terça-feira, 21 de abril de 2009

O dia de hoje...


O Ocidente entrou em agonia... Quando se escrevem coisas destas, corre-se o risco de parecer que se enchem chouriços, com palavras soltas ou lugares-comuns pimpões. Mas eu queria dizer, e passo a explicar: o mundo ocidental, a Europa e o Norte das Américas, o mundo onde vivemos sacrifica, sempre mais, ao bezerro d’oiro: às coisas. Coisas descartáveis, perecíveis e ocas. De nós e dos outros não queremos saber –fugimos. A vida interior, o espírito, a Cultura vão-se apagando. Atiraram-nos para cima, impuseram-nos objectos, que nos divertem –nos distraem do essencial. Pois claro, amigo, penso no consumo –no consumismo frenético (agora, refreado pela tal crise que a ganância imoral dos plutocratas criou). E tudo acontece, vertiginosamente: um dia, uma semana, um mês, uma ano –não são nada. Ou fica-nos, deles, apenas, a insatisfação, a angústia, o sofrimento, que o vazio provoca. E as nossas vidas são vazias: escravos de um sistema no qual ou somos peça de máquina que produz, ou somos consumidores dos produtos produzidos. Em 1941, um romancista francês, Paul Morin, escreveu L’homme pressé, retrato do homem apanhado na velocidade gratuita do quotidiano em que não interessa pensar, interessa atingir, usar e deitar fora sensações superficias, suficientemente breves para que dêem logo lugar a outras novas e, também ,vazias, que não ocupem, também, demasiado espaço, nem nos obriguem a interrogar-nos sobre elas. De 1941 para cá (e deveremos ler o romance de Morand como relato ferido da vacuidade dos famosos “anos loucos”, que, por exemplo, o grande Scott Fizgerald fixou, na América, e correram de 1920 até 1939), desde a segunda grande guerra a este momento, a pressa do homem foi mais e mais explorada pelos tais ávidos compradores de almas -os donos do capital. Dirás, amigo, que a febre d’oiro, que lança o homem na acumulação de bens e consequente poder –é mais um modo de fugir de si próprio. Claro que é! Mas de forma eminentemente criminosa: à custa do próximo. Restam as elites. Choca-te, que o diga? Mas digo a verdade, não temo a palavra! Restam aqueles que se opõem à nova escravatura consentida, aos suicídio colectivo –à destruição da vida e do mundo. Aqueles que recusam o deserto dos dias, a degradação da paisagem, o egoísmo, a indiferença, a solidão. Apesar desses que o fazem sofrerem solidão: isolamento: e penso em mestres, como António Sérgio, José Régio, André Gide, Albert Camus, Thomas Hardy, Virginia Woolf, Doris Lessing, Ibsen, Tchekov, o santo Dostoievski, o imenso Antero de Quental -assim, ao acaso, penso... Recordo obras nossas, como A Velha Casa, do citado Régio, os contarelos geniais de Irene Lisboa, a poesia de Afonso Duarte, os Ensaios, de Sérgio, que dormem, esquecidos, nas prateleiras de bibliotecas ou daqueles, cada vez mais raros, que interrogam o sentido da vida e não querem transformar-se em objectos, cheios dos objectos que lhes impõem.
Tanto fica para discutirmos!... E é fundamental debater, discutir!

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