quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Aranha

-Onde é que fica o Haiti? -perguntou-lhe a amiga.
-Na América Central. Estava a falar-te do Haiti por causa dele.
-Do pobrezinho?
-Não era um pobrezinho, era um homem acossado.
-Disseste-me que não tinha onde cair morto...
-Não tinha. Caía na rua ou no café. É um homem inesquecível!
-Por causa da miséria?
-Sim, talvez.
-Era um desgraçado?
-Não, um homem que a vida não deixava em paz.
-A vida?
-A de todos os dias. A nossa, a dele.
-Encontraste-o em Roma?
-Conheci-o em Roma.
-Onde?
-Num bar.
-Ele tinha dinheiro para ir a um bar?
-Tinha direito a sentar-se e a pedir uma cerveja.
-E quem é que pagava?
-Pagavam os outros.
-Com pena dele?
-Com pena dele. Mas, às vezes, tinha dinheiro para pagar...
-Já me falaste dele... Como é que era? Alto? Baixo? Jovem?... Velho?
-Não tinha idade.
-Não é possível!?
-Tinha a idade nos olhos, que eram os de uma criança assustada.
-Era um homem bonito?
-Era um homem bonito.
-Tão pobre, tão desgraçado!... Como é que podia ser bonito! Se calhar, cheirava mal...
-Era puro.
-Puro?
-...uma criança aflita...
-Ou um falhado?
-Falhado? Essas pessoas não falham, vão-se embora...
-De onde?
-De onde nós estamos.
-E onde é que estamos?
-Aqui, a conversar... Se quiseres eu conto, senão não...
-Conta... Onde é que o encontraste?
-Já te disse, em Roma, num bar do Campo dè Fiori, conheces o Campo dè Fiori?
-Conheço, não te lembras que me levaste lá?
-Ele estava encostado ao balcão, a beber um copo de vinho...
-Por que é que falaste com ele?
-Porque ele estava sòzinho.
-E o que é que lhe disseste?
-Boa-noite.
-E ele?
-Respondeu boa-noite.
-E depois?
-Ofereci-lhe outro copo de vinho. E começámos a conversar. Ele estava cheio de medo, nem olhava para mim, ia agradecendo...
-Era branco?
-Não, era um mestiço. Desatou a falar, sem propósito. Falava ao acaso, precisava de falar. Mas a verdade é que só começou quando acreditou que eu ouvia.
-O que é que te contou?
-Que vinha do Haiti, que fugira.
-Há quantos anos foi?
-Há mais de dez...
-Era um trabalhador clandestino?
-Tomara ele! Não, não tinha emprego. Estava sempre alerta, com medo que o levassem.
-Para onde?
-Para a cadeia.
-E o que é que ele te disse mais?
-Que queria sair dali.
-Do bar?
-Sim, queria que fôssemos a outro sítio.
-Ao buraco dele?
-Ao sítio onde vivia.
-Mostrou-to?
-Não, mas devia ser para os lados de Santa Maria Maggiore.
-Queria voltar para casa?
-Não tinha casa, tinha um sítio. Devia ter... Meti-o no carro e fomos. A meio do caminho, enganei-me, fui ao contrário e a polícia parou-nos. Ele saltou para o assento de trás, era um dez-réis de gente, agachou-se, escondeu-se. Os polícias eram simpáticos, deixaram-me continuar, virei na rua a seguir e ele ficou descansado e recordou a sua ilha:


“-Sabes?, deixei lá a minha noiva. Uma vez, estávamos os dois deitados, chegadinhos, ela tinha adormecido..., tão bonita!...”
Espreitou, a ver se o levava a sério e continuou:
“-Tão bonita! Uma crioula... Mestiça como eu! Deitadinha ao meu lado... Não deu por nada. Eu tinha acendido um cigarro e estava a descansar. E apareceu a aranha! Negra! Venenosa! Devagarinho, direita a nós! Se eu me mexesse, ela ainda andava mais depressa! Virei-me e pus as mãos em concha, a fingir que lhe fazia uma festa, se viesse, a ver se ela ia por outro caminho... Falei-lhe baixinho, com medo de a assustar. Quase me tocou. Parou, olhou para mim, a espreitar-me, e foi-se...”


Ela ficou calada.
-Se queres saber mais, fica sabendo que nunca mais falámos...
-De verdade?
-Ainda voltei ao bar do Campo dè Fiori...
-E o preto do Haiti?
-Estava lá, cansado, adormecido, enrolado a um canto...
-Pagaste-lhe uma cerveja?
-Não. Para quê?...
-Tens razão. O que é que podias fazer? Não podemos fazer nada.

in Um Inverno em Marraquexe



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