segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O regresso à verdade



É sempre aos nossos clássicos, porque falam a nossa língua e a deste país estranho, louco, como dizia Unamuno, de poetas locos, como poderá dizer qualquer um que nos olhe nos olhos, mundo pequeno e imenso de suicidas adiados, de geniais criadores e de almas à nascença entregues na mão de Deus, frágeis como todas as coisas divinas, e capazes de viajar na Nau Catrineta e ser gajeiros,

é sempre aos maiores, aos quase anónimos dos Cancioneiros, ao perfeito Sá de Miranda, ao cegueta, o Camões,

ou ao mártir português de si próprio mártir, o Sá-Carneiro, o do golpe de asa que, ao contrário do que ele julgava, agarrou no instante exacto em que se abriu para ele, branco de neve, cinzento dos invernos de Paris, puro tal qual as pernas da borboleta da noite de Pigalle, que lhe aconchegava a roupa, nunca bastante, a sua roupa de poeta-menino, a transparência trágica da vida, a asa fugitiva e batedora do único caminho até além da morte,

é, sempre, a José Régio, clássico e adolescente da cervejaria onde não o encontro mas vou buscar a outra margem, entre as árvores-homens,

é sempre a ele que volto.

E ele recarrega-me as baterias. É um homem sério e da mentira estou farto.

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