terça-feira, 21 de abril de 2009

Dialogar e abafar

este texto foi escrito há uns anos, mas, infelizmente, parece-me poder interessar quem, hoje, o leia...

Dialogar e abafar são coisas muito diferentes. E, num artigo de “El País”, assinado por Hermann Tertsch, encontrei as razões de retomar o problema da imigração, na semana passada aqui abordado a propósito da menina marroquina a quem tinham proibido o uso do lenço árabe. Nada tem de fácil, antes pelo contrário, é assunto muito delicado; ora veja-se: deve-se permitir e encorajar o estabelecimento de grupos culturalmente diferentes, a enquistarem-se na diferença, em países que os recebem? Essa atitude não ameaçará a estabilidade do Estado? Não se constituirão tais grupos em espécie de “tribos” fechadas, incomunicáveis -intolerantes e agressivas e entrincheiradas na diversidade? E, vindas de sociedades politicamente desequilibradas, não se agravará o seu imobilismo e a permanência de injustiças e desigualdades, dogmatismos, uma vez que muitos chegam de países sem democracia? Eu não afirmo: pergunto, levanto a dúvida. O leitor pensará de outra maneira. Ainda bem -como diria Mestre António Sérgio-: se todos gostassem do amarelo instalar-se-ia o pensamento único.

Cabe, assim, ao Estado que recebe impor -“imperializar”- a sua cultura? Princípios, regras, costumes? Deverá ele proibir todas as exteriorizações da diferença? Deverá obstar à afirmação do Outro -do imigrante, que, afinal, aceitou por carência de mão de obra, por conveniência? E, depois de o atrair, recusar-lhe a individualidade, a singularidade? O imigrante não é uma simples peça de máquina, objecto desalmado, frio, e não o será nunca porque nenhum homem o é. Recusar ao imigrante a identidade -a diferença- significa, no fim e ao cabo, empurrá-lo para outro gueto, armazém de ferramentas -em que se quis transformar o Indivíduo-, de utensílios industriais ou agrícolas. Obviamente, o leitor também não aceita essa solução.

Hermann Tertsch distingue entre multietnicismo e multiculturalismo. Se eu entendi, o primeiro representa a convivência de mais do que um grupo diferentemente caracterizado; o segundo, a existência, na incompatibilidade, em dado espaço, desses grupos. E lá nos encontraríamos, no segundo caso, diante de “tribos”, fechadas sobre elas próprias, surdas e mudas no que diga respeito ao exterior, doentes de heterofobia: mais uma vez, de incapacidade de aceitar o Outro. Tersch acaba por nos deixar uma pista: a do diálogo. Porque a multietnicidade implica e exige respeito mútuo e diálogo, suprimir o racismo. Sim: dialogar -eis o motivo da evolução criadora das civilizações, que assentam na trocas e simbiose cultural, não em holocaustos.

Sem comentários:

Enviar um comentário