sábado, 4 de abril de 2009

O dia de hoje...


Illusions Perdues, de Honoré de Balzac (1799-1850). Ao cabo de vinte páginas, agarra-nos o génio, a força vulcânica, a lucidez implacável no recorte das personagens e das paixões, subjuga-nos um romancista único, que Rodin fixou na pedra: torturado, ardente, em movimento nem ele sabia para onde. Abro o livro, leio em francês. E tenho a certeza de que, em breve, muito pouca gente lerá e falará francês. Não só entre nós: infelizmente, o francês (quarta língua mundial) parece condenado a ser idioma de elites. Um inglês rudimentar, comercial, desenrascante vai substituindo o francês. O inglês e a cultura inglesa são admiráveis. O francês e a cultura francesa são admiráveis. A nossa cultura cresceu com os olhos na França. Virar a cultura portuguesa as costas à França é um disparate, é renegar raízes. Cada caso é um caso –e o nosso não tem que coincidir com o de outras culturas. No desastre que enterra e destrói, por cá, o ensino, o francês -tal qual outros componentes das humanidades: filosofia, latim, grego..., estes já proibidos...- foi quase banido das escolas. Sabiam que, em Cambridge, os alunos de Economia têm, no curriculum, o ensino do latim e da filosofia? Sabiam que, nos USA, o latim é considerado necessário ao estudo da matemática? Dói na alma, ver o que vemos: um conceito utilitarista, mercantil tomar conta do ensino –tomar conta do espírito. A derrapagem do Magalhães é uma anedota –mas é bem feito! Agiotas à frente de países e de culturas merecem... a Sibéria (pobre Sibéria, se a condenássemos a aturar sinistras cabeças-cabaças ocas...). Por causa desses crimes -e por vias sinuosas- chegamos ao aleijão mental. À anquilose de que fala José Marmelo e Silva, na estupenda novela, precisamente intitulada: Anquilose.



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