quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro', IIª Parte, III

...quadro de Victor Pasmore...



E acabaram por chegar: Lorenza cheia de frio, encostada a Michele Borin e com os olhos a brilharem, os outros a rirem-se e a falarem alto. Paola Zanier informou que o Memmo telefonara a uns amigos de Ravena a dizer que se atrasara e que os esperavam num restaurante, para jantarem. Durante esse jantar, Lorenza haveria de expor-se de maneira que afligiria e lisonjearia Andrea. Ele sentara-se ao lado de Caterina. Os outros discutiam, animadamente, a lista, escolhiam os pratos. Dir-se-ia uma festa e Lorenza, ao princípio, fingiu que se divertia com Michele Borin e Francesco Orio que lhe correspondiam — Michele sem perceber muito bem, porque não era habitual em Lorenza aquela cortesia (ainda que lhe fossem habituais o excesso e a desmedida, que atraíam as pessoas), Francesco Orio contente por a ver assim, porque era seu amigo. Durou pouco. Depressa Lorenza se esqueceu deles. Não tirava os olhos, de Andrea e Caterina.
Francesco perguntou-lhe:
— Como é que vai o teu curso?
E ela respondeu:
— Uma merda!
Ficaram todos a olhar para ela. Borin fingiu que não ouvira e disse:
— Já sabem que o Trevisan está a organizar uma exposição do Victor Pasmore na Galeria?
Lorenza repetiu:
— Uma merda! Não é curso, não é nada!
Borin insistiu, a tentar salvar a conversa:
— Não acham importante?
Paola Zanier reforçou:
— Artistas assim há poucos, tão delicado e profundo!
Francesco anuíu:
— É muito importante.
«Delicado e profundo, tem razão a Paola», pensou Andrea «muito do nosso tempo ou das nossas angústias, como se quisesse voltar ao princípio da nossa originalidade e da nossa criação e quisesse mostrar como somos frágeis, solitários e aventurosos. Porque, realmente, nos arriscamos a avançar, quase inconscientemente, com a nossa fragilidade e a nossa provocação. Lorenza deve gostar dele.»
— Importantíssimo! — exclamou Francesco.

Mas já se perdera a alegria. Não bastaram nem Paola Zanier nem Borin. Tinham pena dela e não sabiam como ajudá-la. Excedia-se e ficava sozinha e os outros não a acompanhavam no seu excesso. Eles desconfiavam que adivinhavam por que se excedia. Como poderiam reconduzi-la ao equilíbrio, a viver consigo e não precisar dos outros?
Andrea corrigiu o seu pensamento, porque começava a cansar-se de a respeitar: «É tudo aparência, ela precisa dos outros...». E resolveu aproveitar a oportunidade para a magoar. Seria uma maneira de a atingir, de entrar nela e, agora, lhe chegavam o cansaço e a raiva. Conheciam-se há tanto tempo e ainda andavam naquilo! Mais valia acabar!
Foi a primeira vez que o pensou, mas não se decidiu. Comportou-se de modo que mais tentava acordá-la para si e prendê-la, agarrá-la. Finalmente podia meter-se na sua alma e não lhe importava que sangrasse. o que queria era entrar e estar lá — magoava-a porque gostava dela. Queria ir por dentro da alma dela a ver se a percebia, se entendia qual era o seu mundo e o que estava por detrás da aparência. E, porque a desejava, excedeu-se ele também.

Por que o fez? Porque preferia Caterina? Porque queria livrar-se de Lorenza e ficar com Caterina? A verdade é que multiplicou as atenções para com esta e começou a falar das pessoas que não se abriam, que brincavam ao suicídio, que se revolviam nas próprias dificuldades e gozavam com isso. Citou frases do diário de Lorenza. Os amigos, percebiam que ele a magoava e calavam-se, incomodados. E Andrea não parava:
— Ter medo da vida é um pecado grave, quem se arranha porque gosta devia ter vergonha!
Insistia, encostado a Caterina, que pensava: «O teu medo é igual ao dela, mas gosto de ti...O mal que lhe fazes é igual ao amor que lhe tens. Sofres por causa disso. Se eu pudesse, levava-te para outro sítio ... »
Paola Zanier adivinhou:
— Agora, onde é que vamos?
Já tinham acabado de jantar, mas ninguém lhe respondeu. Lorenza encolhia-se, ao lado de Michele, à espera das ofensas de Andrea. Francesco dobrava o guardanapo, de olhos baixos, preocupado. E Caterina suportava com dificuldade a situação, impaciente — outras coisas, muito mais coisas do que a lã caprina, as indecisões e as agressões de Lorenza e Andrea, a preocupavam. Era uma vitalista, uma voluntariosa, uma pessoa que não gostava de ficar parada (ou uma alma nobre e decidida).
Andrea gritou:
-As pessoas não se entendem! Têm medo! Que porcaria!
Puxou a cabeça de Caterina para a dele e encostou-se-lhe.
— Que porcaria!
Caterina deixou-o encostar e forçou o riso.
— Não é tão mau como isso...
Disse-o a olhar para Lorenza enrolada ao lado de Borin, Lorenza que a afligia porque tinha de ter uma espinha dorsal e não podia ser a bola de carne encostada ao outro.
Lorenza levantou-se e foi chorar para a casa de banho. Quando voltou, trazia os olhos, congestionados. Quis ir-se embora e Paola Zanier acompanhou-a. Francesco seguiu-as. E, quase ao, mesmo tempo, chegou Alberto Memmo que disse que queria jantar. Os que ficaram emudeceram. Alberto Memmo, a espreitar por detrás dos óculos, comeu uma sopa de mariscos; Michele Borin pediu um bagaço. Os de Ravena imitaram-no.
— Então? — perguntou Alberto, enquanto chupava as amêijoas.
— Então nada — respondeu Michele. — Cá estamos.
— Vamos embora... — disse Caterina a Andrea.
Na rua, perguntou-lhe:
— A Lorenza é mesmo assim?
— Sei lá!
Nenhum dos dois gostava do que acontecera e preferiam fingir que não tinham nada que ver com aquilo.
-Achas que a culpa foi nossa? Nós é que a fizemos chorar?...
— Talvez não — sossegou-a Andrea —, se calhar ela precisava de chorar.
Iam, de braço dado, na direcção oposta à dos carros.
— Deixámo-los no. restaurante. — disse Caterina a sorrir, a ver se ele discordava.
— Deixa-os lá estar. Há coisas mais sérias.
E continuaram a andar, sem quererem saber dos outros e com remorsos e inseguros. Remorsos porque tinham deixado os amigos e a dúvida porque não sabiam, realmente, se irem juntos os levaria a algum sítio.
— Tu tens muita paciência, se fosse comigo, nem tinha vindo a Ravena. Ela é sempre assim?
-Entre mim e ela não há nada.
E corrigiu:
— Às vezes não, é assim....
Catreina sabia que ele sofria quando dizia aquilo. Ningém ignorava que Andrea e Lorenza não eram só amigos e que não era uma relação simples. Poucas vezes apareciam juntos e ainda menos como dois apaixonados. Iam sempre separados, a falarem, mas a falarem para o lado. Traía-os essa preocupação: a de não se olharem. Teimavam nisso –e os, outros reparavam. Os amigos surpreendiam-nos de cabeça baixa e pensavam:
— O que é que se passa? Não é normal.
E se, por acaso, os apanhavam em falta, quando os viam sorrir um para o outro, e ficarem assim calados, diziam:
— Gostam um do outro.
Era o que pensava muitas vezes Caterina. Também ela os vira encostarem-se e sorrirem envergonhados. Era o que pensava naquele dia Caterina: gostavam um do outro, mas não eram capazes de amar-se. Medo ou, apenas, falta de jeito?
Quanto acontecera não a surpreendia. Tinha a sua opinião acerca de Lorenza. Achava-a insegura e teatral e a comédia dela irritava-a. No seu lugar, teria procedido de outra maneira. Se gostava dele, que se mexesse! Alguém tinha de se mexer e não havia razão nenhuma para que Lorenza se pasmasse, à espera dele decidir.
-Lorenza tem um feitio difícil — tentou justificar Andrea.
Caterina puxou-lhe o braço e apontou a Lua, redonda, no meio das estrelas.
— Já viste como está límpido o céu? Que frio!
Não queria ouvi-lo a perdoá-la, porque ela não o merecia.
— Gostas do Inverno?
Ele gostava mais do calor dela. E beijou-a. Ela agarrou-lhe a cabeça e encostou-lhe o corpo.
— Amo-te! — murmurou Andrea.
Ela afastou a cara e fitou-o nos olhos com uma doçura divertida:
— Vejam lá!...
E ficou a limpar a boca e a arranjar a roupa.
O luar batia-lhes em cheio e Andrea reparou no corpo frágil de Caterina, no cabelo curto, nas mãos pequeninas que ajeitavam a roupa, nos olhos dela que brilhavam (parecia que estavam. a brilhar por causa dele), e reparou que era senhora de si própria, que não tinha medo de nada, nem de o ter deixado acariciar-lhe o corpo.
Caterina riu:
— O que é que estás, a olhar?
Ele não soube responder. Caterina acrescentou:
-Vamos embora! Vamos chegar atrasados!
— Aonde?
-Ao sítio!
Viraram e subiram a rua.

Os, outros estavam à espera, dentro dos carros. Andrea entreviu o rosto de Lorenza. Quando chegou mais perto, pareceu-lhe que ela tinha a boca crispada e os olhos fechados. Alguém abriu uma das portas e acendeu-se a luz e ele viu-a com o queixo na gola do, casaco, a dormir. E sentiu ternura por ela, quis envolvê-la. Era uma expressão fria, mas, se pudesse, não a abandonava. Queria-lhe mais do que à vida. No regresso, Caterina foi aconchegada a ele. Paola Zanier guiava e, ao lado, Alberto Memmo fumava e olhava para a estrada, os cabelos e as barbas embranqueci­dos e as mãos que tremiam. No carro da frente iam Lorenza, Francesco Orio e Michele Borin.
— Vão todos a dormir? — perguntou Paola.
Alberto Memmo riu-se, tossiu, e tocou-lhe no braço. Quando se cruzavam com outros carros, a luz dos faróis iluminava-os e, Andrea via as lentes dos óculos de Alberto Memmo a brilharem, o, seu corpo abandonado dentro da gabardina larga. Via Paola muito atenta, as mãos agarradas ao volante. A sombra ao lado do condutor do carro que ia à frente — Michele Borin — era Lorenza. Tinha Andrea, nas mãos, as mãos de Caterina e o peso do seu corpo. E, naquele momento, mais do que a Caterina ou a Lorenza, era a Paola Zanier e a Alberto Memmo que ele agradecia que estivessem ali: eram amigos desinteressados. O que é que iria fazer daquela mulher, da que ia no carro da frente E o que é que iria fazer de Caterina? A cabeça dela escorregara-lhe para o colo e ele largara-lhe as mãos e segurava-lhe os ombros. Se lhe mexesse na boca, sentiria os lábios mornos, se a encostasse mais a si, poderia tê-la, como já quase a tivera. Nunca lhe passara pela ca­beça que acontecesse. Conhecia-a mal, de recordações, das poucas vezes em que a vira na quinta de Verona, onde ia passar as férias. Mas o que o empur­rava para ela, naquele dia, nada tinha a ver com o conhecimento. Caterina aliviara-lhe o peso de suportar Lorenza. Devia-lhe disso. E Paola e Alberto Memmo eram os amigos que os acompanhavam e que nunca exigiriam nenhuma retribuição.

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