...algures em Veneza...Longe um do outro, viviam juntos. Andrea ia à cata de amigos, na esperança de encontrar Lorenza. Frequentava o Paolin, as osterie. O que lhe diziam não bastava, sentia-se ludibriado: ela fugia-lhe. Que importava o que diziam os outros? Era sempre a mesma coisa: “Foi para a montanha.... anda no Brenta... Sei lá! “ Não lhe traziam Lorenza. Ouvia-os e sentia-se inseguro, a escorregar, porque não sabia que verdade havia no que diziam. Sentia-se ludibriado Andava aos caídos, aos restos dos amigos, às frases de acaso.
— Ninguém escapa ao seu destino! — avisara-o uma vez Alberto Memmo.
Fora numa das tardes em que Andrea procurava Lorenza por Veneza e, no aforismo de Memmo, julgou ler piedade ou troça. Não o feriu, Memmo não gostava de Lorenza e achava que ele perdia tempo.
Mas pensou: “Eu queria era encontrá-la a ela. Desta gente, já sei tudo e não tenho de me humilhar. É de Lorenza que preciso: apresente-se, a ver se me foge... Mas que eu a veja fugir, que eu a veja ser antipática, malcriada, ordinária. Não me deixe sem nenhuma certeza! Ainda fico mais sozinho! Assim é que não pode ser! Assim é que eu não sei por que é que a Luisa me deixou e eu posso deixar a Caterina, o Roberto, Treviso, por sua causa ... “
“Ninguém escapa ao seu destino...” dissera Memmo. Ele sabia que Alberto Memmo o pensava: o destino era uma pessoa a gastar-se. Sabia, porque gostava das suas pinturas. Habituara-se a ver nelas uma pessoa que se arriscava, ia ao invés do seu tempo e se expunha, no desenho e nas cores. Reconhecia o amigo. E era tão livre que o assustava: como é que se atrevia? Para onde ia a sua alma? Os traços arrojados, onde o levariam?
- A que te leva isso?
Alberto, Memmo, que gostava que lho perguntassem, respondeu:
-Gosto muito de pintar estas telas. Conheces-me. São as minhas obras. Estás enganado quando pensas que é fácil. Dá um trabalho dos diabos! Mas, isso é verdade, às vezes, quando estou sozinho a pintar, até me esqueço dos outros. A que me levam? Um bocadinho adiante. Sem dúvida, um bom bocado em frente...
E, a rir-se, como sempre por detrás das barbas, acrescentou:
— À espera que me entendam... Os desenhos que faço, quem os entende? Eu bem queria... Não sou capaz de fazer melhor. A minha obra... Não ligues. Talvez seja uma causa perdida... mas gosto do que faço.
Andrea viu-o com o copo de pinot, os olhos baixos, e pensou que ele tinha razão, ninguém escapa ao seu destino, mas que destino era aquele? Amava Lorenza e preferia a insegurança ao vazio — porque descobria o vazio, se ela não estava ao pé dele. Em Lorenza amava a irregularidade, as hesitações, as contradições, sustos, teimosias. Era isso que o apaixonava. Quando o sentia, achava-se vivo: eram aspectos aos quais gostava de opor-se e esse combate dava-lhe mais vida do que ouvir o que diziam os amigos nas osterie. Muito mais do que imaginava o Memmo. Entre eles -,entre ele e Lorenza-, existiam muito mais coisas do que imaginava Alberto. Tantas, que não cabiam no céu. Para o Memmo, aquilo era uma doença que lhe caíra em cima e decidira levar até ao fim a doença.
Acto voluntário? Gostaria de acreditar que o fosse. Não podia era passar sem ela. Os amigos representavam a sua comédia. Dissessem bem ou mal, contassem ou insinuassem isto ou aquilo, era a maneira de a ver. Se quisesse, podia telefonar-lhe e ela haveria de responder-lhe mas tinham-se passado coisas a mais: Caterina, as viagens dela, os sítios por onde andaram um sem o outro. Mais valia esperar até que a trouxessem de volta os amigos, como se eles, trazendo-a e juntando-os, purificassem o amor, limpassem as escórias.
E aconteceu. Um dia telefonou a Michele Borin e convidou-o a tomar um café. Ao lado do amigo, de cabeça baixa e em cima de uns sapatos que lhe ficavam mal porque não se equilibrava nos saltos, com um livro entalado no braço, apareceu-lhe Lorenza.
— A Lorenza quis vir também, estava em minha casa e eu trouxe-a...
Michele Borin dissera aquilo com o rosto aberto e ar satisfeito, ela sentara-se na esplanada de S. Barnaba e fingia que não o via. Ele inclinou-se para ela e perguntou-lhe:
— O que queres tomar?
— Um café...
— Outro para mim também! — exclamou Michele e ia chamar o criado quando Andrea atalhou:
— Vocês são meus convidados!
— Certo! Há que tempo que não nos encontrávamos! Ainda bem que me telefonaste!
— Tens razão, ainda bem que te telefonei.
Michele Borin chegou-se para a frente e disse que iriam uns dias para a montanha:
— Eu e a Lorenza vamos à montanha, com um grupo. Já não se aguenta o calor e os turistas!
E, quando se chegou para a frente, encostou-se a Lorenza.
— Sim — concordou Andrea —, já estamos em Junho.
— Por que é que não vens connosco?
E Andrea disse, para dizer qualquer coisa uma vez que a outra continuava muda e queda, à espera do café:
— Não posso, tenho muito trabalho no hospital.
Por que é que ela viera e estava ali, com as pernas cruzadas e a fingir que não o via? Não fora ele quem a obrigara. Por que é que estava com aquele ar indiferente, a fingir que não dava por ele e, ao mesmo tempo, deixava que o outro se encostasse a ela? Então por que é que não ficara em casa do Borin? O que viera fazer a S. Barnaba?
— É um grupo, vamos com um grupo... — disse Lorenza, e parecia que se justificava.
— É um grupo — confirmou Michele.
E Andrea pensou: “Que, grupo? Onde é que vão? E este ri-se porque simpatiza connosco ou porque se ri de nós e eu estou aqui, feito parvo, à espera que ela beba o café? O que é que este quer?”
— Não vamos com ninguém... — disse Lorenza, como se lhe adivinhasse o pensamento e soubesse que ele queria saber com quem é que ela ia. Poderia ir com os tais amigos das viagens no Brenta, na lagoa, dos quais tinha medo, porque nunca os vira e desconhecia a influência que poderiam exercer sobre ela.
— Não vamos com ninguém? -irronizou Michele. — Vamos com os nossos amigos!
Andrea fingiu que não percebera. Os “nossos” eram os amigos “deles”, camaradagem que o excluía.
— Quanto tempo ficam por lá?
Expunha-se quando perguntava, denunciava o medo de a saber longe e acompanhada. E Lorenza disse, como se houvesse entendido e quisesse evitar que sofresse ou quisesse que ele soubesse que ir à montanha não tinha nenhuma importância, que já voltava e o preferia aos outros:
— Ficamos só dois ou três dias.
Michele corrigiu:
— Dois, ou três dias?! Uma semana ou mais!
— Que exagero! — protestou Lorenza.
Dois dias? Uma semana? Talvez ficassem mais tempo... Que importância tinha? Andrea estava ali, separado dela não sabia porquê. Porque não gostava de se abrir aos outros? Por causa das pessoas com quem ela se dava? Porque ela evitava chegar-se a ele, tocar-lhe? Mas ele também não lhe tocava! Mostrava-se ofendido e não passava disso. Não a provocava, não a chamava... Ou era ela que imaginava essas coisas? A sua distância aparente, a tristeza e a ironia como a olhava incomodavam-na. E o primeiro movimento (ainda agora, se não estivesse ali Michele) era gritar:
—Eu não sou quem imaginas! Nunca hás-de compreender-me!
E, depois, porque ele a obrigara àquilo — e, se àquilo a obrigara, era porque algum poder tinha — sacudiria-o, com raiva (acontecera muitas vezes), diria:
— Já chega, vou-me embora! Não insistas, Andrea!
E, apesar de estar convencida de que ele nunca poderia compreendê-la, tinha remorsos: blasfémia pensar aquilo, dentro da própria dor preferir a insatisfação de que não se libertava.
— Ninguém escapa ao seu destino! — avisara-o uma vez Alberto Memmo.
Fora numa das tardes em que Andrea procurava Lorenza por Veneza e, no aforismo de Memmo, julgou ler piedade ou troça. Não o feriu, Memmo não gostava de Lorenza e achava que ele perdia tempo.
Mas pensou: “Eu queria era encontrá-la a ela. Desta gente, já sei tudo e não tenho de me humilhar. É de Lorenza que preciso: apresente-se, a ver se me foge... Mas que eu a veja fugir, que eu a veja ser antipática, malcriada, ordinária. Não me deixe sem nenhuma certeza! Ainda fico mais sozinho! Assim é que não pode ser! Assim é que eu não sei por que é que a Luisa me deixou e eu posso deixar a Caterina, o Roberto, Treviso, por sua causa ... “
“Ninguém escapa ao seu destino...” dissera Memmo. Ele sabia que Alberto Memmo o pensava: o destino era uma pessoa a gastar-se. Sabia, porque gostava das suas pinturas. Habituara-se a ver nelas uma pessoa que se arriscava, ia ao invés do seu tempo e se expunha, no desenho e nas cores. Reconhecia o amigo. E era tão livre que o assustava: como é que se atrevia? Para onde ia a sua alma? Os traços arrojados, onde o levariam?
- A que te leva isso?
Alberto, Memmo, que gostava que lho perguntassem, respondeu:
-Gosto muito de pintar estas telas. Conheces-me. São as minhas obras. Estás enganado quando pensas que é fácil. Dá um trabalho dos diabos! Mas, isso é verdade, às vezes, quando estou sozinho a pintar, até me esqueço dos outros. A que me levam? Um bocadinho adiante. Sem dúvida, um bom bocado em frente...
E, a rir-se, como sempre por detrás das barbas, acrescentou:
— À espera que me entendam... Os desenhos que faço, quem os entende? Eu bem queria... Não sou capaz de fazer melhor. A minha obra... Não ligues. Talvez seja uma causa perdida... mas gosto do que faço.
Andrea viu-o com o copo de pinot, os olhos baixos, e pensou que ele tinha razão, ninguém escapa ao seu destino, mas que destino era aquele? Amava Lorenza e preferia a insegurança ao vazio — porque descobria o vazio, se ela não estava ao pé dele. Em Lorenza amava a irregularidade, as hesitações, as contradições, sustos, teimosias. Era isso que o apaixonava. Quando o sentia, achava-se vivo: eram aspectos aos quais gostava de opor-se e esse combate dava-lhe mais vida do que ouvir o que diziam os amigos nas osterie. Muito mais do que imaginava o Memmo. Entre eles -,entre ele e Lorenza-, existiam muito mais coisas do que imaginava Alberto. Tantas, que não cabiam no céu. Para o Memmo, aquilo era uma doença que lhe caíra em cima e decidira levar até ao fim a doença.
Acto voluntário? Gostaria de acreditar que o fosse. Não podia era passar sem ela. Os amigos representavam a sua comédia. Dissessem bem ou mal, contassem ou insinuassem isto ou aquilo, era a maneira de a ver. Se quisesse, podia telefonar-lhe e ela haveria de responder-lhe mas tinham-se passado coisas a mais: Caterina, as viagens dela, os sítios por onde andaram um sem o outro. Mais valia esperar até que a trouxessem de volta os amigos, como se eles, trazendo-a e juntando-os, purificassem o amor, limpassem as escórias.
E aconteceu. Um dia telefonou a Michele Borin e convidou-o a tomar um café. Ao lado do amigo, de cabeça baixa e em cima de uns sapatos que lhe ficavam mal porque não se equilibrava nos saltos, com um livro entalado no braço, apareceu-lhe Lorenza.
— A Lorenza quis vir também, estava em minha casa e eu trouxe-a...
Michele Borin dissera aquilo com o rosto aberto e ar satisfeito, ela sentara-se na esplanada de S. Barnaba e fingia que não o via. Ele inclinou-se para ela e perguntou-lhe:
— O que queres tomar?
— Um café...
— Outro para mim também! — exclamou Michele e ia chamar o criado quando Andrea atalhou:
— Vocês são meus convidados!
— Certo! Há que tempo que não nos encontrávamos! Ainda bem que me telefonaste!
— Tens razão, ainda bem que te telefonei.
Michele Borin chegou-se para a frente e disse que iriam uns dias para a montanha:
— Eu e a Lorenza vamos à montanha, com um grupo. Já não se aguenta o calor e os turistas!
E, quando se chegou para a frente, encostou-se a Lorenza.
— Sim — concordou Andrea —, já estamos em Junho.
— Por que é que não vens connosco?
E Andrea disse, para dizer qualquer coisa uma vez que a outra continuava muda e queda, à espera do café:
— Não posso, tenho muito trabalho no hospital.
Por que é que ela viera e estava ali, com as pernas cruzadas e a fingir que não o via? Não fora ele quem a obrigara. Por que é que estava com aquele ar indiferente, a fingir que não dava por ele e, ao mesmo tempo, deixava que o outro se encostasse a ela? Então por que é que não ficara em casa do Borin? O que viera fazer a S. Barnaba?
— É um grupo, vamos com um grupo... — disse Lorenza, e parecia que se justificava.
— É um grupo — confirmou Michele.
E Andrea pensou: “Que, grupo? Onde é que vão? E este ri-se porque simpatiza connosco ou porque se ri de nós e eu estou aqui, feito parvo, à espera que ela beba o café? O que é que este quer?”
— Não vamos com ninguém... — disse Lorenza, como se lhe adivinhasse o pensamento e soubesse que ele queria saber com quem é que ela ia. Poderia ir com os tais amigos das viagens no Brenta, na lagoa, dos quais tinha medo, porque nunca os vira e desconhecia a influência que poderiam exercer sobre ela.
— Não vamos com ninguém? -irronizou Michele. — Vamos com os nossos amigos!
Andrea fingiu que não percebera. Os “nossos” eram os amigos “deles”, camaradagem que o excluía.
— Quanto tempo ficam por lá?
Expunha-se quando perguntava, denunciava o medo de a saber longe e acompanhada. E Lorenza disse, como se houvesse entendido e quisesse evitar que sofresse ou quisesse que ele soubesse que ir à montanha não tinha nenhuma importância, que já voltava e o preferia aos outros:
— Ficamos só dois ou três dias.
Michele corrigiu:
— Dois, ou três dias?! Uma semana ou mais!
— Que exagero! — protestou Lorenza.
Dois dias? Uma semana? Talvez ficassem mais tempo... Que importância tinha? Andrea estava ali, separado dela não sabia porquê. Porque não gostava de se abrir aos outros? Por causa das pessoas com quem ela se dava? Porque ela evitava chegar-se a ele, tocar-lhe? Mas ele também não lhe tocava! Mostrava-se ofendido e não passava disso. Não a provocava, não a chamava... Ou era ela que imaginava essas coisas? A sua distância aparente, a tristeza e a ironia como a olhava incomodavam-na. E o primeiro movimento (ainda agora, se não estivesse ali Michele) era gritar:
—Eu não sou quem imaginas! Nunca hás-de compreender-me!
E, depois, porque ele a obrigara àquilo — e, se àquilo a obrigara, era porque algum poder tinha — sacudiria-o, com raiva (acontecera muitas vezes), diria:
— Já chega, vou-me embora! Não insistas, Andrea!
E, apesar de estar convencida de que ele nunca poderia compreendê-la, tinha remorsos: blasfémia pensar aquilo, dentro da própria dor preferir a insatisfação de que não se libertava.
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