domingo, 30 de agosto de 2009

O primeiro camarada que ficou no caminho...

...em Paris, no Louvre, a pirâmide de vidro de Ieoh Ming Pei, chinês de Cantão naturalizado americano...


O primeiro camarada que ficou no caminho -título de um conto de Manuel da Fonseca, em Aldeia Nova-, ensinou-me certa luz da vida. Pertencia a uma espécie já extinta, a dos românticos dos anos 40/50 do século passado, o XX.

Lia, de Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, vibrava com António Nobre, a quem chamava “o purinho”, não perdia nenhum filme francês, acarinhava as poesias de Mário de Sá-Carneiro, ameaçou os pais que iria alistar-se na Legião Estrangeira, era um boémio incorrigível da noite lisboeta e foi amante involuntário de mulheres que se chegavam ao brilho da sua juventude desprevenida. Apaixonou-se, fatalmente. Lia e relia Cartas que me foram devolvidas, de Botto.

O que terá sido feito das cartas que lhe foram devolvidas? E das poesias que escreveu e se perderam, porque, nómada de quartos alugados, ia deixando tudo atrás de si, bagagem inútil, o mais levava-o dentro de si. Guardo, religiosamente, os voluminhos da Colecção ‘Novela’, que se vendiam a três escudos e cinquenta centavos e Ele lia e, depois, me oferecia...

Um vez, disse-me que Alida Valli, a actriz italiana que Visconti recuperou em Senso, era a mais bonita do mundo (muitos anos depois, cruzei-me com ela já de muita idade, na Piazza Navona, na esplanada do Tre Scalini; Ele, se a visse, voltaria a dizer-me que ela era a mulher mais bonita do mundo, porque, realmente, a beleza se mantinha imaculada em Alida Valli, diáfana, aristocrática..., astral, como Ele gostava de dizer). Outra vez, recomendou-me Marguerite de la Nuit, o filme de Claude Autan-Lara, adaptação da novelinha de Pierre Marc Orlan. Juntos, vimos, no velho Cinema da Guarda, Limelight, de Chaplin. Não calhou partilharmos Le Carrosse d’ Or, de Jean Renoir... A verdade é que ela, Alida, e eles, esses filmes, desenhavam o seu universo: a mulher inatingível, a noite e os vagabundos, o amor impossível, o ritmo fantástico de vidas sempre breves –como foi a sua.

Adorava Paris e trauteava a canção Sous le ciel de Paris, interpretada por Edith Piaf. Conheceu Paris a quinze dias da morte: lá lhe confirmaram uma leucémia galopante, que o vitimou com a idade de Cristo. Sempre o temeu, era um supersticioso ou um visionário. Bernardo Santareno, grande, nosso fraternal amigo, quando me abraçou, disse-me que Ele tinha uma estrela azul na fronte. Tudo isso, há 49 anos.

Hoje, calhou lembrar e procurar Piaff e lembrá-lo a Ele. E lembrar, porque lhe passei ao lado, Georges Brassens cuja expressão do olhar tem muito da humanidade aberta do amigo perdido...
Juntei, aí em baixo, duas canções que desejo dividir. É só abrirem.

(...coisas de um romântico sobrevivente, duplo do último moicano, como me definiu o poeta (astral...) Nathan Zach, em Telavive... )


http://www.youtube.com/watch?v=uOXzGtlLGgw

http://www.youtube.com/watch?v=YQd0YPfQcNw

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