Ninguém terá feito mais pela divulgação da obra-prima de Thomas Mann, “Morte em Veneza”, do que o realizador italiano Luchino Visconti, apresentando outra obra-prima, inspirada na novela e com o mesmo título. Quando, hoje, procuram Veneza e a sua praia, ou o Lido, ou o “Grand Hotel des Bains”, aqueles que sabem -e são bastantes- mais depressa lhes ocorre o nome do italiano do que o de Mann (ou o de Mann por acréscimo). Quase se poderia dizer que “Morte em Veneza” mudou de dono. E, no entanto, é, de facto, uma das melhores criações do autor de “A Montanha Mágica”. Mas os admiradores do alemão e do italiano, que vibram, nas páginas da novela e nas cenas do filme, eventualmente, nas ruas de Veneza, com Gustav Von Aschenbach e o jovem Tadzio, hão de interrogar-se sobre a veracidade da história. Pois bem, ela aconteceu. Atenho-me às memórias da mulher do escritor, Katia Mann, “Souvenirs à bâtons rompus” (Albin Michel, 1975). No fim e ao cabo, a literatura limita-se a reproduzir, para lhe surpreender, os segredos, a vida. E, a grande literatura abre-nos janelas que nem sonhávamos, revela-nos pequenas-profundas coisas que desconhecíamos. Vamos aos factos.
Em 1911, Thomas Mann e Katia chegam de barco a Veneza. E, tal qual no livro, à vista da cidade, um dos passageiros, agita-se, pintado e mascarado como um palhaço. Em terra, contratam uma gôndola, que os leva ao Lido. À chegada, alguém os informa de que se tratava de um gondoleiro clandestino, “muita sorte tinham tido em não lhes acontecer nada”. E, no salão do “Grand Hotel”, depara-se-lhes “uma família polaca”, conta Katia Mann, “que correspondia, exactamente, à descrição que meu marido fez dela: meninas muito sérias e um rapaz de cerca de treze anos, encantador, lindo como o sol, sempre vestido à marinheira, com uma bonita blusa azul de gola branca aberta. A sua figura impressionou muito o meu marido. Logo nesse instante, se sentiu atraído pelo adolescente, que o encantou. E nunca mais deixou de o observar a ele e aos camaradas de jogos, na praia. Não o seguiu por Veneza, isso não, mas o rapaz fascinara-o e pensava constantemente nele”. Depois, Thomas Mann e Katia deixariam, episodicamente, Veneza. No regresso, reencontrariam os polacos. Uma epidemia de cólera obrigaria à partida definitiva e à separação. Anos mais tarde, a filha de Mann, Erika, recebeu uma carta de um aristocrata polaco a dizer-lhe que lera a tradução de “Morte em Veneza” e se reconhecera na figura de Tadzio.
O resto será ou não verdadeiro. Mann tencionava debruçar-se sobre Goethe e o seu último amor, em Marienbad, que, em 1939, lhe serviria para o romance “Lotte em Weimar”. Em vez disso, aproveitou, imediatamente, a experiência veneziana (a novela saiu em 1912). Uma história de amor e de beleza impossível porque a beleza se admira mas não se conquista. A decadência de Aschenbach e a juventude triunfante de Tadzio simbolizam o artista exausto de tentar fixar o absoluto e a cruel indiferença e impudicícia deste. Ou porque Aschenbach não ousa, ou porque o adolescente lhe foge, Tadzio limita-se a conduzir o artista ao desastre e à morte. Enquanto contempla Tadzio, despedindo-se, antes do fim, Gustav Von Aschenbach poderia deixar-lhe a mensagem que, em “Lotte em Weimar”, Mann registou: “Se me queres a luz contra a qual se precipita a borboleta, sê-lo-ei, mas, também, na recíproca mutação das coisas, serei a vela acesa, que sacrifica o próprio corpo para que a luz brilhe, a borboleta inebriada que se consume na chama”.
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