Claro que o estilo de Stendhal e o estilo de Irene Lisboa são completamente diferentes. Quando os aproximei, a propósito do osso: da essencialidade, da linguagem literária que rejeita efeitos fáceis -já lhes chamei farfalhudos-, retorcidos, afinal confusos, juntei-os porque o autor de Le Rouge et le Noir e a narradora de Esta Cidade (onde está uma das novelas de análise psicológica das mais profundas da nossa Literatura: a obra-prima O Amante) comungam de uma mesma preocupação: atingir, directamente, o nó do problema. Eram primos, em tempos afastados (Stendhal escreveu nos meados do Séc. XIX, Irene Lisboa, no segundo quartel do Séc. XX). Ora os primos, ainda que próximos, podem escolher estradas diversas mas tenderem a usar ferramentas aparentadas. Stendhal deixou romances e novelas; Irene Lisboa, crónicas que fixaram a vida –ambos com uma claridade magistral. Procuraram a própria originalidade, dentro de si –e, para isso, recorreram à estrada real, que sempre mais depressa e mais seguramente leva o caminheiro ao lugar de chegada. Eles sabiam que a originalidade está na singularidade do olhar de cada um –não está no malabarismo que se limita a esconder a aridez do imo do jongleur, do pelotiqueiro (o que não quer dizer que não haja jongleurs extraordinários, como Fernando Pessoa). Um exemplo que confrange: banir vírgulas, pontos finais, parágrafos, trocar sujeito e verbo e baralhar complementos... Deslumbra, apenas, os parolos –ou os inseguros de si, os maria-que-vai-com-as-outras e não ousam dizer: ‘olha a vigarice!, o homem vai nuzinho... e é feio!’ Agora, acrescenta-se-lhe a pornografia, assassinando o erotismo. Também resulta e não surpreende, neste deserto onde a interioridade secou e resta, apenas, a masturbação solitária ou acompanhada.
sábado, 11 de abril de 2009
O dia de hoje...
Claro que o estilo de Stendhal e o estilo de Irene Lisboa são completamente diferentes. Quando os aproximei, a propósito do osso: da essencialidade, da linguagem literária que rejeita efeitos fáceis -já lhes chamei farfalhudos-, retorcidos, afinal confusos, juntei-os porque o autor de Le Rouge et le Noir e a narradora de Esta Cidade (onde está uma das novelas de análise psicológica das mais profundas da nossa Literatura: a obra-prima O Amante) comungam de uma mesma preocupação: atingir, directamente, o nó do problema. Eram primos, em tempos afastados (Stendhal escreveu nos meados do Séc. XIX, Irene Lisboa, no segundo quartel do Séc. XX). Ora os primos, ainda que próximos, podem escolher estradas diversas mas tenderem a usar ferramentas aparentadas. Stendhal deixou romances e novelas; Irene Lisboa, crónicas que fixaram a vida –ambos com uma claridade magistral. Procuraram a própria originalidade, dentro de si –e, para isso, recorreram à estrada real, que sempre mais depressa e mais seguramente leva o caminheiro ao lugar de chegada. Eles sabiam que a originalidade está na singularidade do olhar de cada um –não está no malabarismo que se limita a esconder a aridez do imo do jongleur, do pelotiqueiro (o que não quer dizer que não haja jongleurs extraordinários, como Fernando Pessoa). Um exemplo que confrange: banir vírgulas, pontos finais, parágrafos, trocar sujeito e verbo e baralhar complementos... Deslumbra, apenas, os parolos –ou os inseguros de si, os maria-que-vai-com-as-outras e não ousam dizer: ‘olha a vigarice!, o homem vai nuzinho... e é feio!’ Agora, acrescenta-se-lhe a pornografia, assassinando o erotismo. Também resulta e não surpreende, neste deserto onde a interioridade secou e resta, apenas, a masturbação solitária ou acompanhada.
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