sexta-feira, 10 de abril de 2009

Angústia à portuguesa


Desde sempre me surpreendeu a nossa independência, apesar de não existirem fronteiras naturais a separarem-nos dos vizinhos espanhóis, A razão só poderia ser -e é- uma: a diferença cultural. Somos outros. Aquilino considerava a Beira-Alta prolongamento da meseta castelhana. Mas ele pertencia a outro mundo, tal qual o transmontano Camilo; o “Purinho”, António Nobre, que poetava em Paris, saudoso de Coimbra e do mar da Póvoa do Varzim; o Eça de Queirós que, debruçado da janela do Rossio, em Lisboa, cocando os passantes, monóculo em riste, se interrogava: “Será esta gente obra de curioso?” Miguel de Unamuno dizia-nos “loucos e suicidas”.

Penso que nos distinguem paixão e febre –o arder interior que nos queima e consome. E aí está o suicídio (auto-destruição), a saída. A loucura e a lucidez trágica. Anthero Monteiro publicou, há tempos, um excelente trabalho: “O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira” (Roma Editores). De facto, tudo isso está no suicida de Espinho. Não é pouco: é tudo. A biografia (o retrato) é uma batata e acontece dentro, espelha-se na obra, por escassa que seja. O acto final -o tiro na cabeça- representa a coerência, resultado do processo constante do extraordinário “Diário”. A curta vida de Laranjeira não foi banal: não andou a colher rosas que o ferissem nem isso o deleitou. Foi exemplar. No quê? Na impossibilidade de sobreviver em sociedade absurda, por corrupta e sem Espírito. De sobreviver à Escola Médica do Porto, ao Casino de Espinho, aos lares burgueses portugueses onde se buscava a “aurea mediocritas”. Laranjeira não se matou com medo da tísica: já não aguentava o viver dos resignados que o rodeavam e impediam a viagem para alto. Anthero Monteiro sublinha, inteligentemente: “fundo e premeditado desejo de afirmação de quem não perpassou leve e displicentemente pela vida”.

Não há renúncia: há protesto. E não será a surda denúncia da traição quotidiana, o sonho -reivindicação- do Paraíso Perdido que nos distingue? O insuportável que levou ao suicídio Camilo e Sá-Carneiro e a alcoolizar-se Pessoa? Não será a ânsia de absoluto a angústia que nos rói?

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