1. Só cria quem transforma e interroga a estabilidade instalada e, assim, obriga à crise que rasga horizontes e inquieta. Só frutificam as obras cujo movimento é a sua natureza -virtude de fazerem avançar, em si próprios, os que as descobrem e as aproveitam e, por via delas, reconsideram a relação com o mundo. Naturalmente, tudo o que pára apodrece e mumifica-se: sobra a imagem de nada, estátua oferecida à inutilidade. Para uma tal situação, radicalmente estéril e inútil, caminha, a passos largos, a cultura europeia, a nossa cultura portuguesa. Refugiam-se as duas -que tendem a ser a mesma- nos privilégios adquiridos e protegem-nos, vacinadas contra o risco de contaminações as minorias privilegiadas e as maiorias exploradas (não ousem elas revoltar-se!). Devoramo-nos, já chegados ao osso, última presa possível. Como se sabe, o osso é alimento pobre e caduco. Revelam-se, assim, culturas canibalescas, no fim e ao cabo, a ruminarem-se. E qual a relação entre o osso e o espírito? Nenhuma, com certeza...
2. A cultura -os “produtos” culturais- tornaram-se em mero ornamento ou condimento bastante para esconder o vazio -objecto inofensivo. E ai da obra de arte inofensiva! De arte decorativa! Não passa de peça, mais ou menos divertida, boneco na grande feira em que transformamos o mundo. A cultura tranformou-se em negócio -e, pior, em negociata pelintra: oca. Quando se afirma que o orçamento é a chave da política, não se é só simplista (ou simplex) -é-se irresponsável. A finalidade da política não é a armazenagem de “produtos”. Max Aub, grande escritor catalão, que se exilou no México, fugido ao franquismo, lembrava: “os problemas políticos são problemas morais”. Um país, ainda que seja uma “grande superfície”, não é um supermercado. Nós não somos “produtos”. As pessoas não nasceram para se traficarem.
3. ...Nem a Arte, grito do espírito -expressão funda e autêntica- nasceu para ser traficada. Quando damos com ela em saldos, quando a vemos promovida pelos que nada entendem, sentimo-nos traídos e a trair o belo combate da vida, maravilhoso e compensador (mesmo certo da morte eu pediria para viver outra vez). O que acontece é que nos vemos a nós pendurados da vontade e das leis dos mercados, da vontade alheia -demitidos e espoliados da nossa dignidade (será, no fim, o que nos restará, se ainda tivermos tempo para nos olharmos). Perante o desfile de múmias, penso, sinceramente, que mais vale deixarmo-nos de fitas e fechar a porta. Conviver com múmias significa desconhecer o imperativo ético. Tanto nos faz? Então, de que nos queixamos? Aos outros, também, tanto lhes faz: não querem mais do que uma cultura mumificada.
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