terça-feira, 14 de julho de 2009

O dia de hoje: páginas viradas



O hábito dos tempos de estudante continua a decidir o meu modo de virar a página de cada ano. É, pois, à beira das ‘férias grandes’, tão esperadas!, que pressinto a mudança e faço o balanço. Agora, especialmente, porque vou viajar e deixo, atrás, o cenário de muitos dias de luta, dúvida, alegria, desespero e ressurreição. Hei-de voltar um dia, como o herói fantástico de Branquinho da Fonseca, o mítico Barão, prometeu... E retomaremos a nossa conversa, amigos!

E, no instante -mínimo- de paragem, entre cá e lá, entre hoje e amanhã, entre a partida e o regresso, abri um singelo livro de um velho e sempre escutado Mestre: ‘Música Ligeira’, de José Régio, obrinha publicada póstuma e mal amada... como, brutal e vergonhosamente, o foi, nos últimos anos de vida, e por culpa de meia dúzia de literatos pelintras, o grande, enorme, único genial escritor.

Escolhi o seguinte poema, em que, mais uma vez, e à beira da morte, Régio canta o amor à vida, o desafio aos deuses mudos, a viril admiração pela coragem de opor, ao provável Nada, a beleza (e levo um tesouro, na minha nova viagem):

Canção do Velho Poeta

Moço aventureiro
Que os primeiros passos
Desprendes, ligeiro,
Com mira aos Espaços,
Velho pouco posso, tudo mal consigo,
Mas irei contigo.

Moço trovador
Que inda pelos dedos
Medes a rigor
Teus subtis segredos,
Nem que nenhum verso já persiga, -sigo:
Rimarei contigo.

Moço apaixonado
Que do amor nem sonhas
Que o menino alado
Tem manhas medonhas,
De amor já sei tudo! Mesmo assim te digo
Que amarei contigo.

Moço ilusionista
Que a vida resumes
A acender na pista
Teus fingidos lumes,
Nem que nem no Engano possa achar abrigo,
Fingirei contigo.

Velho grande atleta
Gasto já mas lutas
Por não sei que Meta
Que até fim disputas,
Mesmo se encolhido ao mais pueril perigo,
Lutarei contigo.

Nunca nada tive,
Menos tenho ao fim.
Nunca de si vive
Quem vem ao que vim.
Parto, mas cantando. Meu mundo inimigo,
Mesmo que me expulses, ficarei contigo.




1 comentário:

  1. Também por esta altura tenho esse hábito :)
    Há dias num jantar falámos sobre José Régio.
    Gostei deste poema, que não conhecia.

    Boa Viagem!

    Gábi

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