segunda-feira, 20 de abril de 2009

Via dei Portoghesi


A Rua dos Portugueses, Via dei Portoghesi, é uma mini-artéria romana, perpendicular à Via della Scrofa e a acabar na Torre della Scimmia, que tem à sua direita a Via dei Pianellari e, à esquerda, a Via dell’ Orso. O nome da Torre -ali trabalhava e conversava (e talvez trabalhe e, se trabalha, continua a conversar) Maestro Peppino, o melhor barbeiro do mundo-, nome ou alcunha da casa-monumento, liga-se à lenda da criança que ia cair da janela e uma macaca salvou. Facto prodigioso: uma candeia de azeite, arde bem ao alto, a recordá-lo. Ao fundo da Via dell’Orso, está a Osteria dell’Orso, em que Michel de Montaigne se hospedou; na Via dei Pianellari, um dos melhores restaurantes de Roma: Da Piero. Mas a jóia da rua é a belíssima Igreja de Santo António dos Portugueses cujas raízes remontam ao século XV: um prelado português, António Martins de Chaves mandou ali erguer uma pequenina capela, em honra de Santo António de Lisboa. Depois, transformou-se, aumentou, embelezou-se. Integra-se -ou acompanha- aquele que, por volta de 1367, era um abrigo destinado aos peregrinos da nossa terra... e, hoje, se chama Instituto de Santo António dos Portugueses. Administrado pela nossa Embaixada junto da Santa Sé, tem, agora, perfil cultural.

É do Instituto que quero, brevemente, aqui falar. Vivi lá cerca de oito meses, em 1975, quando iniciei as minhas funções de Conselheiro Cultural, na Embaixada de Portugal em Roma. Com a Piazza Navona a dois passos, iniciei, então, a minha viagem espiritual e carnal pelo mundo maravilhoso italiano.

Já instalado na Via Cassia, Orti della Sibila, ao Norte de Roma, nunca perdi o hábito da Via dei Portoghesi, que visitava, praticamente, todos os dias. O Instituo, entretanto, fora albergando personalidades inesquecíveis, como a actriz Estrela Novais; o Doutor Carlos Carvalho, Professor na Universidade de Aveiro e, nesses tempos, jovem leitor de português, na Faculdade do Magistério de Roma, amigo do coração; bolseiros curiosos e alguns divertidos.
Havia um que se encostava à Igreja e, de mãos nos bolsos, peito às balas, se punha a treinar a voz.
Outro, figura chapada de Eça de Queirós, a quem chamavam de Periquito e ao qual aconteciam as desgraças mais absurdas.
O dito Periquito comprou uma máquina para adelgaçar a barriga. Abriu a caixa, leu as intruções, mas, falta de sorte!, constatou que precisaria de uma extensão que fosse buscar a electricidade à tomada do corredor. Comprou-a, também. Ligou a extensão, despiu-se e deitou-se, no quarto, de barriga para o ar e a massajadora aplicada. Ora os colegas acharam provocante... E, na segunda ou terceira sessão, desligaram-lhe o cabo, quando o desditoso, a agitar-se, a suar, finalmente feliz, começava a crer que emagrecia... E fizeram-lhe isso muitas vezes.

Amante das praias de Óstia, preparava de véspera uma merenda e lá ia, todos os domingos, de comboio, embrulho nos joelhos e o lacinho de cordel no dedo, bronzear-se. Ora aconteceu-lhe, nessa altura, dividir o quarto, com um fogoso brasileiro que não suportava os seus (do Periquito) ademanes. Chegou, assim, o domingo em que o infeliz foi ver da merenda e lhe encontrou o sítio. O Periquito perplexo, deu voltas e voltas ao quarto. Nada. O vazio. Angústia. Indecisão. Dúvidas. E procurou o brasileiro, olhou-o, duramente, como quem pede satisfações. Foi a gota de água, que entornou o copo: rapaz desempoeirado, do Nordeste, sem papas na língua, o outro levantou a mão: “Ai!, olha que levas!...” O Periquito fugiu, escadas abaixo, revoltado, indignado e a soluçar, dizem...

Havia, também, a “Nossa Senhora”, uma rapariga de muita fé, que tinha visões e, vai não vai, caía numa espécie de transe ou delíquio... Com essa, a Estrela Novais -a Estrelinha- não ia à bola. Mexia-lhe com os nervos, vê-la tão seráfica, tão solteira...
Onde isso, desgraçadamente, vai... Sic transit gloria mundi...
A Estrelinha era muito de nossa casa, onde passou fins de semana. Conversávamos, víamos filmes, ouvíamos música, comíamos a boa cozinha italiana, bebíamos vinhos dos Castelos e os whiskies ('Ninguém faz amigo em leitaria' dizia o Vinicius de Moraes...), sempre o Johnny Walker, Red Label, claro, que a vida custa... Aconteceu que, numa tarde de Junho de 1982, soou a Edith Piaff e o Milord. A Estrelinha adorava a canção e ouvimo-la várias vezes. Até que resolvi escrever o contarelo Sónia e o Milord, em que cito versos da poesia. Desci ao meu estúdio, que ficava na cave, com bandeiras para o jardim, e escrevi-o de um jacto. Estas linhas servem de introdução ao conto, que transcrevo a seguir. Dêem-me só tempo de o copiar...

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