domingo, 5 de julho de 2009

O dia de hoje: um escritor alentejano de alma universal Fialho de Almeida com o estilo exuberante e alma torturada palco do mal e da candura...




...natural de Vila de Frades-Cuba e mais um português primo de russos...


Um outro escritor, que, na raiz, com ele bastantes coisas, tem a ver, Raúl Brandão, evoca-o -páginas extraordinárias-, em “Vale de Josafat”, terceiro volume das “Memórias”, e diz: “No fundo era um misto de cavador e de boémio”. Não ofende. Fialho é de origem humilde, descendente de camponeses, o pai caixeiro antes de chegar a mestre-escola. Isso marcou-o? Parece que sim e basta seguir o inteligente, claro e utilíssimo estudo/antologiua sobre o escritor, "Fialho de Almeida", de Jacinto do Prado Coelho, publicado em 1944 e (temo) incrivelmente nunca reeditado.

Fialho sofria a baixa condição social e sonhava com a riqueza. Tudo indica que o casamento com uma rica herdeira, também alentejana, fosse de interesse. Depois, exibiu a fortuna. Sempre descontente, porque o problema era outro e mais, muito mais, fundo: aguentar a vida. A brutalidade da vida. Não se adaptou a ela –chocou-o, desde a infância. O mal: os destinos espezinhados, as almas humilhadas e ofendidas. E aí está Dostoievski, aí estão os russos, nossos parentes, sei lá por que bulas! “Contos” (“A Ruiva”, por exemplo) e “A Cidade do Vício” (“O roubo”, “O morgado”) têm páginas quase insuportáveis. É uma descida aos infernos –que o quotidiano hipócrita, disfarçado e aceito, esconde. São gritos –e por aí Raúl Brandão é seu compadre, o Brandão de “Os Pobres” ou do lamento obsessivo que atravessa “A Farsa”.

À hora da morte, Paul Valéry, o cerebralíssimo Paul Valéry, indignado, constatou, exclamou: “La vie n’est qu’une grande couillonade!” Fialho e Brandão apostrofaram a absurda condição humana, desafiaram-na, porque nunca deixaram de a amar, malgrado a sua violência.

Raúl Brandão visitou Vila de Frades e Cuba, onde Fialho acabou por morrer, sem assistência, a ‘angina pectoris’ a estoirar-lhe a arca do peito. Viu a imensidade da planície alentejana, o silêncio da vila fechada. Trazia, consigo, dentro de si, a obra de mais um torturado (e não é por acaso que lembra Camilo, sozinho, à mesa de trabalho, no perdido S. Miguel de Seide, o vento e a chuva nas janelas e, ao longe, o Monte Córdova, mudo). E perguntou-se:

Tudo acaba na terra? O fantasma que se pôs a caminho soluça cada vez mais alto. Nem com a morte o debate cessa. A dor está viva, e o desespero vivo como na primeira hora. Folheio-te e a tua voz persegue-me. Talvez a felicidade te fosse vedada na vida –talvez o teu quinhão fosse outro...”

Jacinto do Prado Coelho cita: ‘Sentia uma imensa necessidade de afectos’ –escreve Silva Teles, que alude também (no artigo do ‘In-Memoriam’) a uma ‘hipertrofia da sensibilidade’.

Sem dúvida: Fialho era um vagabundo solitário, um insatisfeito visceral. Correu a noite de Lisboa e, assim, pôde surpreender as figuras trágicas, que fixou, magistralmente: os perdidos da vida. Precisava do mundo dos marginais: buscava-o. Do mesmo modo que observou, denunciou, arrasou o mundo dos instalado na vida e na indiferença. Mas mesmo esses privilegiados, a quem o sofrimento dos pobres (‘ralé’, segundo eles) não toca –esses, afinal, parceiros de uma comédia monstruosa, o nosso dia a dia sem sentido, os mostra o grande Fialho, inesperadamente fraterno e generoso, pobres cuja própria pobreza e o ridículo do próprio baile, da autodestruição (voluntária ou involuntária?), que os vitimam, ignoram, cordeiros de Deus, como os mais.

E, no meio de tudo, desponta, de quando em quando, a nostalgia de Fialho. É a vida simples da aldeia, o ritmo harmonioso da lavoura, a beleza do campo, o fascínio da terrível planície, necessariamente heróica, porque exige, aos que a afrontam, a coragem da entrega ao desconhecido. É o mundo idealizado, a chamar por ele.

Breve, certamente, essa esperança; depressa voltaria a revolta e a luta dos contrários: a candura da adolescente que vende amores perfeitos e transforma flores fanadas em cristais de alma, exposta ao insulto dos passantes... E o grito dos abandonados. E a marcha dos condenados à morte em vida. E a luxúria. E o pecado. E o nada –o nada que vem logo a seguir, outra vez, inexorável, o mais indiferente dos indiferentes...
em cima, o retrato a óleo, de Fialho, por Columbano

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