quinta-feira, 9 de abril de 2009

A vida maltratada


Num livrinho praticamente desconhecido, “Notas de Inverno sobre impressões de Verão”, Dostoievski fala, revoltado, da sua primeira viagem à Europa (1862/63). Ataca, também, a situação do homem (o Império russo era mais que desastroso): a miséria moral e social, a hipocrisia e egoísmo –a vida maltratada. E a verdade é que Dostoievski a sofreu, e de que maneira!: injustamente condenado à morte, amnistiado no último minuto, degredado na Sibéria, humilhado e ofendido. À sua volta -e não só na Europa-, deparavam-se-lhe a desumanização, a prepotência, a indiferença. Contra isso tudo se ergueu, obstinada, corajosamente. Escrever foi, para ele, um combate.

É verdade que os seus romances vão muito além do circunstancial; mas, por estranho que pareça, a intervenção humanista, cristã, trouxe-lhe e garantiu-lhe leitores. Quando morreu, o último exemplar de “Diário de um escritor” (obra menor dentro da sua obra maior), vendeu 14.000 exemplares, coisa extraordinária ao tempo. A rebeldia do escritor custou-lhe até ao fim, a perseguição policial dos czares e, durante o comunismo, o limbo (publicava-se, quando se publicava, censurado). E a indiferença e o colectivismo asfixiadores repugnavam a Dostoievski, afligiam-no.

Passados mais de cem anos, o que mudou? Liquidaram-se (?) o nazismo e o fascismo; morreram (sem julgamento) Salazar e Franco; desagregou-se, desfez-se a União Soviética –e que trouxe de bom o neo-liberalismo, agora a entrar na agonia e a espernear para não desaparecer? Cuidou do terceiro mundo? Da saúde? Do acesso ao ensino –condição de plena realização humana? E o que é, realmente, a Europa? O que significa esta paralisia demográfica, sintoma de miséria e medo? O que quer dizer esta crise, esta hipoteca de nós próprios, atolados, condenados ao desemprego e à beira da fome –afinal, sempre, humilhados e ofendidos?

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