-se desta maneira, apesar do mal que se fazem? São loucos, não têm juízo!”, pensava, “Quem me dera!” E, a sorrir para dentro, irónico e conivente: “Falta-lhes o sentido da realidade...”

A ambiguidade de Alberto Memmo em­purrava-o para Lorenza. Em Caterina, tentara esquecer Lorenza. Ela aceitava. Porque o amava? Talvez. Havia ocasiões em que perguntava por Lorenza porque, sabia que ele gostava. Ou por caridade? Outras vezes, perguntava por ela porque queria saber o que ele realmente pensava: era apenas a amante que lhe coçava as feridas dos sentimentos e deixava que ele coçasse, sem regras, os sentimentos dela?

Também Caterina era uma pessoa. Tinha momentos em que lhe vinha a vontade de fazer as contas. Afinal, o que queria? Chegara-se àquele homem convencida de que precisava dela e, agora, parecia um fogo-fátuo, não conseguia agarrá-lo.
— O que é que tu queres?

Andrea respondia, enquanto lhe metia as mãos no corpo:
— Isto. Não quero mais nada.

Ela sabia que não era só isso, mas deixava-o mexer. Gostava dele e lisonjeava-a. Quando a possuía — e, nesses momentos, era, realmente, generosa — a amizade era mais forte. Amizade? Amor? Ele trazia uma força que a amparava — também ela se sentia menos só: entrava uma pessoa que precisava dela, a beijá-la, a encostar-lhe a cara, e ela a tremer, quase a chorar — chorava, às vezes — porque era de mais e não sabia como corresponder. A violência cega, a ternura exaltada parecia que não se destinava a ela, que a ultrapassava. Não o prendia e gostaria de prendê-lo. Nesses momentos, talvez nem por egoísmo, pelo egoísmo que a impacientava tanto, queria agarrá-lo e dar-lhe a felicidade que ele parecia encontrar junto dela mas que, depois, também parecia que não era suficiente, porque sentia que ia por outros mundos, enquanto a abraçava. Se pudesse perceber esses mundos e acompanhá-lo... E quando pensava assim e era generosa e Andrea entendia. Voltava-lhe o desejo daquela mulher que se preocupava com ele e lhe perdoava que pensasse noutras, enquanto a possuía.

“Não é só nesses momentos que és generosa. És generosa na maneira na tua alegria, no respeito pelos outros, na teimosia. Serias capaz de continuar mesmo que outros se afogassem e tivesses pena.”

Um dia, Andrea e Caterina foram às Zattere. Sentaram-se numa esplanada, a olhar a outra margem. Um vaporetto atravessava o canal e a Giudecca estava à frente deles, as casas entre as árvores. Ela disse:
— A Lorenza não acerta com o curso, mudou outra vez. O que irá fazer?
Impaciente, Andrea respondeu:
-Sei lá!
— És amigo dela...
Andrea, que gostava de a ter ao pé, com a saia branca e a camisa verde, as pernas ao sol, corrigiu-a:
— Enganas-te, só me interessas tu. De ti é que eu sou amigo.

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