domingo, 24 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XI

...'mar=dança', óleo de Gino Severini, 1883-1966



“Só me interessas tu”, dissera-lhe Andrea e ela sabia que a outra continuava a interessar-lhe. Que se lembrasse de Lorenza parecia-lhe natural. Nunca esperara outra coisa. Às vezes punha-se a pensar se quisera só corrigir o amor que unia Andrea e Lorenza, ensiná-los a não fazerem asneiras. Ela via-o, muitas vezes, parado, com a outra à espera. Gostaria de lhe perguntar: “Por que é que não lhe dizes o que queres? Queres ou não queres viver com ela?” Nunca o fizera, ele responder-lhe-ia:
— “Quero, mas ela foge. Achas que a culpa é minha? Eu dela só sei que aparece quando lhe apetece...

E seria inútil insistir. Andrea contentava-se e aceitava. Revoltava-se, indignava-se, mas aceitava. Sabia muito pouco de Lorenza: mudara de curso, frequentava o Paolin, contava-lhe Francesco, não andava bem, dizia-lhe Paola Zanier. Sabia o que lhe iam dizendo: que, fora para a montanha; que aparecia em S. Stae a ouvir concertos; que a viam muitas vezes, com um grupo, pela lagoa, num gasolina. Escapava-lhe, através de uma existência que prescindia dele, através da provável alegria de ir aos cafés, de ouvir música, de andar com outros e, provavelmente, esquecia-o. Era bem pouco o que lhe diziam os amigos: não lhe contavam coisas extraordinárias e talvez fossem essas que ele gostasse de ouvir. Nunca ninguém lhe dissera que a vira agarrada a outro, que andava pelas discotecas à procura de compa­nhia ou que tinha um amante. E ele não a podia acusar mas não lhe perdoava que vivesse sem ele. Ia pelo seu caminho e não lhe perdoava que tivesse um caminho, onde ele não era preciso. Continuava a fugir-lhe.

Quando Caterina perguntava “Tens visto, a Lorenza?”, mesmo que não quisesse, a pergunta inquietava-o. Juntava-se às de outros: se tinha visto Lorenza, se sabia que ela ia ouvir con­certos e que andava preocupada, se sabia que andava com um grupo...

Não, não a via há muito tempo... E sentia-se culpado: não teria sido ele a deixá-la fazer aquilo? Que fora procurar ao Paolin? Por que é que nunca lhe falara dos concertos em S. Stae e andara a girar pela lagoa, sem ele? À procura de quê? Doíam-lhe as saudades dele ou a própria dificuldade? Andava longe porque ele se afastara ou por­que não tinha remédio? Seria, sempre, assim, inca­paz de ter rei ou roque?

Se tivesse ficado ao pé dela, seria diferente? Naquela inquietação, inse­gurança, imaginava-a aflita, a desperdiçar tempo e energias, a dar do que não devia, no amor por ela, não podia pensar que desse a outros o que só a ele lhe era devido. Andrea amava-a, absolutamente.

E, na crescente preocupação, ia afastando-se de Caterina. Sabia, é certo, pouco da outra mas preferia essa vertigem.

Um dia, Roberto disse-lhe:
— Quando é que voltamos, a Verona com a Caterina?
E Andrea pensou que gostava era de ir a Verona com Lorenza.
-Havemos de voltar...

E ficou a imaginar-se com Lorenza, pelas ruas de Verona, ela a dizer-lhe o que pensava e ele a dizer-lhe o que pensava, e sem mais ninguém. Os dois outra vez sozinhos, bruscos, desconfiados ou inesperadamente delicados. A responsabilidade era deles.

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