...Veneza... óleo de Turner...“-Fica sempre tudo para a próxima vez...”
A próxima vez seria ela à espera de que acontecesse qualquer coisa, de que Andrea lhe telefonasse. Já lhe tinham dito que a procurava nos sítios onde ia mas não se encontravam e não podia telefonar-lhe, não queria que pensasse que gostava dele, nem queria pensar nisso, que gostava dele, que precisava dele. Mas pensava e tinha saudades. Tivera sempre saudades, enquanto tinham andado separados e consolara-se a dizer-se que um dia — no dia em que quisesse — o voltaria a ver. No dia em que o destino lho devolvesse...
— Acreditas no destino? — perguntara-lhe Berto Fontana, junto à amurada do barco em que subiam o Brenta.
— Em que é que tu querias que eu acreditasse, se não acreditasse no destino? Acreditava nesta viagem, neste suor?
E virara-se para ele, com o corpo queimado pelo sol e a raiz dos cabelos a gotejar.
— Achas que era nisto que deveria acreditar?
Berto Fontana, fingiu que não percebera que não percebera que ela reclamava e que de quanto acontecera entre eles tirara apenas desgosto, respondeu:
— Em que é que tu querias acreditar, se não fosse nisto?
Ela lembrava-se de o ver encostado à amurada, com a camisola colada ao peito, os calções e sandálias, e lembrava-se que tivera pena. Tolinho! Julgava que lhe dera alguma coisa? Estava bem enganado: andara só com ela por ali, por aquele barco, e ela, depois, tinha ido à sua vida.
— Tu vais à tua vida — dissera-lhe Berto —, mas vais ver que te custa...
Era uma pessoa bem-educada mas não deixava de a ameaçar: “vais ver que te custa”. E ela respondera-lhe:
— Talvez.
O medo era uma coisa que vinha e ia e, naquele momento, queria era livrar-se dele, depois, que voltasse o medo. Queria livrar-se dele porque queria muito mais do que ele lhe tinha dado, porque não tinha medo do sofrimento e até talvez o preferisse ao que ele lhe dera. O que dera? Remorsos, porque continuava a pensar em Andrea. Não lhe dera mais nada.
— Talvez, é natural que me custe. Deixa estar, não te preocupes.
Ele não respondera, apertara-lhe a mão e ficara a olhar para o rio, e ela pensara que Berto era uma pessoa honesta e a compreendia. Ou o que queria era não ter responsabilidades? De facto, ele disse:
— Tens razão.
Assim deambulou, longe de Andrea e a fingir que o esquecia e recuperava a liberdade. Mas essa liberdade a Andrea a devia: todos os momentos se revelavam cheios dele e se andava por ali era por sua causa, queria esquecê-lo e cada gesto dependia dessa vontade. Os outros serviam-lhe para tentar esquecê-lo mas era sempre ele quem estava presente. Muitas das coisas que fez só as fez por lhe parecer que talvez assim a deixasse ir-se embora ou se fosse ele embora; só as fez por provocação: para ver como seria, quando soubesse.
Era uma esperança que a confundia: desejar que ele soubesse dos excessos e a repudiasse, a deixasse fugir. Era uma esperança que a confundia porque era como desejar escandalizar uma pessoa de quem se gosta, para nos libertarmos dela. Ou tentava pô-lo à prova, verificar até onde é que ia o seu amor, até que ponto seria capaz de a compreender? Era porque gostava dele que esticava a corda, a ver se a corda se partia, se era ou não uma coisa importante? Queria, também, saber se era capaz de esticar a corda, se desejava, realmente, que ela se partisse, e, ainda, saber o que sentiria depois? Ela sabia o que ia sentindo: insatisfação, impaciência, vergonha. E nem sequer eram os gestos mais ousados ou excessivos, bastavam gestos descosidos e fáceis que lhe pareciam ridículos quando pensava em Andrea. Considerava-os pobres momentos de fuga coxa. E, talvez por isso, porque a revoltava a dependência que descobria — a dependência de Andrea —, continuava, na esperança de que, da ferida — porque acabava por ferir-se com tudo aquilo —, saísse alguma coisa; na esperança de, de tanto ferir-se, arrancar do coração Andrea. Queria-se livre mas, porque a liberdade já lhe não lhe pertencia, lembrava então Andrea: ele talvez fosse capaz de compreendê-la, de compreender os excessos e as palhaçadas, voltava a a esperar nele de outra maneira. Depois de se haver agredido a ver se o afastava de si, voltava a procurar a companhia que recusara. Eram contradições que não dominava — e que não procurava dominar: aceitava-as, tinha medo de viver sem elas. Era um baloiço: ia do mal que tentava fazer-lhe para o bem que lhe pedia — e, no bem que lhe pedia, à espera de, assim, curar as feridas. Uma vez, dissera-lhe uma frase de uma carta que lhe haviam enviado: “A distância é que nos faz compreender quanto amamos...” Dissera-o porque estava a pensar naquilo tudo, nas próprias oscilações e nas saudades que às vezes tinha dele.
A próxima vez seria ela à espera de que acontecesse qualquer coisa, de que Andrea lhe telefonasse. Já lhe tinham dito que a procurava nos sítios onde ia mas não se encontravam e não podia telefonar-lhe, não queria que pensasse que gostava dele, nem queria pensar nisso, que gostava dele, que precisava dele. Mas pensava e tinha saudades. Tivera sempre saudades, enquanto tinham andado separados e consolara-se a dizer-se que um dia — no dia em que quisesse — o voltaria a ver. No dia em que o destino lho devolvesse...
— Acreditas no destino? — perguntara-lhe Berto Fontana, junto à amurada do barco em que subiam o Brenta.
— Em que é que tu querias que eu acreditasse, se não acreditasse no destino? Acreditava nesta viagem, neste suor?
E virara-se para ele, com o corpo queimado pelo sol e a raiz dos cabelos a gotejar.
— Achas que era nisto que deveria acreditar?
Berto Fontana, fingiu que não percebera que não percebera que ela reclamava e que de quanto acontecera entre eles tirara apenas desgosto, respondeu:
— Em que é que tu querias acreditar, se não fosse nisto?
Ela lembrava-se de o ver encostado à amurada, com a camisola colada ao peito, os calções e sandálias, e lembrava-se que tivera pena. Tolinho! Julgava que lhe dera alguma coisa? Estava bem enganado: andara só com ela por ali, por aquele barco, e ela, depois, tinha ido à sua vida.
— Tu vais à tua vida — dissera-lhe Berto —, mas vais ver que te custa...
Era uma pessoa bem-educada mas não deixava de a ameaçar: “vais ver que te custa”. E ela respondera-lhe:
— Talvez.
O medo era uma coisa que vinha e ia e, naquele momento, queria era livrar-se dele, depois, que voltasse o medo. Queria livrar-se dele porque queria muito mais do que ele lhe tinha dado, porque não tinha medo do sofrimento e até talvez o preferisse ao que ele lhe dera. O que dera? Remorsos, porque continuava a pensar em Andrea. Não lhe dera mais nada.
— Talvez, é natural que me custe. Deixa estar, não te preocupes.
Ele não respondera, apertara-lhe a mão e ficara a olhar para o rio, e ela pensara que Berto era uma pessoa honesta e a compreendia. Ou o que queria era não ter responsabilidades? De facto, ele disse:
— Tens razão.
Assim deambulou, longe de Andrea e a fingir que o esquecia e recuperava a liberdade. Mas essa liberdade a Andrea a devia: todos os momentos se revelavam cheios dele e se andava por ali era por sua causa, queria esquecê-lo e cada gesto dependia dessa vontade. Os outros serviam-lhe para tentar esquecê-lo mas era sempre ele quem estava presente. Muitas das coisas que fez só as fez por lhe parecer que talvez assim a deixasse ir-se embora ou se fosse ele embora; só as fez por provocação: para ver como seria, quando soubesse.
Era uma esperança que a confundia: desejar que ele soubesse dos excessos e a repudiasse, a deixasse fugir. Era uma esperança que a confundia porque era como desejar escandalizar uma pessoa de quem se gosta, para nos libertarmos dela. Ou tentava pô-lo à prova, verificar até onde é que ia o seu amor, até que ponto seria capaz de a compreender? Era porque gostava dele que esticava a corda, a ver se a corda se partia, se era ou não uma coisa importante? Queria, também, saber se era capaz de esticar a corda, se desejava, realmente, que ela se partisse, e, ainda, saber o que sentiria depois? Ela sabia o que ia sentindo: insatisfação, impaciência, vergonha. E nem sequer eram os gestos mais ousados ou excessivos, bastavam gestos descosidos e fáceis que lhe pareciam ridículos quando pensava em Andrea. Considerava-os pobres momentos de fuga coxa. E, talvez por isso, porque a revoltava a dependência que descobria — a dependência de Andrea —, continuava, na esperança de que, da ferida — porque acabava por ferir-se com tudo aquilo —, saísse alguma coisa; na esperança de, de tanto ferir-se, arrancar do coração Andrea. Queria-se livre mas, porque a liberdade já lhe não lhe pertencia, lembrava então Andrea: ele talvez fosse capaz de compreendê-la, de compreender os excessos e as palhaçadas, voltava a a esperar nele de outra maneira. Depois de se haver agredido a ver se o afastava de si, voltava a procurar a companhia que recusara. Eram contradições que não dominava — e que não procurava dominar: aceitava-as, tinha medo de viver sem elas. Era um baloiço: ia do mal que tentava fazer-lhe para o bem que lhe pedia — e, no bem que lhe pedia, à espera de, assim, curar as feridas. Uma vez, dissera-lhe uma frase de uma carta que lhe haviam enviado: “A distância é que nos faz compreender quanto amamos...” Dissera-o porque estava a pensar naquilo tudo, nas próprias oscilações e nas saudades que às vezes tinha dele.
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