Canal Grande: o crepúsculo da manhã
O milagre do diaOntem, a BBC transmitiu um documentário sobre Veneza e, às primeiras imagens, murmurei: “sono a casa" ["estou em casa"]... Deslumbrado com Londres, confidenciava-me a incurável paixão.
Veneza... Lorenza. Mirella, O Pássaro de Vidro... A Mulher Nua... Os Amantes Voluntários... Os meses, quase anos, lá vividos... À noite, no Inverno, a Piazzetta deserta. O ângulo, o canto do Harry’s Bar e as contessine, Paola e Mónica, rostos de Renoir, esplêndidas na adolescência voraz, impensada e alegre. O americano gordo, a perguntar-me onde as descobrira, onde fora buscá-las... Il Calice, do aperitivo ao meio-dia, dizem-me, que já fechou... As osterie: La vedova, Due Mori, Il Paradiso Perduto... O Carlos Soares e a amante francesa. O indomável Aldo Zari, o pintor mais pobre de Veneza, aventureiro das mãos de oiro. A laguna: Burano e as casas pintadas, o quadro de Moggioli, Valerio Zurlini, que aparecia, no Outono, metido consigo, de acordo com o seu filme: Il deserto dei Tartari... O copo de vinho que bebíamos, juntos, no Da Romano... Catherine Donner, a amiga de Namur. Há tantos anos! Foi ontem? Volta a ser hoje, agora, aqui. Comigo.

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