quarta-feira, 1 de abril de 2009

Uma mulher da sua idade



1


Liliana ria, com as pernas apoiadas na cadeira da frente, exuberante, os olhos azuis cor de mar a brilharem. Sentia-o preso. Tinham-se encontrado há um ano, em casa de amigos. Não se conheciam, apesar das cartas que lhe escrevera e a que não respondera. E ali estava, como prometido. Nunca acreditara e a fidelidade à palavra lisonjeava-a. Viera só por ela?
-Liliana...
Absorto na beleza do corpo, esqueceu a pergunta. Ela pousou na mesa o copo de chá frio e espreitou-o através do cabelo loiro fino, que lhe tapava a cara.
-Sim?...
Ele atirou, ao acaso:
-Os exames?...
Na esplanada do “Florian”, a orquestra tocava as músicas de sempre. Os turistas enchiam Veneza e os habitantes abandonavam a cidade, a fugir ao calor de Julho. Também ela iria de férias.
-Quinta-feira saem os resultados. E os teus processos?
-Dão trabalho...
Advogava em Lisboa. Ganhava dinheiro e gastava-o. Era um homem sem compromissos, habituado a viver como queria. Tinham-lhe apresentado Liliana, numa festa, em Bolonha.
-...de Veneza, estuda literatura e escreve poesia...
-Ah!
Era ainda quase uma adolescente, provinciana, deslocada, pouco à vontade no vestido de seda e nos sapatos de salto alto.
A meio da noite, Olga Ravà, a dona da casa, irónica, provocou-o:
-Não conversas com a pequena? Não te agradam as intelectuais?...
Reparou em Liliana, que lhe sorriu, a pedir apoio. Foi ter com ela e sentou-se ao seu lado. Ela sorriu-lhe.
-Não é italiano, pois não?...
E transformou-se, ganhou confiança, levantou a voz. Ouvia-a e observava-a. A frescura e a juventude dela enchiam o vazio da festa. Tinha a simplicidade, que faltava aos outros.
-Tu escreves poemas?...
Liliana hesitou e deixou de sorrir:
-Não me leva a sério?
-Não te levo a sério?!
-Acha-me muito nova?
Ele riu-se.
-Por que é que não me tratas por tu?
-Está bem...
E lançou-se num discurso agressivo, por vezes, excessivo, deslocado. Frederico não a interrompeu, divertido Ela soltava-se, procurava atrair a sua atenção, exibia-se, com avidez reprimida.
Do outro lado da sala, Olga gritou:
-Então?...
E piscou-lhe o olho. Frederico agarrou-lhe no braço e levou-a até o terraço, a protegê-la. Liliana nem dera por Olga e continuava a falar.
Quando se separaram, já de madrugada, Frederico disse-lhe:
-Um dia, vou ter contigo a Veneza. Gosto muito da tua cidade...
-Da minha cidade ou de mim?...
-Das duas!
-Porquê?
-Porque são as duas muito bonitas. Encontramo-nos daqui a um ano.
Tocou-lhe, ao de leve, nos cabelos embaraçados pelo vento, a despedir-se.




2




As luzes acenderam-se, no café e na praça de São Marcos. Viu os últimos raios de sol inflamarem os mosaicos da Basílica, os quatro cavalos de bronze e os ombros nus de Liliana.
-“Se ela soubesse o que tem! O que vale a sua juventude!... Só pensamos nisso depois...”
Instintivamente olhou o relógio, lembrou-se de Emily, que o esperava no hotel. Não lhe apetecia perder o entardecer nem deixar Liliana.
-Ficamos mais um bocadinho?
-Tens de ir? -perguntou Liliana, como se adivinhasse.
-Não, pelo contrário...
-Eu não tenho pressa nenhuma. Até quinta descanso!...
E a agarrá-lo:
-É bom falar contigo!
-E os teus amigos?...
Ela fez um gesto vago.
-Os meus amigos! Não falam de nada...
-Eh!, que exagero!
Sentia-se feliz naquele momento e porque sabia que nunca se repetiria e não tinha a certeza de voltar a ver Liliana, não quis ir embora. Ela fora o pretexto para ele voltar a Veneza? Talvez. Não lhe interessava mais do que outras. Mas, agora, estavam bem juntos. Esqueceu o compromisso e, quando chegou ao hotel, já era tarde.


3



No átrio vazio, o porteiro, atrás do balcão, recebeu-o de olhos baixos. Frederico pediu-lhe que ligasse para o quarto de Emily.
-A senhora não atende chamadas.
-Não atende chamadas?! Diga-lhe que sou eu!
O outro debruçou-se:
-Ela está muito triste...
E, perante o desalento de Frederico, aconselhou:
-Telefone à amiga, talvez a convença...
A amiga também não atendeu.
Sentiu remorsos e revolta: como se atrevia? Não andara com ela ao colo, a mostrar-lhe Veneza? Toda a manhã a suportar-lhe a angústia e dava-lhe com a porta na cara!...
O porteiro abriu os braços:
-Não veio por causa da senhora, pois não?...
Por causa dela?
-Oh!... Não!



4




Conhecera Emily essa manhã, na salinha do hotel. Viu-a sentada, a folhear uma revista. Cumprimentou-a. Uma mulher da sua idade. O vestido estampado e o corpete justo, a saia pregueada, aberta em sino, que lhe desenhava as pernas, sublinhavam as formas maduras, cheias. Usava uma fita de veludo vermelho a segurar-lhe o cabelo preto ondulado, um colar colorido e sapatos rasos de bailarina. No entanto, a expressão confiada, os modos simples não condiziam com a roupa. Percebeu, nela, cansaço e expectativa ansiosa. Tomaram o pequeno almoço à mesma mesa. Juntou-se-lhes a amiga de Emily, uma ruiva alta, trança espessa sobre as costas. Tinha um olhar frio e seco.
-Rosalind...
Duas americanas de New Jersey, pela primeira vez em Itália. Trocaram as banalidades do costume. Frederico falou de Veneza e ofereceu-se para as acompanhar. Emily aceitou.
-Mas não dá muita maçada?...
-Nenhuma...
-Veneza é uma cidade muito, muito sensual...- comentou Rosalind, enquanto barrava as torradas.
Emily baixou os olhos.
-Que ideia! O mais importante não é isso! -protestou Frederico.
Ela continuou, imperturbável:
-Não é a terra do Casanova?
-Leu as memórias?
-Vi um filme.
-Qual?
-Não me lembra, mas mostrava tudo.
-Tudo, o quê?
-Os costumes muito especiais, as poucas vergonhas.
Achou-a uma idiota. Quem o mandava aturá-las? Apeteceu-lhe levantar-se e ir embora. Olhou em volta. Os móveis pesados, os reposteiros de damasco, a conversa descosida fizeram-no ter saudades das praças soalheiras e do movimento das ruas. O hotel, a Pensione Accademia, na antiga embaixada da Rússia czarista, encostada ao Rio delle Meraviglie, guardava um estilo de outros tempos, que, não fora o jardim, sufocava. Além disso, as duas solteironas de New Jersey estragavam-lhe a manhã. Emily apercebeu-se e interrompeu:
-Vou arranjar-me. Se quiser esperar um bocadinho...
Acabaram por sair sozinhos, Rosalind escusou-se. Emily explicou:
-Ela está mal disposta.
E passou adiante. Olhava Veneza com alegria desprevenida e, no entusiasmo, arrastava-o. Ele reparou que não precisava, de facto, do vestido berrante, nem do colar de missanga. A maneira como se confiava e a doçura bastavam para o atrair. Passou-lhe a mão pelos ombros e chegou-a a si. Ela encostou-se a ele e deixou-se levar. Andaram por ruas sem gente, acompanharam canais desertos, demoraram-se em praças humildes.
-Vou mostrar-lhe a Veneza que os turistas nunca viram... –dissera-lhe.
Emily agradecera. Esquecera a tristeza.
-Tão bonito! –repetia- Tão bonito!
A meio de uma rua deserta, soltou-se e ensaiou um passo de dança, os braços erguidos em arco, os dedos enlaçados, que seria ridícula se fosse outra mulher. Tapou a cara, a rir envergonhada e Frederico aplaudiu.
Quando chegaram ao terraço do campanário de São Marcos e se debruçaram, a admirar a laguna, perguntou-lhe:
-Não tem ninguém?
-Já tive...
-Há muito tempo?
-Não. Há pouco...
E apontou a ilha de S. Giorgio Maggiore.
-Como se chama aquela ilha?
Pareceu-lhe, outra vez, inquieta, que havia, nela, uma ferida em que não queria mexer.
-Veneza... Quem me dera viver aqui. Longe! Começar, outra vez... Veneza é tão bonita! -disse, antes de Frederico responder.
E acrescentou, crispada:
-A vida tem coisas boas e más. Muito más... Não é fácil. Obrigada. Obrigada por me trazer aqui.
-Não gosta da América?
-Nem quero pensar que vou voltar.
E corrigiu:
-Não se assuste! Não é grave!
Os olhos escuros estavam marejados de lágrimas. Sorria-lhe, desprotegida, frágil. Abraçou-a. O seu corpo abandonou-se. Beijou-a na a boca, mas ela resistiu. Ele tentou prendê-la e ela empurrou-o. Ficaram a fitarem-se e de mãos presas. Ela limpou a boca e encostou-se ao parapeito. No regresso, não falaram no que acontecera. Antes de entrarem no hotel, Frederico agarrou-lhe no braço:
-Quer jantar comigo?
-Jantar? –respondeu, a fugir com os olhos.
E aceitou, outra vez virada para ele.
-Por que não?
-Sim, por que não? Vamos a um restaurante tranquilo, na Giudecca. Tem uma bela vista sobre a cidade.
Emily disse que sim, com a cabeça.
-A que horas?
-Venho buscá-la às oito.


5



Esquecera-se, ela recusava-se a falar-lhe e o porteiro estendia-lhe a chave.
-Guarde a chave! Até logo!
Dias mais tarde, quando já desistira de a procurar, encontrou Emily e Rosalind, de malas, no cais da Accademia.
-Emily!-exclamou, aprensivo..
Ela não respondeu.
-Telefonou-me um amigo e atrasei-me... Era um assunto importante. Desculpe!
Emily fitou-o, irónica e amarga:
-Muito importante? Não pense nisso! Já passou.
-Vai-se embora? Não fique ofendida. Desculpe...
E, sem convicção, deu um passo, insistiu:
-Emily! Escreva-me! Não se esqueça!
Ela pareceu hesitar.
-“Desistiu?...”
Mas entrou no barco, que iniciava a curta viagem até Piazzale Roma.
-Deixe-a! Você ofendeu-a! –gritou Rosalind, especada no convés- Deixe-a!
O gasolina afastou-se e pareceu-lhe que Emily se virara e lhe fizera adeus, mas a imagem perdeu-se no bulício do Grande Canal e, com ele, o rosto transparente de Emily, marcado e ainda preso à juventude que fugia.
-Que história!
Acendeu um cigarro e aspirou o fumo. Lembrou-se de que não lhe pedira a morada, nem o número do telefone. Esteve um instante a olhar. Depois, encolheu os ombros e virou as costas.

in Um Inverno em Marraquexe












1 comentário:

  1. Que bom, que apesar de ainda não o ter começado a ler, tenho o livro :)

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