...'a cidade suspensa', óleo de Vieira da SilvaTodas as vezes que a procurara, não lhe fugira e estivera ao pé dele. Mas há muito que Caterina percebera: ele era da outra. Lia no seu olhar distante, a pedir-lhe desculpa. De quê? Não tinha que lhe dar mais nada, só aquele amor provisório. Amor? Um modo de amar, que achava certo, apesar de a ferir às vezes. Não seria muito? Viam-se e sabiam que um dia teria de acabar.
Andrea perguntara-lhe:
— Gostas de mim?
Ela respondera:
— Claro que gosto, senão, não estava aqui! Não acreditas?
Ele rira e dissera:
— Acredito.
Acreditavam e entregavam-se, despidos. Faziam-no e sentiam-se bem, queriam corrigir o destino e que a felicidade perdurasse. Caterina receava que um dia acabasse, que um dia não houvesse dia seguinte. E falava-lhe de Lorenza, a empurrá-lo para a outra. Mas, uma vez tudo acabado, gostaria que ficasse saudade e não sofrimento ou a vergonha de se terem confiado, vivido sem defesas aqueles instantes que os empolgavam.
-A Lorenza tem muita sorte! Subiu o Brenta num barco, com amigos, tiraram fotografias. Vão publicar um livro. Divertiram-se.
Andrea. fingia que não ouvia. O que ela queria -julgava- era picá-lo, obrigá-lo a reparar nela. E, realmente, reparava. Amava o corpo generoso que o envolvia, precisava dele. Possuía-a sofregamente, com desvairo, a convencer-se de que naquela mulher encontraria paz. E encontrava.
— Deixa lá a Lorenza! Agora, estamos aqui os dois. Não chega?
Ela sorria, incrédula, e ele insitia:
-Deixa lá a Lorenza! Amo-te! Sempre te amei, desde pequenina... Não te lembras das rosas que te ofereci?
Nunca lhe oferecera rosas. Lembrava-se dele, na quinta, ficara-lhe a imagem do rapaz sisudo, agarrado aos livros, que a ignorava.
— Está bem, vamos falar de nós...
Podiam falar um do outro. Não queria que pensasse que se aproveitava dele. Nunca se aproveitara de ninguém. Outros tinham-lhe dado muitas coisas, chegado e partido, sem dramas. Habituara-se a que fosse assim. A segurança aparente de Andrea não a enganava mas, durante algum tempo, aceitara-a e agora, sem ilusões, divertiam-na e enterneciam-na o ar sério e a fragilidade que descobria nele. Não era mais fraco do que ela mas ficava parado com facilidade. Caterina nunca parava. Filha de pequenos agricultores, vira a mãe, as mãos estragadas em cima da mesa da cozinha, a olhá-la e a pedir desculpa de estar ali. Recordava-se de quando voltava da escola e a mãe a sentava ao colo e o pai lhe passava a mão pelos cabelos e perguntavam:
-“Correu bem?...
...à espera que ela respondesse:
— “Correu bem!
...contentes por verem que ela gostava de voltar a casa:
— ... “Não somos ricos. Quem não estuda...
Sentia a obrigação de não os desiludir. E não desiludia porque acabava por ir buscar a força àquilo mesmo: a casa de seus pais, o terreiro onde a chuva amaciava a terra, a harmonia, corpo livre.
A mãe assustava-se:
— Vens toda suada, vê lá se estás quieta! Ainda adoeces!
Gostava de viver e não se poupava e na reprovação da mãe percebia que a preferia assim: selvagem. Que, depois, tivesse medo e insegurança, a mãe não se afligia por isso, confiava nela. Ou era o que pensava: a mãe acreditava que continuaria a andar para diante, com o medo e a insegurança: “Ninguém pára aquela menina, tem o diabo no corpo ...”. Sim, mesmo agora.
— Queres ou não queres?! — perguntava a Andrea.
E, porque ele queria, chegava-o a eIa. Eram momentos extraordinários: sentia-se muito feliz e, quando o ajudava a sair dela e começava a respirar, via-lhe o corpo descoberto, um corpo que se lhe oferecera. E claudicava outra vez: queria guardá-lo para si. E, porque sabia que era impossível, sacudia-o:
— Eu não te chego, pensavas era na Lorenza!
Andrea calava-se, ela tinha razão: pensava em Lorenza, e agradecia a Caterina o prazer que lhe dera.
Andrea perguntara-lhe:
— Gostas de mim?
Ela respondera:
— Claro que gosto, senão, não estava aqui! Não acreditas?
Ele rira e dissera:
— Acredito.
Acreditavam e entregavam-se, despidos. Faziam-no e sentiam-se bem, queriam corrigir o destino e que a felicidade perdurasse. Caterina receava que um dia acabasse, que um dia não houvesse dia seguinte. E falava-lhe de Lorenza, a empurrá-lo para a outra. Mas, uma vez tudo acabado, gostaria que ficasse saudade e não sofrimento ou a vergonha de se terem confiado, vivido sem defesas aqueles instantes que os empolgavam.
-A Lorenza tem muita sorte! Subiu o Brenta num barco, com amigos, tiraram fotografias. Vão publicar um livro. Divertiram-se.
Andrea. fingia que não ouvia. O que ela queria -julgava- era picá-lo, obrigá-lo a reparar nela. E, realmente, reparava. Amava o corpo generoso que o envolvia, precisava dele. Possuía-a sofregamente, com desvairo, a convencer-se de que naquela mulher encontraria paz. E encontrava.
— Deixa lá a Lorenza! Agora, estamos aqui os dois. Não chega?
Ela sorria, incrédula, e ele insitia:
-Deixa lá a Lorenza! Amo-te! Sempre te amei, desde pequenina... Não te lembras das rosas que te ofereci?
Nunca lhe oferecera rosas. Lembrava-se dele, na quinta, ficara-lhe a imagem do rapaz sisudo, agarrado aos livros, que a ignorava.
— Está bem, vamos falar de nós...
Podiam falar um do outro. Não queria que pensasse que se aproveitava dele. Nunca se aproveitara de ninguém. Outros tinham-lhe dado muitas coisas, chegado e partido, sem dramas. Habituara-se a que fosse assim. A segurança aparente de Andrea não a enganava mas, durante algum tempo, aceitara-a e agora, sem ilusões, divertiam-na e enterneciam-na o ar sério e a fragilidade que descobria nele. Não era mais fraco do que ela mas ficava parado com facilidade. Caterina nunca parava. Filha de pequenos agricultores, vira a mãe, as mãos estragadas em cima da mesa da cozinha, a olhá-la e a pedir desculpa de estar ali. Recordava-se de quando voltava da escola e a mãe a sentava ao colo e o pai lhe passava a mão pelos cabelos e perguntavam:
-“Correu bem?...
...à espera que ela respondesse:
— “Correu bem!
...contentes por verem que ela gostava de voltar a casa:
— ... “Não somos ricos. Quem não estuda...
Sentia a obrigação de não os desiludir. E não desiludia porque acabava por ir buscar a força àquilo mesmo: a casa de seus pais, o terreiro onde a chuva amaciava a terra, a harmonia, corpo livre.
A mãe assustava-se:
— Vens toda suada, vê lá se estás quieta! Ainda adoeces!
Gostava de viver e não se poupava e na reprovação da mãe percebia que a preferia assim: selvagem. Que, depois, tivesse medo e insegurança, a mãe não se afligia por isso, confiava nela. Ou era o que pensava: a mãe acreditava que continuaria a andar para diante, com o medo e a insegurança: “Ninguém pára aquela menina, tem o diabo no corpo ...”. Sim, mesmo agora.
— Queres ou não queres?! — perguntava a Andrea.
E, porque ele queria, chegava-o a eIa. Eram momentos extraordinários: sentia-se muito feliz e, quando o ajudava a sair dela e começava a respirar, via-lhe o corpo descoberto, um corpo que se lhe oferecera. E claudicava outra vez: queria guardá-lo para si. E, porque sabia que era impossível, sacudia-o:
— Eu não te chego, pensavas era na Lorenza!
Andrea calava-se, ela tinha razão: pensava em Lorenza, e agradecia a Caterina o prazer que lhe dera.
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