terça-feira, 12 de janeiro de 2010

"O Pássaro de Vidro" -IIª Parte, II

...mosaico de Ravena...



Andrea, quando não se demorava em Veneza, metia-se na casa de Treviso, a pensar em Luisa, em Roberto e em Lorenza. Gostava de estar à lareira, a lembrar Roberto, ainda menino, Luisa, definitivamente perdida, Lorenza a fugir-lhe. Habituara-se, desde a infância, àquela lareira acesa: o pai a folhear um livro e à mãe que os protegia. Era tão discreta! E como a estimavam! O pai apercebia-se da sua presença e protestava:
— O que andas para aí a fazer?
E a mãe, a doçura nos olhos, o corpo mais suave do mundo, chegava-se, sentava-se e dizia:
— Já estou aqui.
Era o que recordava, na casa de Treviso: a vida de médico, a mulher, Roberto e aquela que aparecera sem que a tivesse chamado e andava à volta dele e ele não queria ver ir embora. Os pais saíam da lareira: eram imaginação. Tinham-lhe deixado aquela casa. Ele crescera e devia governar-se. Mas, às vezes, apetecia-lhe trazê-los para ali, descansar ao seu lado. Pensava, hoje, assim, porque o que viera depois lhe exigira muito e o desassossegara. Era Inverno e nevava lá fora. A memória não o deixava em paz, recordava os pais e os outros. Precisava da sua presença física. Por mais que se isolasse, a realidade batia-lhe à janela. E ele ia ver o que era. Naquele mês de Inverno, aparecia-lhe a cidade coberta de neve, e pensava: «Se fôssemos to­dos, por aí acima, com sapatos próprios para a neve, direitos às montanhas? E chegássemos onde está tudo gelado, mas é transparente, e nos sentássemos e estivéssemos, assim, só para estarmos juntos?».

À lareira, escondido, o que é que ele queria? Hão-de passar as páginas deste livro sem que se conheça toda a verdade. Andrea gostava de Lorenza, dos amigos e dos parentes — ou estava, ali, a ver se não deixava de gostar de si? Perdera Luisa, o filho vivia noutro sítio e ele agora voltava a Treviso para se lembrar dos outros e se encontrar consigo. Não lhe bastava. Precisava de olhar para fora.

Um dia, convidou Lorenza a ir a Ravena e lá partiram com os amigos, que também convidara. Era um grupo agitado: Lorenza e Andrea, Paola Zanier, Michele Borin, Francesco Orio, Caterina Monastier. E prometera juntar-se-lhe Alberto Memmo.

Lorenza viera ao seu encontro, como era: cauta e ansiosa. Viera a rir-se, e mais parecia um trejeito o riso: a caricatura de uma pessoa que se tivesse posto a rir sem querer e a quem ficara o esgar: a cara a rir-se e os olhos fixos, exprimindo outra coisa, amargura. Desceram, em dois carros, a Romea, a estrada que leva a Ravena. Pararam, num bar, em Contarina. E logo ali começaram a ignorar-se. Tomaram o café, a fingirem que não sabiam que o outro estava na outra ponta do balcão. Quando chegaram a Ravena, separaram-se.
— Vamos ver os mosaicos? — sugeriu Michele Borin.
— Agora, não me apetece — disse Andrea.
E só Caterina ficou com ele.
— A mim também não me apetece.
Os outros desapareceram e ela virou-se para Andrea:
— Vamos nós ver Ravena, sem pressas?
Sabia que Andrea não andava bem. Conhecia-o há muito tempo, habituara-se a encontrá-lo durante as férias que ele passava com os pais na quinta de Verona, a sua cidade, e habituara-se a estimá-lo, mais velho e estudante em Pádua, depois médico, quando ela viera para a Veneza.
— Pois sim — aceitou Andrea.
Aliviava-o a espontaneidade, o modo como ela o levava.
—Anda daí!
Em S. Apolinare Nuovo, a meio da nave central, entre os santos, os mártires e os milagres, Caterina perguntou:
—Já reparaste? Que tranquilidade e alegria! Figuras calmas e determinadas, que procuram Deus e vão ao seu encontro. A força dessa gente! A paz deste sítio! Dá vontade de viver.
— Porquê?
—Responsabiliza-nos. A serenidade e a deter­minação afastam os fantasmas e empurram-nos.
-Para a vida?
-Sim, para a vida.
-Tens razão, é muito bonito. Quem te ouvisse diria que és uma alma religiosa.
— Sou estudante de literatura e de arte. Religiosa? Sei lá! Amo a vida e estas imagens não me afastam dela, pelo contrário. Lá no coração da vida deve haver esta paz e esta serenidade. No meio das confusões e dos grandes arrebatamentos.
— Mas custa a atingir a paz e a serenidade.
-Depende. Há força e entusiasmo fáceis.

Já na rua, Caterina deu um salto, a fugir de uma bicicleta. Andrea puxou-a.
— Tens de ter cuidado, ainda te magoas.
— Não faz mal.
Cheiravam bem os seus cabelos. Encostou os lábios à testa, fresca e doce. Ela virou-se, a cara redonda e o corpo pequenino, cabelos castanhos, seios que mal levantavam a blusa, olhos pretos, fixos nele.
-Vamos festejar?
Sorriu. Gostava de Caterina, que lhe aparecera criança e o divertia, natural, viva. Sabia que dava, sem pedir. Agora, desafiava-o a ir com ela. E, se assim se expunha, era porque queria. E respondeu:
— Olha ali um bar. Há presunto e vinho...
-Mais vale isso do que o resto.
Andrea entendeu que o resto era Lorenza a virar-lhe as costas e a dar ao rabo, a ver se ele a seguia e a negar-se. E apertou Caterina de encontro a si:
— Tens razão, mais vale isto do que nada.
Ela fingiu que não o ouvia, estimava-o demais para o ouvir: preferia esquecer que lhe bastava que se lhe encostasse e deixasse que ele tivesse o seu corpo à disposição e que fosse essa a relação deles.
Na osteria, alegres, comeram e beberam.
— É vinho novo -explicou Andrea.
— Sim, é fragolino — esclareceu o taberneiro —, acabadinho de engarrafar!
— Era bom era com o clíton a talhá-lo —disse Caterina.
E Andrea pensou: «O que é que ela percebe disto?».
-Com o clíton? Tinhas logo ai o Francesco Orio a protestar! Este é vinho americano misturado.
Caterina olhou para ele. Que lhe ia por dentro?
— Não é vinho americano? — insistiu Andrea, desconfiado.
E ela, que já esperava, respondeu:
— É vinho americano. É o fragolino, se calhar misturado com o clíton...
E, porque, se já esperava que Andrea reagisse assim na sua insegurança, a impacientava a suspeita dele, acrescentou:
—Não gostas de mim?
Andrea ficou calado mas acabou por dizer:
— Não são coisas que se perguntem.
E sorriu:
— E daí, talvez! És muito simpática!
Ela agradeceu-lhe, a espreitá-lo cá de baixo e a tentar percebê-lo.
— Onde é que eles foram? –disse Andrea.
— Interessa-te?
— Nem por isso.
Que lhe importavam os outros, se a tinha a ela? E Caterina entendeu:
— É tão bom estarmos aqui!
A cidade era calma, pessoas que andavam de bicicleta, ruas geométricas, negociantes que discutiam na praça das colunas venezianas, os monumentos, as igrejas.
— Queres ir ver o túmulo da Galla Placidia? — perguntou Caterina.
— Se quiseres.
E empurrou-a para outro lado. Ela tinha razão: iam tão bem ali os dois, não precisavam de mais nada.

E assim, andaram Caterina e Andrea, por Ravena, até que Lorenza começou a aparecer-lhes. Primeiro, ouviram a voz dela, depois, desembocou, inesperadamente, nos sítios por onde iam. Não se aproximava, agitava-se, falava, ria. Apontava para os prédios, puxava por Michele e por Paola, dizia a Francesco (e a sua voz vibrava, uma escala acima):
— Já viste, já viste?...
Já tinham visto todos e Ravena, para além das duas basílicas e da igreja ao pé do túmulo de Galla Placidia, pouco mais tinha que ver. Havia, é certo, a tranquilidade, mas o frenesi de Lorenza desequilibrava: mexia-se de mais, e os outros acompanhavam-na contrafeitos. Andrea, continuou em frente, mas ela foi atrás dele. E Caterina exclamou:
-Andrea! Pára com isso: não estou para aturar a Lorenza!
Parar com o quê? Ele não fizera nenhum mal, andara com Caterina porque não queria aturar a outra. E não parou. Não pedira a Caterina que o acompanhasse e, se encontrara Lorenza, fora por acaso ou por culpa ou vontade dela. Só faltava que parasse e aceitasse o seu desgoverno. Agarrou-se a Caterina, apertou-a, chegou-se mais a ela. E disse-lhe o que nunca pensara dizer-lhe: que era muito bom estar ao pé dela, que ela percebia o que ninguém percebia, que era diferente dos outros. Ele dizia-lhe essas coisas porque queria que o protegesse e começou a convencer-se a si próprio de que era verdade. Gostava de Caterina e sabia-lhe bem o seu corpo, jovem e duro como o de Lorenza, mas este entregava-se-lhe. Um belo corpo, à disposição. A outra andava aos pulos, Caterina acompanhava-o.
Quando Caterina dissera que estava farto de aturar as birras de Lorenza, dissera-o para se aliviar da responsabilidade de ir com Andrea. Uma tentativa para o mandar embora? Sim, mas não era capaz. Porquê? Por que não se afastava e o deixava com a outra aos berros? Era um espectáculo triste. A sua fraqueza devia-se, apenas, à amizade por Andrea? Ou à antipatia por Lorenza? Não suportava os berros e, ficando junto dele, tentava feri-la? Enquanto o empurrava, pensou: «Não, não é só por isso: eu gosto dele.»
Andrea desculpou-se:
— Ela não despega!
— É muito possível. –respondeu Caterina,
E continuou a empurrá-lo. Quando lhe olhou a cara, reparou que sorria. Deixava-lhe a mão, apertava-lhe os dedos, mas ela não tinha nenhuma certeza: se calhar, gostava da pele dela, só isso. E depois? Talvez o pudesse ajudar. E perdoou-lhe o egoísmo.
— Vais ver que ainda aí aparecem. Mas nós chegamos para eles!

Sem comentários:

Enviar um comentário