
O quadro, de Kirsten Stoltmann, está exposto na conhecida Saatchi Gallery, em Londres. Será uma obra de arte? Diz-te alguma coisa? Não será senão mais uma das muitíssimas tentativas de conquistar a primeira página? Impressionará, chocará, sequer?...
Levantar a questão serve, para abordarmos um problema actualíssimo: o da obsessão da pornografia. E outro, que assinalo acima: o do cansaço da arte ou o beco sem saída.
Vamos ao primeiro: não há filme sem que uma secretária não salte para cima do patrão, uma mulher não abra as coxas no assento da frente ou detrás do automóvel, um onanista não espreite o orgasmo da vizinha, ninfomaníaca (ou outra onanista, ou uma exibicionista) em acção –e por aí adiante. Não há romance, sem a sua dose do mesmo. E, pelo visto, não haverá pintura sem púbis (ou pénis)...
Erotismo... ou pornografia de salas de luz vermelha? Resposta oportunista (a pornografia ‘é o que está a dar’) à impotência, à frigidez galopantes? Conseguirão essas imagens e descrições desbancar o Viagra? Se calhar, não passa disso...
Cansa..., tal qual a arte se cansou. É, sempre, difícil encontrar o nosso caminho. Picasso dizia: “encontro, criando”. E encontrava. Mas isso dá trabalho, cansa. E é mais simples improvisar qualquer coisa que pareça diferente, que nos projecte num palco qualquer, que surpreenda... Foi o que buscou a Stoltmann? É a saída por que optam milhares (milhões) de outros? Acontece, porém, carecer de força o que não verdadeiramente nosso, não nos sai de dentro e pretende, apenas, destacar-se, singularizar-se. O que não é nosso nasce morto. Depois, e por issso, os milhares (milhões) de ‘brincadeiras’ (criar é um coisa séria, expor o que vai na alma é uma coisa séria) cansam: repetem-se demais. E quem o faz dá com o nariz na parede de fundo do beco sem saída...
É um risco escrever o que escrevi? Eu sei que é –e talvez vá, certamenete vou contra a onda do ‘que está a dar’... Talvez, tu, amigo, sinceramente aches o quadro da Kirsten Stoltmann uma obra de arte... talvez discordes de mim... Oxalá discordes! Isso quererá dizer que tu queres ter uma -a tua- opinião e não queres ir com as de outros... portanto, esteja ela ou não a dar, nunca seguirás a voz comum... a massa...
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