...'mar=dança', óleo de Gino Severini, 1883-1966“Só me interessas tu”, dissera-lhe Andrea e ela sabia que a outra continuava a interessar-lhe. Que se lembrasse de Lorenza parecia-lhe natural. Nunca esperara outra coisa. Às vezes punha-se a pensar se quisera só corrigir o amor que unia Andrea e Lorenza, ensiná-los a não fazerem asneiras. Ela via-o, muitas vezes, parado, com a outra à espera. Gostaria de lhe perguntar: “Por que é que não lhe dizes o que queres? Queres ou não queres viver com ela?” Nunca o fizera, ele responder-lhe-ia:
— “Quero, mas ela foge. Achas que a culpa é minha? Eu dela só sei que aparece quando lhe apetece...
E seria inútil insistir. Andrea contentava-se e aceitava. Revoltava-se, indignava-se, mas aceitava. Sabia muito pouco de Lorenza: mudara de curso, frequentava o Paolin, contava-lhe Francesco, não andava bem, dizia-lhe Paola Zanier. Sabia o que lhe iam dizendo: que, fora para a montanha; que aparecia em S. Stae a ouvir concertos; que a viam muitas vezes, com um grupo, pela lagoa, num gasolina. Escapava-lhe, através de uma existência que prescindia dele, através da provável alegria de ir aos cafés, de ouvir música, de andar com outros e, provavelmente, esquecia-o. Era bem pouco o que lhe diziam os amigos: não lhe contavam coisas extraordinárias e talvez fossem essas que ele gostasse de ouvir. Nunca ninguém lhe dissera que a vira agarrada a outro, que andava pelas discotecas à procura de companhia ou que tinha um amante. E ele não a podia acusar mas não lhe perdoava que vivesse sem ele. Ia pelo seu caminho e não lhe perdoava que tivesse um caminho, onde ele não era preciso. Continuava a fugir-lhe.
Quando Caterina perguntava “Tens visto, a Lorenza?”, mesmo que não quisesse, a pergunta inquietava-o. Juntava-se às de outros: se tinha visto Lorenza, se sabia que ela ia ouvir concertos e que andava preocupada, se sabia que andava com um grupo...
Não, não a via há muito tempo... E sentia-se culpado: não teria sido ele a deixá-la fazer aquilo? Que fora procurar ao Paolin? Por que é que nunca lhe falara dos concertos em S. Stae e andara a girar pela lagoa, sem ele? À procura de quê? Doíam-lhe as saudades dele ou a própria dificuldade? Andava longe porque ele se afastara ou porque não tinha remédio? Seria, sempre, assim, incapaz de ter rei ou roque?
Se tivesse ficado ao pé dela, seria diferente? Naquela inquietação, insegurança, imaginava-a aflita, a desperdiçar tempo e energias, a dar do que não devia, no amor por ela, não podia pensar que desse a outros o que só a ele lhe era devido. Andrea amava-a, absolutamente.
E, na crescente preocupação, ia afastando-se de Caterina. Sabia, é certo, pouco da outra mas preferia essa vertigem.
Um dia, Roberto disse-lhe:
— Quando é que voltamos, a Verona com a Caterina?
E Andrea pensou que gostava era de ir a Verona com Lorenza.
-Havemos de voltar...
E ficou a imaginar-se com Lorenza, pelas ruas de Verona, ela a dizer-lhe o que pensava e ele a dizer-lhe o que pensava, e sem mais ninguém. Os dois outra vez sozinhos, bruscos, desconfiados ou inesperadamente delicados. A responsabilidade era deles.
— “Quero, mas ela foge. Achas que a culpa é minha? Eu dela só sei que aparece quando lhe apetece...
E seria inútil insistir. Andrea contentava-se e aceitava. Revoltava-se, indignava-se, mas aceitava. Sabia muito pouco de Lorenza: mudara de curso, frequentava o Paolin, contava-lhe Francesco, não andava bem, dizia-lhe Paola Zanier. Sabia o que lhe iam dizendo: que, fora para a montanha; que aparecia em S. Stae a ouvir concertos; que a viam muitas vezes, com um grupo, pela lagoa, num gasolina. Escapava-lhe, através de uma existência que prescindia dele, através da provável alegria de ir aos cafés, de ouvir música, de andar com outros e, provavelmente, esquecia-o. Era bem pouco o que lhe diziam os amigos: não lhe contavam coisas extraordinárias e talvez fossem essas que ele gostasse de ouvir. Nunca ninguém lhe dissera que a vira agarrada a outro, que andava pelas discotecas à procura de companhia ou que tinha um amante. E ele não a podia acusar mas não lhe perdoava que vivesse sem ele. Ia pelo seu caminho e não lhe perdoava que tivesse um caminho, onde ele não era preciso. Continuava a fugir-lhe.
Quando Caterina perguntava “Tens visto, a Lorenza?”, mesmo que não quisesse, a pergunta inquietava-o. Juntava-se às de outros: se tinha visto Lorenza, se sabia que ela ia ouvir concertos e que andava preocupada, se sabia que andava com um grupo...
Não, não a via há muito tempo... E sentia-se culpado: não teria sido ele a deixá-la fazer aquilo? Que fora procurar ao Paolin? Por que é que nunca lhe falara dos concertos em S. Stae e andara a girar pela lagoa, sem ele? À procura de quê? Doíam-lhe as saudades dele ou a própria dificuldade? Andava longe porque ele se afastara ou porque não tinha remédio? Seria, sempre, assim, incapaz de ter rei ou roque?
Se tivesse ficado ao pé dela, seria diferente? Naquela inquietação, insegurança, imaginava-a aflita, a desperdiçar tempo e energias, a dar do que não devia, no amor por ela, não podia pensar que desse a outros o que só a ele lhe era devido. Andrea amava-a, absolutamente.
E, na crescente preocupação, ia afastando-se de Caterina. Sabia, é certo, pouco da outra mas preferia essa vertigem.
Um dia, Roberto disse-lhe:
— Quando é que voltamos, a Verona com a Caterina?
E Andrea pensou que gostava era de ir a Verona com Lorenza.
-Havemos de voltar...
E ficou a imaginar-se com Lorenza, pelas ruas de Verona, ela a dizer-lhe o que pensava e ele a dizer-lhe o que pensava, e sem mais ninguém. Os dois outra vez sozinhos, bruscos, desconfiados ou inesperadamente delicados. A responsabilidade era deles.
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