
Inventara? Fechara os olhos? Não quisera compreendê-la? Era tempo passado. Agora, sentia -e angustiava-o- que Lorenza lhe fugia, lhe escapava entre os dedos. Quis ver a sua casa. Talvez, assim, descobrisse alguma coisa dela, da intimidade que lhe resistia. Meteu-se no comboio e foi a Veneza só para isso. Alberto Memmo, que encontrou na Strada Nuova, demorou-o e acabaram numa das locandas conhecidas, a Fiascheteria Toscana. Aí, o pintor logo exigiu mariscos: os tartufi-di-mare, uma espécie de grandes amêijoas. Dizia, sempre, que o vinho branco e os tartufi o fariam feliz. E acrescentou: «Um amigo português, que eu conheci, garantiu-me que são a prova da existência de Deus. A única?, perguntei-lhe. E ele, com delicadeza e sobressalto, mas com os olhos firmes de quem tem razão — e preferiria não a ter, para não magoar os outros —, respondeu-me: Não há mais nenhuma. E, sabes, eu pensei que aquela, a dos tartufi e do meu amigo que falava comigo, era já bastante.»
— Quem era esse teu amigo? — perguntou Andrea.
— Era um poeta — respondeu Alberto, a chupar os tartufi.
Andrea via-o à sua frente, alto, com os óculos redondos de aros de metal e as barbas arruivadas compridas, e lembrava-se da pintura meticulosa, entre o abstracto e o figurativo, de extrema delicadeza que, para ele, significava subtileza e fina poesia e, para os outros, fragilidade e insegurança. Admirava-lhe a pintura e admirava-o a ele, que trabalhava, indiferente aos que não o entendiam. A essa superioridade Andrea era sensível. Mas a persistência não coincidia com a indiferença: Alberto não ignorava a incompreensão dos outros, que o feria e condicionava, que o levava a refugiar-se em si e na pintura e a querer iludir-se ou escarnecê-la. Por exemplo: nesse dia, apesar de saber muito bem qual a vontade de Andrea, pouco lhe disse de Lorenza: não queria comprometer-se nem perder o amigo. Disse-lhe — confirmou-lhe — que ela vivia no Lido; que tinha duas irmãs; que era uma veneziana como as outras. E metia as barbas no copo e não olhava para Andrea. Instado, acabou por contar uma história de Lorenza com um agente de vendas, o «pinóquio» (e chamou-lhe assim para que Andrea não duvidasse que estava do seu lado), um meio-inglês, que vivia de expedientes e tinha o nariz comprido.
— E foram para a cama? — perguntou Andrea.
— Sei lá! Como é que tu queres que eu saiba? Andaram por aí...
— Isso não esclarece nada!
-Pois não...
Olhou-o, surpreendido, à espera e a tentar perceber onde o outro queria chegar. Alberto limitou-se a encolher os ombros.
— Já é tarde, tenho de me ir embora, estão à minha espera –disse Andrea, impaciente. E lá foi à procura da casa do outro lado da Laguna, no Lido.
— Quem era esse teu amigo? — perguntou Andrea.
— Era um poeta — respondeu Alberto, a chupar os tartufi.
Andrea via-o à sua frente, alto, com os óculos redondos de aros de metal e as barbas arruivadas compridas, e lembrava-se da pintura meticulosa, entre o abstracto e o figurativo, de extrema delicadeza que, para ele, significava subtileza e fina poesia e, para os outros, fragilidade e insegurança. Admirava-lhe a pintura e admirava-o a ele, que trabalhava, indiferente aos que não o entendiam. A essa superioridade Andrea era sensível. Mas a persistência não coincidia com a indiferença: Alberto não ignorava a incompreensão dos outros, que o feria e condicionava, que o levava a refugiar-se em si e na pintura e a querer iludir-se ou escarnecê-la. Por exemplo: nesse dia, apesar de saber muito bem qual a vontade de Andrea, pouco lhe disse de Lorenza: não queria comprometer-se nem perder o amigo. Disse-lhe — confirmou-lhe — que ela vivia no Lido; que tinha duas irmãs; que era uma veneziana como as outras. E metia as barbas no copo e não olhava para Andrea. Instado, acabou por contar uma história de Lorenza com um agente de vendas, o «pinóquio» (e chamou-lhe assim para que Andrea não duvidasse que estava do seu lado), um meio-inglês, que vivia de expedientes e tinha o nariz comprido.
— E foram para a cama? — perguntou Andrea.
— Sei lá! Como é que tu queres que eu saiba? Andaram por aí...
— Isso não esclarece nada!
-Pois não...
Olhou-o, surpreendido, à espera e a tentar perceber onde o outro queria chegar. Alberto limitou-se a encolher os ombros.
— Já é tarde, tenho de me ir embora, estão à minha espera –disse Andrea, impaciente. E lá foi à procura da casa do outro lado da Laguna, no Lido.
Era uma vivenda como as outras, construída nos anos, 40, com uma porta envidraçada, dois vidros, um azul e outro encarnado, e um jardim. A única coisa que a distinguia talvez fossem os vidros da porta. O bairro era pacato, a poucos metros havia um quiosque onde se vendiam os jornais e, mais adiante, uma leitaria, os autocarros passavam à frente da casa e, nos passeios, brincavam crianças. Era-lhe difícil imaginá-la a sair dali, com a inquietação, os braços desengonçados, os olhos azuis, os cabelos compridos e o peito abraçado pelo vento, à procura do autocarro que a levaria ao embarcadoiro dos vaporetti para Veneza. Aquele não podia ser o mundo dela. E, no entanto, era. Desiludia-o, porque contrariava a aventura que sonhara para os dois, mas era: Lorenza ia e vinha, e dormia naquela casa, que a protegia, ainda que todos os dias batesse as asas contra os muros.
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