sábado, 16 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte, VI

...Assunção da Virgem, Santa Maria dei Frari, Veneza, óleo de Tiziano...




Andrea nunca lhe falava de Lorenza. Quem era Lorenza? Ele não lhe dizia.
— Nos tempos do liceu –lembrava Caterina-, era uma rapariga que se excitava facilmente, exagerava os gestos, ria sem motivo, procurava escandalizar os professores e os colegas. Não era muito segura. Mas compreendia tudo, era mais inteligente do que as outras. Andou na minha turma. Era muito sensível. Uma vez, agarrou-se a chorar a uma colega nossa, tinha-lhe morrido o pai, e acompanhou-a durante muitos meses. Parecia que a outra era a amiga preferida. Depois deixou-a. Seria verdadeira aquela encenação? O que impressionava nela era a agressividade, a raiva com que olhava, às vezes. Ou era despeito? Não sei, mas isso não tem importância.
Andrea não reagia. E Caterina descrevia-a: a compreender e a fugir, perto dos colegas, e a escapar-se-lhes. Fingia-se desorientada ou infeliz. Punha um ar triste e, inesperadamente, reservado.
— Era uma pobre de Cristo! –exclamou Andrea, finalmente.
— Talvez.

Ela não a lembrava de outra maneira: a fazer fitas e a ver se os outros davam por ela. E Caterina perguntava-se o que era verdade naquela mulher. E, agora, que acontecera o que acontecera, ainda mais a revoltava o modo de se mostrar e se esconder. Não tinha, porém, nenhuma certeza. Era Lorenza desonesta, anormal, uma farsante? Ou compreendia os outros e punha-se a fingir que não, punha-se a milhas, com o teatro dela?

Lembrava-a metida em vestidos mal escolhidos, com os olhos a desafiarem as pessoas, que não lhe tinham feito mal nenhum, pelos cafés onde se encontravam para se divertirem. E chegara a pensar em ajudá-la, mas ela era de outro mundo. Às vezes, o mundo dela atraía-a mas, depois, assustava-a: era muito frio. As coisas de que gostava eram mais simples. Gostava de Andrea, de andar com ele, de o ter, de o agarrar, de o ver feliz com ela. A outra agitava-se de mais, andava à volta dele, sem se atrever a tocar-lhe e isso Caterina não lhe perdoava. Se o queria, que se explicasse: não tinha o direito de andar à volta dele só para se lhe mostrar.

Uma vez, Andrea desabafara:
— A Lorenza é diferente! Temos de ter paciência!

“Diferente?”, pensara Caterina, “Diferentes somos todos! Qual a diferença dela?”
— Também eu sou diferente, ainda não deste por isso?
— Sim, és diferente.

Também a ela acontecia desejar isolar-se; no entanto, com os outros é que se sentia bem. Quando voltava de Veneza, nas férias, o pai, com o bigode farto e o peito dentro da camisa de saragoça, perguntava:
— Então, bichinho-de-conta, o que vais contar?
E ela enrolava-se, a sorrir.
E a mãe:
— Estás contente? Como te correram os estudos?
E ela, sentada no sofá, sorria e batia com um pé no outro, satisfeita por estar ali.
— Correram bem. Tive boas notas...

Os pais respeitavam-na e só lhe pediam satisfações quando voltava. Era livre e a liberdade pesava-lhe. Os pais pediam pouco. O pior era o resto. E o amor deles ajudava-a a aguentar o resto –a mesma dificuldade que achava que Lorenza tinha. E, por isso, apesar de tudo, apreciava-a: ela via-se aflita, que era como ela se via.
— Não se preocupem! — dizia aos pais.

Era capaz de dar às asas e de se esquecer deles. Às vezes, tinha pena. Estavam à espera e o que queria era passar por ali. Gostava muito de os ver, gostava da casa, mas não era capaz de lhes ser fiel — ou julgava que não lhes era fiel —, largava-os e ia. Não tinha grandes ilusões acerca do que lhe poderiam dar, era uma mulher prática e objectiva. Mas o que lhe davam ajudava-a muito. Ajudava-a a vencer dúvidas, hesitações, receios. Também ela tinha receios, inquietações, angústias, o medo, por exemplo, de não gostar bastante dos outros. A facilidade com que prescindia deles surpreendia-a, assustava-a. Mas não, conseguia parar. Saía de casa, telefonava aos amigos. Afogava-a a tristeza e abria as janelas, para a mandar embora. Não podia evitar a vida que a empurrava. E alarmava-se: àquela velocidade, onde iria? Não era volúvel mas passava por cima das coisas e reaparecia fresquinha e bem-disposta.

Alberto, Memmo dissera-lhe:
— Ninguém te tira o rosadinho!
E Caterina pensara em Lorenza, cinzenta e aflita. Não era melhor do que Lorenza, o Memmo enganava-se. A cor que tinha escondia as dificuldades. Abria-se, a rir, mas, quando, estava no quarto de S. Margherita, tinha de puxar por si para corresponder às pernas, aos pés, que queriam andar. Acontecia-lhe, também a ela, querer parar. Depois, num acto de vontade, libertava-se. E, então, compreendia Lorenza. Mas, se a estimava, logo exclamava: “Aquela incapaz!”. E tinha pena de pensar que ela era uma incapaz e acabaria por se deixar morrer no seu teatro. Talvez não a estimasse bastante. Os remorsos que sentia ligavam-se à incerteza: ouvia os outros? Usava-os? E, se repetia e dizia “aquela. fiteira! aquela incapaz!”, ficava-lhe a dúvida.

Uma vez, aconteceu irem ter ao Campo dei Frari. Andrea apontou a igreja:
— Queres entrar? É muito bonita.
Via-o cheio de vontade mas com medo de que ela não gostasse. Eram os momentos em que a irritava, assim, inde­ciso, inseguro, e ela não conse­guia perceber por quê e não gostava dele assim.
-Está bem.
E, a sossegá-lo, acrescentou:
—Já sabes que gosto.
Lá dentro, passaram-lhe pela cabeça coisas que nunca imaginara pensar. Viu, atrás do altar-mor, o imenso quadro de Tiziano, a Assunção. E ficou especada, a olhar para ele. Pensou: “Esta mulher é diferente da Lorenza. Mas se a Lorenza andasse assim? Se naquela desgraçada, naquela pobre de Cristo, que chega e foge, que tem tanto medo e não resiste a chegar-se ao fogo, se houvesse nela, a busca do absoluto e andasse a arder no vazio que a separa de Deus, entre a fé e a tristeza de reconhecer que tudo é de menos?”

Andrea perguntou-lhe:
— Gostas, do quadro?
-Muito. Mas não é isso. É aquela figura...
— É a Virgem que sobe aos céus.— comentou, irónico, Andrea.

A Virgem, com os querubins à volta e os apóstolos em baixo, abria os braços e Deus, em cima, olhava para ela, à espera.

— Eu sei que é a Virgem que sobe aos céus. Mas parece que não sobe a nenhum céu. Está ali, pendurada, entre cá e lá.
— Não te preocupes, não cai, os querubins empurram-na.
— Não a empurram, agarram-na. E ela quer libertar-se de tudo, chegar ainda mais alto. Para onde é que olha? Não é para Deus, que está lá em cima a olhar para ela. Não a vês tão sozinha? Não tem nada a ver com os querubins nem com os homens cá em baixo, e ainda não é Deus. Quer desprender-se das coisas deste mundo e está tão cheia de carne. Já reparaste como o corpo é doce e a boca e os olhos são como os de toda a gente? Quanto são bonitas as mãos e o ventre e a expressão é de quem quer entregar-se? E não consegue: continua agarrada à terra. Se chegar ao céu, há de ser tal qual: de carne.

Depois, acrescentou, para si própria:
-Não pode viver sem o resto, que deseja...
-Quem?
-Ora! Esta Nossa Senhora! Não era capaz de viver aqui, neste mundo...
Andrea puxou-a pelo braço.
— É só aqui que se vive.
—A Lorenza... — murmurou Caterina.
— Não penses nisso!

Agradecia-lhe que se preocupasse com ela, que era o mesmo que preocupar-se com ele, andavam, sempre, juntos, mas não queria que se preocupasse demasiado, que levasse longe de mais a tentativa de os compreender, e se afastasse. O drama deles era deles. Não era preciso que ela participasse. Preferia-a em carne e osso, ali, ou na casa de Treviso. O que lhe pedia era outra coisa: a consistência do corpo e a generosidade. Tudo começara em Ravena, quando ela viera ter com ele, e não queria que lhe caíssem em cima outra vez o passado, as histórias com Lorenza, nem sequer Luisa e tudo o que ele sabia que ela sabia dele. Era tão agradável abraçá-la! Vê-la a girar pela casa de Treviso! Por que haviam de demorar-se no que já fora?
— É só aqui que se vive?
— Com certeza! — respondeu Andrea.
E Caterina, a esconder o sorriso porque o via inquieto e sabia porquê — também ela achava que Lorenza devia ter ido embora —, contente porque Andrea não queria a outra ali, disse:
-Talvez.
-E virou-se para ele.
— Dá cá a mão! É contigo que se vive. Quando se gosta de uma pessoa, vive-se com a pessoa de quem se gosta. E eu gosto de ti. Mas por que me trouxeste?
Andrea esbracejou, à procura de uma resposta.
— Trouxe-te..., porque gosto. Porque é muito bonito! Vamos, há mais quadros!

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