sexta-feira, 17 de abril de 2009

Outro esquecido: Raúl Brandão



Escrevi estas notas, em Moscovo, há uns anos. Sempre me intrigaram o fio que sinto que nos liga aos russos, a nossa natural atracção pelos seus escritores, a simpatia quase (ou mesmo?) fraterna com que aceitamos as personagens das suas histórias. O que nos aproxima e une? Tão longe, uns dos outros... Lembro Camilo, Raúl Brandão (tão diferentes e próximos), quando me interrogo acerca do estranho parentesco. Talvez por isso me viesse à pena Brandão e me impacientasse o nosso modo irresponsável e um bocadinho imbecil de esquecer e querer construir a partir do nada –sobre areias movediças.

Em Moscovo [seria em 2oo5?], vejo a Cultura ferver, afirmar-se -sabemos que tudo aqui mudou, em 15 anos. As pessoas, ciosas de liberdade reconquistada, experimentam o “novo” a guardarem na memória e a revisitarem os grandes Mestres, Com amor e maravilhosa humildade. A paixão por Pushkine, o respeito por Gogol, Dostoievski, Tchekhov (sempre cartaz de teatro) não impede o gosto de ousar. E vice-versa. Não é isso que acontece em Portugal. Não há respeito nenhum. E o mais grave é que não se anda para diante. Até Almeida!, diz-se nas Beiras. Mas ficam pelo caminho: ajeitam-se, procuram a venda (comercializam) e o que é deles perdeu-se. É indiferente: vale só o dinheiro...

Reabri a maravilha: Os Pobres, de Raul Brandão. Li como leio Dostoievski: à maneira da Bíblia. Demorei a virar a página. Romancista? Novelista? Poeta? Que interessa? Confia a tua a sensibilidade e andarás, graças ao autor, sem nenhuma certeza e deslumbrado. Tive vontade de afagar as páginas –agradecer. Dera-me inquietação, levara-me a reconsiderar a vida.

Lembro Raul Brandão, perplexo: que é isto? Como é possível ignorarmos os melhores autores da nossa Literatura? A culpa de quem é? Já referi o canibalismo cultural; a inexistência de crítica responsável (a crítica morreu com Gaspar Simões?); a veloz superficialidade do mundo em que vivemos, que se entrega ao mercado das coisas vazias e trituradoras. E nós? Por que motivo facilmente desistimos e deitamos às ortigas a nobre luta de querer ser homem a tempo inteiro?

1 comentário:

  1. oh é tudo tão verdadeiro o que você diz. neste momento estou a ler "húmus" e para lhe dizer a verdade, é das melhores coisas que já li em toda a minha vida.

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