Há muitos anos, quando andava em bolandas com a minha adolescência e encontrara a menina que, depois, se fez mulher e me acompanha há 5 décadas; no tempo em que tudo nos fala e vem habitar os nossos sonhos; nesses dias longos, que tardam a começar e nunca findam; na idade que nos diz imortais e nos acena com o terror da morte (minha mãe segredava: “tu nunca morres” e eu apertava-lhe a mão e abraçava-a, qu’é do perfume de minha mãe?!) –um dia, surgiu a poesia de Eugénio de Andrade e li-a e reli-a e copiei-a, nas cartas que enviei, à minha amada... Os anos passam, passam, passam. Hoje, abri um livro lindo, com belas e delicadas ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia, que já não consta da bibliografia de Eugénio: Adolescente. Ora aqui vai, tal qual (ou seja: sem correcções ortográficas), um bem de Deus:
Não me dóe pensar na morte,
Porque hei-de morrer no inverno.
Não quero que chorem.
As lágrimas não serão precisas
porque a minha morte
é uma coisa tão natural como a minha vida.
A ti,
que pensas não poder viver quando eu partir,
deixo-te uma certeza: eu voltarei.
Voltarei naturalmente,
como as primeiras folhas verdes
que o sol desencanta da neve.
Não chores.
Eu voltarei mesmo sem as tuas lágrimas.
Basta apenas que haja Primavera.
E esta pérola, roubada a outro poemeto:
Uma noite,
tocando os teus seios adormecidos,
esqueci-me da hora de voltar para casa.
E todos os mistérios do mundo
cabiam nos teus seios pequenos
que as minhas mãos acariciavam
como passaritos acabados de voar...
Esse livro (esquecido?) data de 1942; descobri-o, e devorei-o, em 1957. O malogrado Grangeio Crespo (quem se lembra de Grangeio Crespo?) dedicava todos os seus livros a uma mítica Ela; eu dedico o que acima escrevo e transcrevo a uma Ela real, de carne e osso e alma, companheira única, amor de uma vida.
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