
Nunca pesou, como pesa hoje, o mercado e a obsessão do lucro. Reclamou Benedito XVI, em “Caritas in Veritate”, o respeito pela moral. Prega no deserto? À moral, substituiu-se a ganância do ganho. E aquilo a que assistimos, no plano da Cultura, tem um nome: retrocesso. Edita-se o livro medíocre, aconselha-se o livro medíocre –e muito simplesmente porque, sendo o que mais se vende e a incultura aceita, o mercado o impõe. O público desinformado atem-se ao que se molda e agrada à própria ignorância –e quem investe quer o retorno e não está disposto a perder tempo com a educação do ignorante: nivela por baixo. Não só quem publica, também os pseudo-críticos, acolhidos em pseudo-páginas de artes e letras. O fenómeno atingiu tais proporções, tal amplitude, que o ensino mesmo da Literatura e os programas de leitura aconselhados, em vez de o atalhar, servem-no. E, à urbanização monstruosa, soma-se o processo de analfabetização em curso (PAC).
E a juventude, especialmente atingida, não avança, retrocede, o jovem leitor, que busca a resposta às suas inquietações, encontra conversa fiada. A juventude procura, em vão, pontos de apoio, Mestres. Em vão, porque os Mestres foram riscados do “menú do mercado”: não rendem: não reúnem as condições que o mercado exige e o público desinformado pede: superficialidade ou pornografia ou as duas coisas juntas. Os jovens são órfãos à força. Honra às excepções: assinalo e saúdo a excelente iniciativa das “edições-nelsondematos”: a “Biblioteca Juvenil”, que relança autores fundamentais: Defoe, Swift, Rider Haggard (magnificamente traduzido por Eça) e Mark Twain. Porque Robinson Crusoe, Gulliver, Tom Sawyer e Hucleberry Finn são referências de há muito, que enriquecem. Cada um se constrói e se afirma sobre os próprios alicerces. Mas quais, ao acordar no deserto do espectáculo vazio, irresponsável e (obviamente) lucrativo? Nunca, como hoje, se vendeu tanto gato por lebre.
Caro Manuel:
ResponderEliminarInfelizmente, já não há jovens a ler com a ávida voragem de cometer um desvio as "aventuras de tom sawyer". Ao ler este pedaço de liberdade recordo a minha leitura nocturna das travessuras de Tom e Huck, e das suas revoltas, medrosas é certo, contra o status instalado. Hoje sinto-me mal nesta sociedade nojenta que tenta fazer com que os mais jovens sejam aprisionados.
Hoje tenho menos Mestres do que tinha antes! Tenho nojo desta sociedade que até aos Mestres francos e puros consegue aliciar e transformar em seus escravos.
A si, a quem considero já um meu Mestre, deixo um abraço.
Daniel Rocha
É bem verdade!
ResponderEliminarAlém disso, hoje, qulquer "macaco" escreve um livro...