
...mesmo com muita, muita água no bico: a das praias... e outra, que passo a descrever:
o cidadão tem dois meses à frente em que espera, descansa e recupera as forças. Quer lá ele pensar naquilo em que, inevitavelmente, terá de pensar, depois: no custo da vida, na violência do quotidiano, na crise implacável, a crescer e não resolvida, como, irresponsavelmente, disseram para aí... Dois meses -Julho e Agosto- em que cada um de nós o que quer é esquecer a realidade bruta, desumana, dura, dificílima.
Em Setembro, então, toca a afrontar a realidade: o emprego (se o tiver...), mal parido, que não lhe deixa tempo para si próprio, o absorve quase dia e noite; a precariedade do emprego (e são tantos os empregos precários; a prazo; de recibo verde...); as matrículas dos filhos; o custo dos livros dos filhos; o preço da paparoca; as prestações da casa; as prestações do carro. As prestações dele próprio: o preço que tem de pagar para estar vivo.
Quer lá saber da política! Da desacreditada, amaldiçoada política, ‘certamente’ responsável pelo desastre social que o sufoca, da ‘porca da política’! E, certamente, quase certamente?, nada hesitar: certamente nem quer ouvir falar nos aldrabões dos governantes (assim pensa o cidadão comum)... que arranjaram, eles, os políticos, é que arranjaram!, aquele sarilho... Eleições? Querem lá saber delas! Ainda há pouco tiveram outras: as europeias! Decidir? O quê? Se ganharam “aqueles”... Por que não “aqueles”?
Aos partidos, restam, após as férias, praticamente duas semanas “úteis”. É o tempo real da campanha eleitoral. É nenhum tempo. A “onda positiva” do triunfo de Ferreira Leite não será contrariada. Ferreira Leite continuará, tranquilamente, a apresentar-se, durante e depois do intervalo reparador (reparará alguma coisa?). Ferreira Leite, a impoluta: não é governante (terá sido alguma vez política?...) e, na memória de amendoim, na incrível memória pigmeia do eleitor, que tudo esquece, mesmo os pontapés que lhe dão, ela nunca governou nem é responsável por este desastre...
Ao escolher o dia 27 de Setembro próximo como data das eleições legislativas, Cavaco sabia o que fazia. E o que fez e faz aproveita-se do cenário estivo que descrevo acima e beneficia, descaradamente, a candidata do PSD. Essa é a água no bico de uma escolha retorcida. E água pesada! Só quem for ceguinho é que não vê o gato escondido com o rabinho de fora.
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