quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XIV b

...óleo de Umberto Boccioni, 1882-1916




Era para ver se ouvia o outro falar que se encostava Michele? Porque não era só Michele que se encostava, Lorenza apoiava-se no corpo dele. E, se não fosse Andrea, confessar-lhe-ia:

— Não me apetece nada ir para o Lido! Vamos ouvir música no teu quarto?

Não queria voltar ao Lido. E valeria a pena não subir? Não ouvir a música? Não estar sossegada com ele, a olhar-lhe para o corpo, porque talvez lhe desejasse o corpo quando se encostava a ela, e ainda bem que alguém gostava do seu corpo, o desejava. Era porque amava Andrea que não o fazia? Se ela soubesse! Se ela soubesse que era porque amava Andrea que não iria ao quarto de S. Pantalon! Se ela soubesse que, de Michele, queria só a companhia! Que não, estava à espera que ele insistisse para irem ouvir música! Quantas vezes não andara assim aos tombos! Quem lhe dera saber! Quem lhe dera não andar aos tombos!

Às vezes, pensava que o amava Andrea, que amava, nele, o que se parecia com ela: a dificuldade e também a exigência e a covardia, o modo que tinham os dois de fugirem quando os apertavam. A covardia, a incapacidade. Não conseguiam entender os outros? Exigência? Os outros não os valiam? Era por isso que fugiam deles? Ou era porque eram como eram, duas pessoas sem força, e perdiam a oportunidade de se ampararem? Ou exigiam tanto, queriam tanto, que não havia nada que lhes chegasse, nem sequer a atracção que sentiam um pelo outro — porque lhes parecia uma condescendência, porque não tinham a certeza de que o amor que sentiam um pelo outro fosse suficiente e devessem repousar nele.

O que acontecia era os outros irem embora, como ela fora: cansavam-se. Tinham sorte, podiam ir-se embora! Ela não. Ficava agarrada àquilo mesmo que não quisesse: às dúvidas e aos amigos. A Andrea, a Michele, sem saber como conduzir-se e com medo de se perder: de desbaratar o que trazia ao colo, dentro de si, no coração.

O que poderiam oferecer-lhe? Paz? Talvez, se subisse com Michele e o deixasse admirá-la, pôr-lhe os olhos em cima, mudar os discos a ver se era aquela a música de que ela gostava e, já que alguém gostava dela, gostasse do seu corpo, das pernas que não governava, do peito, dos lábios amolecidos -Lorenza tinha uns lábios que, às vezes, na carnação forte, pareciam desleixados, como se, desencantada de tudo, tivesse começado a desprezar o próprio corpo- talvez se sentisse melhor. Mas era um bem impossível sem Andrea.

E não valeria mais o bem que Michele lhe desse? Andrea convidava-a, almoçava com ela e, depois, ia-se embora. Era Andrea quem se ia embora e não conseguia agarrá-lo. Mas que fosse! Só lhe faria bem não o ver, não o ouvir, livrar-se da confusão que se juntava à dela: as histórias de Andrea: Luisa, Roberto, Caterina, as hesitações.

Ele não se desembrulhava: andava enrolado nessas coisas e às vezes vinha ter com ela para, depois, se voltar a esconder. Era tempo perdido. Mas precisava dele... E não era de Andrea que tinha medo, era de si, de se deixar ir atrás e, depois, nunca mais se governar, de preferir aquela confusão ao seu pìccolo mondo, em que também se fechava. Não queria partir a cabeça, mas não estava quieta: andava entre cá e lá, entre o pìccolo mondo e o mundo de Andrea. Não estava quieta, sobretudo den­tro de si, porque se lembrava dele e da relação que os ligava e não queria traí-lo, deixá-lo, só porque lhe criava problemas, porque era mais difícil ter de pensar nele, entendê-lo, compreender as razões que a puxavam para ele. Que razões seriam? A verdade era que, se alguma coisa não houvesse em Andrea que lhe dissesse respeito, não se sentiria atraída por ele. E eram essas razões que não queria ver, que a envergonhavam. Não queria perder o equilíbrio — pobre equilíbrio! —, voar como um pássaro que não sabe para onde é que voa e se arrisca a partir as asas. E, depois, pensava que mais valia parti-las do que não ter nada. Isso que andava de um lado para o outro dentro de si: quando fugia, reencontrava o vazio, o piccolo mondo de que estava farta e onde tolerava dificuldades e os que já conhecia há muitos anos e a oprimiam, vivia com eles, sem coragem para se libertar.

Ia por ali, com o corpo, as pernas altas, os cabelos compridos, os olhos azuis e as mãos penduradas, sozinha. Ia ao lado de Michele, para S. Pantalon, ele iria convidá-la para subir, dir-lhe-ia que não podia, que tinha pressa e se calhar ele até ficaria aliviado.

Quando chegaram, Michele perguntou-lhe:
— Não queres, subir?
— Não, vale a pena...
— Fica para outra vez?...

Beijou-o na face e pensou que Andrea nunca acreditaria que lhe respondera:
—Agora, não.

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