domingo, 2 de agosto de 2009

O dia de hoje: o quarto escuro

pintura de Burri


A morte de um homem é um acontecimento banal. Todos os dias morrem milhares de homens. Os jornais e as televisões seleccionam as mortes que, pela espectaculosidade e actualidade, devem interessar. Mas poucas interessam; o que há mais é assassinatos, tiros, facadas, roubos e, no Iraque ou no Afganistão, menos de duas dezenas de mortos não vale nada. O leitor passa adiante. O crime sexual, suficientemente pornográfico, ainda vá, o resto... ninharias! A morte de Gary Hanshaw, 22 anos, um jovem de Daghenam, subúrbio de Londres, interessou-me, arrepiou-me, deixou-me gelado. Não se trata de uma morte vulgar –é monstruosamente extraordinária. Assistiu-se a uma inumana condenação à morte. Gary, alcoólico desde os 13 anos, nos meses anteriores à hospitalização –sofria de cirrose irreversível- esvaziava 3 garrafas de vodka por dia. Três é espectacular, mas o alcoolismo juvenil já não surpreende, também ele um detalhe do quotidiano. Um aspecto aceito da sociedade de consumo. Uma consequência do neo-liberalismo -produto da escola do abandono e da indiferença. Ocasionalmente, castiga-se o infractor. Foi o que aconteceu a Gary.

Sabemos que se transplantam certos órgãos doentes. Os médicos não o quiseram fazer com Gary. Não era uma questão de tempo: ele poderia esperar. Os médicos recusaram-se a dar a Gary um fígado novo e explicaram: seria fígado desperdiçado: o rapaz voltaria ao álcool, nunca deixaria de beber. Lembro-me de minha mãe a ameaçar-me: “Olha que, se te portas mal, fecho-te no quarto escuro”. Gary Hanshaw está fechado no quarto escuro de onde não se sai. Gary tinha 22 anos e a vida à frente.
Escolhi o quadro do italiano-toscano Burri, a pensar na solidão de Gary, na sua curta vida... no mundo degradado que atravessou, direito ao poço para onde o atiraram... Perdão: para onde o atirámos: somos responsáveis por todos os Gary desta sociedade pantanosa em cuja construção e existência consentimos.

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