sábado, 11 de abril de 2009

Escritores marroquinos e a verdade e a mentira


Poderia chamar a este apontamento Literatura Antiliterária -título a ilustrar quanto diz Lahcen Mouzoumi, em Le roman marocain de langue française (Publisud), a propósito dos autores tangerinos: “Os escritores de Tânger nunca pensaram que um dia seriam escritores. Aquilo que os preocupava era contarem a vida de um homem”. Cita os nomes de Mohamed Choukri, D. B. Cherardi e Mohamed Mrabet. Ao primeiro (do qual li, emocionado, a narrativa Le Pain Nu, François Maspero), a observação ajusta-se inteiramente: é a obra de um “marginal”, especialmente empenhado em testemunhar da sua experiência. Diga-se de passagem que os três escritores se viram aflitos quando tentaram publicar os livros na língua original, uma vez que os editores marroquinos recearam a irreverência e denúncia de aspectos da realidade, patentes nas suas obras (nos anos oitenta, fanáticos ameaçaram mesmo queimar as narrativas de Choukri). Traduzidos e publicados no estrangeiro, lêem-se e discutem-se, hoje, em árabe. Viram-se ainda acusados de egocentristas. Lahcen Mouzoumi comenta: “a melhor maneira de falar dos outros é falar de si próprio”. Houve quem os acusasse de mentirosos...

A ideia que me fica é que não tinham tempo a perder -cada instante lhes fora essencial e urgia-lhes comunicar esse arrebatamento. Creio que viveram a vida arrebatadamente -apaixonadamente, fascinados por todos os aspectos, sempre contraditórios mas complementares. Não por acaso Choukri conheceu Jean Genet e conviveu com ele. Berbere e rifenho, Choukri instalou-se em Tânger e frequentava o esquisito café Ritz, onde escurecia, obstinada e necessariamente, papéis, revia as provas da sua experiência, continuada no fio da navalha. Mentiroso? Claro que vou deixar em paz o estafado verso de Fernando Pessoa. Sabe-me a ridículo a questão e, para a afastar, não recorrerei a Proust e à sua ideia de que a verdade de um autor se afirma na obra. Serve, é certo; e se acrescentarmos: é verdadeira toda a obra que sentirmos verdadeira? Quero dizer: é autêntica a obra que nos empolgar e tomar conta de nós. Aceitam?

Assim sucede, em muitas páginas de Le Pain Nu. Chocam-nos? São difíceis de ler? Com certeza -a realidade, crua e nua, não é pera fácil, dói. Provavelmente, como doeu aos que no-la expõem, e sem rodeios. Caíu-lhes em cima e eles tranformaram-na em Poesia -a Poesia é pura e impura-, graças à linguagem, singular porque pessoal, única. Choukri, um Homem-Escritor. A propósito de escritores, o grande Edmond Amran El Maleh, não hesita: “É um homem que escreve; escritor não significa mais nada”.


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