...engatar uma bifa...É conhecida a frase de Eça de Queirós: “Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo”. Alías, trocaria “vernáculo” por “calão”. Ele lá sabia...
Quando Eça escreveu o artigo, nunca publicado em vida, “O Francesismo”, era o século XIX e tudo muito diferente. No entanto, esse “francesismo”, com raízes antiquíssimas, que nos marcaram, por cá brilhou no século passado: o XX, que foi ontem. A nossa referência cultural, a nossa simpatia, a nossa agitação –chamava-se França. Liam-se escritores e jornais franceses, seguia-se, atentamente, a política de Paris e vibrava-se com ela. A verdade é que não podíamos vibrar com outra: o salazarismo fechara a torneira do pensamento e da opinião, sobretudo, no que dissesse respeito à terrinha. Salazar confessou que não sabia governar sem censura. E que censura! A do medo. A que levava escritores e jornalistas a autocensurarem-se: em certas coisas nem valia a pena pensar... Nós corríamos às livrarias do “clandestino”, às que vendiam por baixo da mesa os ‘frutos proibidos’, porque mesmo as coisas de França eram censuradas... Mas, ao menos essa, a Cultura francesa acabava por nos ajudar a não perder o indispensável hábito de treinar, de praticar as ideias. Hoje, o ensino do francês é matéria defunta –e é um crime, que, em grande parte, em grandíssima parte (atendendo à confusão lançada no ensino e à orientação que tentou dar-lhe) se deve à macabra firma “Lurdes & Lemos & Pedreira, Sociedade de Irresponsabilidade ilimitada’, cujos disparates o PS vai pagar, infelizmente, com língua de palmo. E esse desinteresse, esse pôr de parte o francês, a Cultura francesa, atingiu-nos na raiz.
Substituíram-lhe o ensino do inglês. Pergunto (e aconselho-te a averiguar, amigo): a juventude lê os clássicos ingleses? Segue os escritores modernos ingleses? Interessa-se pela realidade social inglesa? Não; a juventude aprende o “ingloide”, que lhe permite surfar na internet, escrever minutas comerciais... engatar uma bifa... E mais não lhe é exigido. Por ironia, o “Guardian”, londrino, em parangonas de primeira página, apontava uma geração perdida. Lá como cá? Não consola: aflige. O neoliberalismo criou a geração utilitária –aproveitável pela máquina do capital. E, em pleno século XXI, o progresso é retrocesso.
Substituíram-lhe o ensino do inglês. Pergunto (e aconselho-te a averiguar, amigo): a juventude lê os clássicos ingleses? Segue os escritores modernos ingleses? Interessa-se pela realidade social inglesa? Não; a juventude aprende o “ingloide”, que lhe permite surfar na internet, escrever minutas comerciais... engatar uma bifa... E mais não lhe é exigido. Por ironia, o “Guardian”, londrino, em parangonas de primeira página, apontava uma geração perdida. Lá como cá? Não consola: aflige. O neoliberalismo criou a geração utilitária –aproveitável pela máquina do capital. E, em pleno século XXI, o progresso é retrocesso.
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