
Manuel Ribeiro (1878-1941) escreveu coisas sérias. É um autor menor? Sim, não se compara, por exemplo, a outros novelistas alentejanos, como os “grandes” Fialho de Almeida e Manuel da Fonseca, não atinge as alturas do Noel Teles, de ‘Terra Campa’... E, no entanto, no seu romance que leio, ‘A Planície Heróica’ (a capa, reproduzida acima, é da autoria de Bernardo Marques), há qualidade que justifica tentar arrancá-lo ao esquecimento: a sinceridade. Manuel Ribeiro obedece ao imperativo íntimo e conta uma história que não pode deixar de contar –está-lhe dentro, viveu a realidade que descreve, apaixonou-se por ela e expressa-a. Ora essa ‘razão de ser’ do livro representa um inestimável valor. E porquê? Em primeiro lugar, porque a verdade da intenção é de admirar, estimar, respeitar; depois, porque no nosso tempo -este, agora e aqui- proliferam os falsários da escrita: nomes de quem ‘fabrica produtos’ que se adaptam à exigências do mercado e, para isso, plagiam, cambalhotam, emporcalham, de olho na pornografia que vende.
‘A Planície Heróica’, escrito em 1927, constitui, também, um notável testemunho do Baixo Alentejo, denuncia as brutais injustiças sociais de um Alentejo ferido, que talvez ainda estejam longe de completa solução. Manuel Ribeiro, que foi anarquista, libertário, preso político, exilado, e se converteu ao catolicismo, cumpriu uma existência singela, na sua aldeia de Albernoa, freguesia de Beja. Deixou obra, relativamente, vasta, generosa, amassada no barro precioso e bom de uma exigência moral que o acompanhou ao longo da vida e foi raiz da sua obstinada intervenção social. Os seus romances são denúncias corajosas, gritos de alma, sinais de amor verdadeiro à vida e ao próximo.
Amigo: vale a pena revisitá-lo. Deixando, é certo, a crítica fria em casa e substituindo-a por aquilo a que Régio chamava a crítica compreensiva e..., acrescento eu, ‘simpática’... Afinal, de pseudo-génios está a nossa praça literata cheia... Honra aos escritores honestos, ainda que menores!
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