
Há dois livros de André Gide que são breviários dos adolescentes agrilhoados: “Les Nourritures Terrestres” e “Le Retour de L’Enfant Prodigue”. Tal qual “Sidarta”, de Herman Hess. E transcrevo esta passagem de “Les Nourritures Terrestres”: “Dentro de ti, ouve, apenas, aquilo que sentires que não existe em nenhum outro lugar e faz, de quem és, impacientemente ou pacientemente, ah!, o mais insubstituível dos seres”. O ser inimitável, irrepetível, único. “Respeita a tua vocação!” alerta Gide, com palavras adivinhadas por Luís Miguel, herói da obra-prima de José Marmelo e Silva, “Adolescente Agrilhoado” (6ª edição, Campo das Letras), e que a sociedade, o meio e as gentes lhe proibiam sequer soletrasse –ousasse pensar. Essa novela fabulosa data de 1948 (rescrita em 1958) e a sua actualidade tem a evidência e a dureza das pedras. A nossa sociedade –a de hoje- despreza e rejeita as vocações: o adolescente é mais um número, que será afeiçoado à imensa máquina produtiva.
Olhando em volta e para os princípios que regem o ensino, revolta-me verificar que se fabrica uma geração de analfabetos, de desqualificados. Isto é: distribuem-se diplomas assentes na aprendizagem de nada. A razão está exposta: a proibição de cada um ser como realmente é; a formatação do Indivíduo. E a caravana dos adolescentes agrilhoados aumenta dia a dia. Li, no “The Independent” desta semana, uma notícia curiosa, sobre um fenómeno japonês a que chamam “geração herbívora”: milhares de jovens (também em aumento) recusam a nova escravatura neo-liberal, que, irremediavelmente, os castra à nascença ou anquilosa e os obriga a desistirem da própria individualidade, da singularidade sagrada. E regressam ao campo.
“Dentro de ti, ouve, apenas, aquilo que sentires que não existe em nenhum outro lugar e faz, de quem és, impacientemente ou pacientemente, ah!, o mais insubstituível dos seres”.
ResponderEliminarLindíssimo!!! Assim deveria ser.
Folgo por vê-lo, de novo, enérgico e actuante. É bom tê-lo de volta.