No que por aí se escreve e publica -em livros, revistas jornais- pululam os cabotinos. Não é de agora. O cabotino -o mau comediante, o engraçadinho, o literato que agarra, no voo, o lugar-comum e o usa, olho a brilhar e esperançado de atingir o alvo: fazer-se notável-, não nasceu hoje. Nem ontem. Vem dos séculos. Cândido de Figueiredo considerava a palavra um neologismo (o velho Moraes ignorava-a) e atribuía-lhe origem francesa. E o Larousse, de França, define o bicho: “pessoa que representa uma comédia para se destacar”. Ele -o cabotino-, ciclicamente, invade as feiras da vaidade –e acentua aquilo que realmente elas são: circos imundos de presunção. Quem os vê de fora acha-os patuscos. Mas, infelizmente, aleijam. Dominam a paisagem, desviam ou envenenam os bem intencionados. O bem intencionado é aquele que, como Lucien das Illusions Perdues, quer afirmar a sua poesia e se apresenta de alma aberta, sincero, verdadeiro. À primeira esquina encontrará o vendedor da banha da cobra; à segunda, o patriarca das mentiras; à terceira, a porta do clube onde se juntam os sábios, todos eles sábios (“só sábios éramos dez”). E, para vestir o uniforme de sábio, tem que decorar as tábuas da lei da vigarice: as regras do socorro mútuo dos cabotinos que comandam. Ou aceita, ou dão cabo dele. O Lucien, de Balzac, aprendeu e sofreu à própria custa. Maxime du Camp fartou-se de aconselhar o amigo Gustave Flaubert ( o de Madame Bovary e de Educação Sentimental), mais ou menos assim: “Vem daí! Deixa o teu retiro de Croisset e instala-te em Paris! É aqui que se conquista tudo! Mulheres e fama! É indispensável conviver! Almoços e jantares com os sábios, idas ao teatro, artigos oportunos, as gazetas! Se continuas na tua cabana de Croisset, estás feito!” Flaubert preferiu ficar feito –e deixar a obra superior, que deixou. José Régio -outro que viveu longe da multidão enlouquecedora (assim lhe chamava Thomas Hardy)- admirava e estimava muito o exilado de Croiset. Penso que a independência de Flaubert o impressionara –e o encorajara. No entanto, não há dúvida que o teatro da vida precisa de bobos, de cabotinos, de mentirosos. Eles são o contraponto da verdade, que talvez precise desse contraste para brilhar e guiar quem a busca. Por aqui, neste país que fez uma revolução e não soube usar a liberdade e, em vez de Cultura, distribuiu novas oportunidades de nova escravatura e deixou proliferar os corruptos –esse mundo cabotino transformou-se num cancro capaz de abafar aspirações e prostituir as boas intenções (delas está o inferno cheio, dizem).
terça-feira, 7 de abril de 2009
O dia de hoje...
No que por aí se escreve e publica -em livros, revistas jornais- pululam os cabotinos. Não é de agora. O cabotino -o mau comediante, o engraçadinho, o literato que agarra, no voo, o lugar-comum e o usa, olho a brilhar e esperançado de atingir o alvo: fazer-se notável-, não nasceu hoje. Nem ontem. Vem dos séculos. Cândido de Figueiredo considerava a palavra um neologismo (o velho Moraes ignorava-a) e atribuía-lhe origem francesa. E o Larousse, de França, define o bicho: “pessoa que representa uma comédia para se destacar”. Ele -o cabotino-, ciclicamente, invade as feiras da vaidade –e acentua aquilo que realmente elas são: circos imundos de presunção. Quem os vê de fora acha-os patuscos. Mas, infelizmente, aleijam. Dominam a paisagem, desviam ou envenenam os bem intencionados. O bem intencionado é aquele que, como Lucien das Illusions Perdues, quer afirmar a sua poesia e se apresenta de alma aberta, sincero, verdadeiro. À primeira esquina encontrará o vendedor da banha da cobra; à segunda, o patriarca das mentiras; à terceira, a porta do clube onde se juntam os sábios, todos eles sábios (“só sábios éramos dez”). E, para vestir o uniforme de sábio, tem que decorar as tábuas da lei da vigarice: as regras do socorro mútuo dos cabotinos que comandam. Ou aceita, ou dão cabo dele. O Lucien, de Balzac, aprendeu e sofreu à própria custa. Maxime du Camp fartou-se de aconselhar o amigo Gustave Flaubert ( o de Madame Bovary e de Educação Sentimental), mais ou menos assim: “Vem daí! Deixa o teu retiro de Croisset e instala-te em Paris! É aqui que se conquista tudo! Mulheres e fama! É indispensável conviver! Almoços e jantares com os sábios, idas ao teatro, artigos oportunos, as gazetas! Se continuas na tua cabana de Croisset, estás feito!” Flaubert preferiu ficar feito –e deixar a obra superior, que deixou. José Régio -outro que viveu longe da multidão enlouquecedora (assim lhe chamava Thomas Hardy)- admirava e estimava muito o exilado de Croiset. Penso que a independência de Flaubert o impressionara –e o encorajara. No entanto, não há dúvida que o teatro da vida precisa de bobos, de cabotinos, de mentirosos. Eles são o contraponto da verdade, que talvez precise desse contraste para brilhar e guiar quem a busca. Por aqui, neste país que fez uma revolução e não soube usar a liberdade e, em vez de Cultura, distribuiu novas oportunidades de nova escravatura e deixou proliferar os corruptos –esse mundo cabotino transformou-se num cancro capaz de abafar aspirações e prostituir as boas intenções (delas está o inferno cheio, dizem).
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