segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sónia e o Milord


Dizia-lhe sempre: Milord, e não aceitava gorjeta. Depois de três vezes, nunca mais lhe disse: Mi fai un regalino? Ele vinha por ali e viu-a esplêndida, com os cabelos de oiro. Estava à esquina e sorria. “Vem... Queres divertir-te?” Era frágil, na saia apertada, nos olhos azuis, nos sapatos altos. “Já aqui passaste tantas vezes”, continuou ela, “nunca me viste?” Ele já a tinha visto e, por isso, estava ali. Ela entrou e disse: “Cheira a novo o teu carro, cheira bem”, e pôs a mão no assento. Ele cortou à esquerda, deixando Santa Trinità dei Monti à direita. E lá foram para a pensão. Quando ela começou a despir-se, fê-lo com delicadeza: brilharam as coxas doiradas e o peito pequeno, também o olhar, que desviou do dele. Ela tinha escondido o olhar num canto do quarto. “Aqui é confortável”, disse. E ele pensou: o que é que é confortável?, o que lhe pago?, esta cama com molas?, ou o prazer que vou ter? A porta do quarto tinha uma bandeira de vidro e deixava passar a luz do corredor, mas ele nem reparava: Sónia ia-se despindo à sua frente. Viu como se despia: o sorriso, a mão que acompanhava a meia até ao calcanhar, o branco dos lençóis, por detrás do corpo. Viu como ela se deitou de costas, à espera dele. E ele deitou-se em cima dela. As mãos dele agarraram-lhe os ombros e a boca meteu-se-lhe na dela. Foi assim, muitas vezes. Uma vez, ficou-lhe a impressão de que também ela gozara: prendeu-o, com as pernas, depois de ele ejacular e continuou a mexer-se. No frenesim dos músculos que tremiam e do suor que lhe humedecia os seios, ela poderia ter dito: “Milord, és o Rei!” E a verdade é que ele lhe dissera: “Queres viajar comigo?” Talvez por isso já não fosse a preço, ou fosse a preço para os dois. Ele dava-lhe aquela companhia. “Queres ir a Veneza? Amanhã, vamos ver São Marcos e as pombas...” E ela respondia-lhe com o prazer que lhe pertencia e que era como o dele, mas um bocadinho depois. Ela era bela e ele estava bem ao pé dela. Se fossem a Veneza, ela podia deixar que a laguna lhe servisse de fundo e ele poderia olhá-la e ficar contente. E ela podia imaginar que ele a amava. Mas ela disse-lhe que não, que não iria a Veneza. Com o cabelo caído para a cara, a tapar-lhe as sardas, disse-lhe que não pusesse os pés descalços no frio do quarto: “Pode fazer-te mal...” Havia uma cama, um lavatório, um bidé e um candeeiro pendurado do tecto. Um bidé. Um cesto. Só então se apercebeu da pobreza. “Que importa?” E esperou que ela dissesse: “Sorri, ri, canta!” Ela não disse isso: enquanto tirava as pernas para fora da cama, espreitava-o e troçava: “Estás a chorar? Como devia ser bela a doce dos olhos meigos!... Destruiu a tua vida?” Ele não chorava: era o scirocco, o vento suão, que o perseguira todo o dia. Ele tinha consigo pêlos do seu corpo, um pouco da sua saliva, tinta na ponta do nariz. E o que é que ela sabia da sua vida? Que se levantasse, que tirasse as pernas da cama, que pegasse no dinheiro! Mas a bondade dos gestos, a maneira como ela começava a preparar-se para voltar à rua e aceitava separar-se dele, a linda cor do corpo, despertavam-lhe, outra vez, a ternura e o desejo na alma. “Vem comigo, está frio lá fora... e o amor faz chorar...” –dissera-lhe, a compor-lhe a gravata. Ela com os cabelos loiros, a roupa que não parecia dela, porque não parecia uma prostituta. Estavam-lhe todas as coisas a mais: a blusa acanhada, as pinturas na cara, a mala debaixo do braço. Parara o carro. Metera-a lá dentro. Tivera-a. Pagara-lhe. Ela, agora, ia embora. Ia pôr-se aos pés de Santa Trinità dei Monti, ali, encostada à esquina.

in Crónicas Italianas

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