
Ao referir, há dias, que Albert Camus não quis ser um “autor da sua época”, não negava ter ele sido um autor atento à sua época. O que ele não quis ser foi um seguidor do entendimento generalizado, dos dogmas e lugares-comuns (e o dogma tende a tornar-se lugar-comum). R-M Albérès sublinhou: “Camus não adoptou o estilo da literatura do seu tempo”. E por um motivo: quis ver com os próprios olhos e pensar com a própria cabeça. Na dele, viajaram os Mestres, que os teve, desde os clássicos gregos a Dostoievski e Nietzsche e aos que ainda conheceu, Gide, Montherlant, Malraux. Camus, um estrangeiro? Sem dúvida. Um intruso, à margem da onda aceita de uma arte engajada. Mas essa é a condição inevitável do escritor que quiser testemunhar em verdade –porque a verdade que podemos e devemos comunicar é aquela a que chegamos, por nós, através do diálogo.
Literatura descartável
Literatura descartável
Maiormente, recusaria Camus a literatura descartável, que sempre a houve e muito repugnava a Flaubert: a escrita de pacotilha, produto rentável e destinado aos que consomem o convencionado, a anedota pacífica. E mais uma vez sugiro a “Correspondance” Flaubert/George Sand (Flammarion), onde muito se aprende com as atribulações de gente honrada em plena feira literata. Hoje, graças às novas tecnologias e ao despudor legalizado, refinou o mercado da banha da cobra que afasta maus pensamentos e diverte. Não adoptar o artista o estilo do momento e não trotar com o que está a dar –é morte certa. Não lhe perdoarão os industriais da incultura nem darão por ele os iletrados cuja ignorância alimenta aquela indústria e garante a venda dos Dan Brown e outros quadrilheiros.
publicado, hoje, na Página de Cultura de Jornal de Notícias
Sem comentários:
Enviar um comentário