sábado, 11 de julho de 2009

O dia de hoje: as confidências e a nossa verdade verdadeira as palavras que limitam e a insinceridade





Foi nessa torre -ao fundo da imagem ao lado-, retirado do mundo, que Michel de Montaigne (Bordéus, 1533-1592), filho de um rico comerciante e de uma judia portuguesa, Antoinette de Loupe [Lopes], escreveu um dos livros mais ricos do humanismo renascentista: os ‘Ensaios’. Observou-se, abriu-se, expôs-se. Com a franqueza possível –cerceada, afinal, pelo arco da coragem de cada um, no acto de expor-se.

Não há descrição mais difícil, nem mais útil, do que a descrição de nós próprios’. E isso porque ‘cada homem encerra, em si, toda a humana condição’ e, descer nessa, exige inteligência, intuição e paciência.

Depois, a natureza humana revela-se em constante mutação: em movimento. E a certo ponto, é Montaigne quem diz: ‘eu não descrevo o ser, descrevo a passagem’.

O universo dos ‘Ensaios’ do bordalês é de tal modo complexo, que nunca se esgota –ninguém, até hoje, deu por finda a sua leitura ou por definitiva a sua explicação. Humildemente, toca-nos limitar-nos e dar pequeninos passos, quando nos aproximamos dele.

E, hoje, vou buscar esta passagem, do III, e último, Livro dos ‘Ensaios’: ‘Às vezes, tenho a impressão de estar a trair a história da minha vida. Estas declarações públicas [‘Ensaios’] obrigam-me a seguir certo caminho e a desmentir a minha [verdadeira] imagem.

Aquilo que me alertou a curiosidade foi o seguinte (e é, julgo, o que pretende dizer Montaigne): enquanto escrevemos, vamos condicionando a nossa atitude, porque o que escrevemos nos obriga a ser-lhe fiel. Porque nos obriga a sermos coerentes e a procedermos de acordo com o que ficou escrito. Ora o homem revela-se em movimento e o preconceito (a ideia feita, porque, escrevendo, fomos transmitindo uma ideia, uma imagem de nós próprios) tolhe, adultera o movimento. E das duas uma: ou mentimos, para não chocar o leitor, que espera de nós fidelidade ao anteriormente escrito; ou, para não desiludir o leitor e não parecermos incoerentes, forçamo-nos a uma conduta que não corresponde à nossa verdade profunda.

Em suma: somos prisioneiros das nossas palavras. Então, que será feito da nossa ‘sinceridade’? Que pensas, amigo que me lês?

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