domingo, 16 de agosto de 2009

O dia de hoje: a contagem decrescente e o ter ou não ter respeito pela dignidade humana...

a liberdade é o primeiro e fundamental direito do homem...




Não conheço nenhuma tradução portuguesa do ensaio de Étienne de La Boétie -já por mais de uma vez aqui falado- ‘Le discours de la servitude volontaire’. Existe? Gostaria de saber. Realmente, durante os quase 50 anos salazaristas, a publicação da obra-mestra do grande amigo de Montaigne seria impossível: o ditador não o permitiria. E ter-se-à criado o hábito de não pensar nisso: em traduzir um dos mais lúcidos e esclarecedores trabalhos condenando as ditaduras...

Não fustiga La Boétie, somente, as ditaduras: denuncia e castiga a passividade daqueles que se deixam dominar, escravizar. A inércia daqueles que nem se escandalizam, nem se interrogam, nem protestam –quando se descobrem servos. Em suma: quando se habituam à condição de escravo. E esse hábito é, para La Boétie, o resultado do desuso da liberdade. E a liberdade, uma vez perdida, e longamente perdida, dificilmente volta a ser para o oprimido o valor essencial que era.

O 25 de Abril foi há 35 anos –e, para muita, demasiada gente, o ‘hábito’ ainda não é aquele que, naturalmente, devia ser: ainda perdura outro ‘hábito’: o de não pensar nos direitos e obrigações cívicos. E ainda se não reinstalou, em todas as consciências, o direito à liberdade.

A liberdade é mais do que um direito: é uma questão de honra, de vertgonha na cara –de obrigação, porque descurarmos a liberdade significa não nos respeitarmos a nós próprios e desistirmos da condição de pessoa digna, íntegra, inteira.

Falta um mês e 11 dias para as eleições –especialmente importantes porque atravessamos uma crise grave. Mais do que nunca devemos pensar e repensar tudo o que nos rodeia.

La Boétie lastimava os resignados, os habituados à inferioridade social e escrevia:

‘...existem, porém, outros que nunca se submeteram [às condições adversas] e que nunca esqueceram os seus direitos naturais [os seus direitos cívicos] e, em todos os momentos, os reivindicaram.’

E, mais uma vez: abstermo-nos de votar é entregar a chave ao ladrão –a chave da nossa alma. É colaborar na eternização do genocídio em curso, obra do neocapitalismo e do neoliberalismo sem rédeas –selvagens.

1 comentário:

  1. O Discurso sobre a servidão voluntária, traduzido por Manuel João Gomes, foi editado pela Antígona.
    Há uma versão brasileira disponível aqui em http://www.culturabrasil.org/zip/boetie.pdf
    EJM

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